Capítulo 840: Esquelético como um graveto
Uma enfermaria é essencial para qualquer escola, mas nunca tinha visto uma tão grande quanto esta.
O homem atrás de mim, com uma aparência e roupas extremamente estranhas, devia ser o médico daqui. Ele tentava esconder tudo, mas ainda assim eu conseguia ver o vermelho profundo sob seu jaleco.
"Vermelho..."
Não importa o cenário, um Vermelho é sinônimo de perigo. Seus métodos são estranhos e mutáveis, cruéis e impiedosos. Mesmo com a proteção dos meus funcionários, eu poderia ser ferido por eles.
"Olá, estou aqui para encontrar um aluno." Fui educado, perguntando em voz baixa.
"Você está doente?"
"Estou procurando alguém, ele se chama Yan Fei, é meu colega de classe."
"Você está doente?" O médico parecia saber apenas essa frase, repetindo-a sem parar, e a cada vez dava um passo em minha direção.
Um forte cheiro de desinfetante invadiu meu nariz. Parecia que o médico havia se encharcado de desinfetante para esconder seu próprio odor.
Sem conseguir me comunicar, não ousava me mexer. Apertei o prego na mão, preparado para o pior.
O médico se aproximou passo a passo, até parar de repente na minha frente.
Seus olhos vermelho-escuros me examinaram de cima a baixo. Ele me encarou por um longo tempo. Quando pensei que fosse atacar, ele disse de repente: "Você está muito doente. Vejo um corpo despedaçado. Sua alma é como um brinquedo barato remendado, cheio de rachaduras, que se quebra ao menor toque."
"Você... está falando sério?" Percebi que o tom do médico não era de brincadeira.
"Consigo ver o fundo do coração de cada um. Alguns estão em botão, outros prestes a murchar. Mas no seu coração só há um cemitério e uma semente mordida, que jamais germinará." Os olhos do médico pareciam enxergar tudo. Infelizmente, sua máscara cobria a maior parte do rosto, e não pude ver sua expressão naquele momento.
"Pelo que você diz, não me resta muito tempo?" Fiquei arrepiado com as palavras do médico. Esse Vermelho era estranho, mas já estava acostumado. Todos os Vermelhos na Escola Assombrada eram bizarros. Comparados a eles, os que eu tinha visto antes, como Men Nan, a Fantasma do Poço e a Fantasma do Túnel, pareciam normais.
"Aqui não tenho remédio para te salvar, nem posso te curar." O médico parou no meio da frase e se virou para outras camas.
Pela atitude dele, parecia que meu caso não tinha mais jeito, só me restava esperar a morte. Ele nem queria se envolver comigo.
"Não, doutor! Acho que ainda posso ser salvo. Pelo menos explique direito!" Segui o médico, vendo-o andar de um lado para o outro com papel e caneta perto das camas.
As camas estavam separadas por panos brancos, impossível ver os pacientes. Mas o médico não parava de escrever e desenhar no papel. Ele também não me expulsou, só cuidava da própria vida.
"Parece que ele está meio enojado de mim?"
O médico me ignorou completamente. Não sabia se isso era bom ou ruim.
"É raro encontrar um Vermelho que ouve razão, mas ele é tão frio. Deve ter visto algo em mim para agir assim."
"Doutor, que tal me examinar de novo? Como é a semente no fundo do meu coração? Você disse que foi mordida, como são as marcas? Que tipo de coisa a mordeu?" Fiquei tagarelando no ouvido do médico. Talvez por falar demais, atrapalhei o trabalho dele. Ele acelerou o passo, entrou na quarta sala e fechou a porta do corredor.
"Aqui só tem você de médico?" Do lado de fora, ainda tinha muitas perguntas.
"Que gênio difícil. Um dia, quando tiver chance, vou levá-lo para o Depósito de Corpos Subterrâneo, deixar o Velho Wei conversar com ele."
O médico provavelmente percebeu que eu não tinha más intenções, por isso não me machucou. Ou talvez tenha visto algo especial e quisesse me evitar.
De qualquer forma, agora podia explorar a enfermaria à vontade. Desde que não exagerasse, o médico não deveria me impedir.
"Qual cama eu estava vendo mesmo?"
Fui abrindo as cortinas brancas ao lado das camas uma por uma. As primeiras estavam vazias. Quando fui abrir a cortina da quarta cama, ela se mexeu sozinha de repente.
"Yan Fei?"
Estendi a mão lentamente para o pano. Antes de tocar a cortina, uma mão pálida se esticou de repente.
Havia marcas de agulha no braço, fino, pálido, sem cor, como se fosse desnutrição severa.
"Olá." Segurei a mão suavemente. Quando minha palma tocou a dela, senti um tremor. O dono daquela mão parecia não estar acostumado ao contato físico.
Com a outra mão, levantei a cortina e olhei para a cama.
Em um lençol limpo e arrumado, estava sentada uma menina esquelética como um graveto. Parecia um passarinho ferido. Uma mão estava na minha, a outra abraçava os joelhos, encolhida num canto da cama.
Quando a menina percebeu que quem segurava seu braço não era o médico, sua expressão ficou aterrorizada. Ela tentou puxar a mão, mas desistiu rápido, como se temesse que resistir trouxesse mais sofrimento.
Essa criança não era Yan Fei, mas não fui embora logo. Outras crianças qualificadas para serem Porteiros podiam estar ali.
"Qual é o seu nome?" A menina parecia frágil, como uma borboleta pousada na palma da mão. Se eu fechasse os dedos, a esmagaria.
"Sakura Shiro."
A voz dela era muito baixa. Só ouvi quando me aproximei.
"Sakura Shiro? Lá fora, encontrei uma menina chamada Sakura Vermelha. Ela é sua irmã?" Percebendo que a menina tinha medo da luz, fechei a cortina, deixando só uma fresta da largura de uma palma.
Ao ouvir o nome Sakura Vermelha, a menina tremeu ainda mais. Seus lábios se fecharam, como se temesse dizer algo que não devia.
"Você... não está bem?"
"Ninguém está me maltratando. Só estão brincando comigo. Estou bem." A menina falou de repente muito rápido, repetindo sem parar, como se fosse chorar.
"Aqui não tem mais ninguém. Não precisa ter medo." Não sabia pelo que essa criança tinha passado. Ela estava muito instável. "Descanse bem. Se precisar de ajuda, é só falar."
Soltei a mão. Olhei para ela, tentando extrair mais informações úteis.
A criança não tinha ferimentos, só era incrivelmente magra, o que dava pena.
Peguei o arquivo da mochila. Depois de confirmar que o médico não tinha saído, folheei. Antes da página de Yan Fei, encontrei o nome de Sakura Shiro.
Essa criança sofria de anorexia. A causa era desconhecida, parecia que tinha sido forçada a comer algo, deixando um trauma psicológico.