Capítulo 662: Capítulo 662 Capítulo 648 Arrancando a Máscara (4000)

Capítulo 648 – Arrancando a Máscara (4000)

A bondade não é uma tolerância cega, nem aquela ilusão de que fazer o bem sempre trará recompensas. A verdadeira bondade tem força, é uma virtude que se manifesta de dentro para fora ao longo de toda a vida.

Chen Ge é uma pessoa bondosa, só que sua maneira de ser bondoso é bastante peculiar.

As pessoas presentes, ao verem a expressão séria de Chen Ge, iam dizer algo, mas depois de refletirem sobre suas palavras, todas ficaram em silêncio.

Aquele era Liwan, envolto em névoa de sangue, onde espíritos malignos vagavam, assassinos estavam por toda parte, e um descuido poderia custar a vida. Num lugar assim, a bondade parecia especialmente rara, mas, ao mesmo tempo, era a coisa mais barata ali.

— Vou seguir você. — O médico foi o primeiro a mudar de ideia. Ele era bom em julgar pessoas e, em seu coração, já considerava Chen Ge sua única esperança de escapar.

— Faça como você diz. — A Tesoura também concordou. Dos três passageiros, apenas o Bêbado mostrava alguma relutância.

— A minoria obedece à maioria. Está decidido. — Chen Ge distribuiu as quatro chaves para cada um: — Daqui a pouco, tentem não falar. Deixem tudo comigo.

Cerca de dois ou três minutos depois, o dono gordo saiu da cozinha:

— Já escolheram seus quartos? Registrem-se aqui. Além disso, tenho algumas instruções para dar a vocês.

O dono gordo tirou de baixo do balcão um caderno amarelado, coberto de poeira, como se não fosse usado há muito tempo.

Ele abriu o caderno, que mostrava uma lista de números de quartos. Abaixo de cada número, havia um nome. O estranho é que alguns nomes estavam riscados de vermelho, outros circulados em vermelho com um X em cima.

Chen Ge não sabia o que aqueles símbolos significavam, mas sentia que todos os nomes riscados representavam vidas perdidas.

— O que vou dizer agora, é melhor vocês gravarem na memória. — O dono ergueu as mãos acima da cabeça, fazendo um gesto estranho: — O salão é o lugar para comer. Na hora das refeições, eu mesmo irei chamá-los em seus quartos. No resto do tempo, é melhor não ficarem vagando por aí. O corredor na esquina leva à área de hospedagem. Enquanto o primeiro andar não estiver cheio, o segundo andar não será aberto. Espero que, por curiosidade, não tentem subir ao segundo andar. Se algo acontecer, esta hospedaria não se responsabiliza.

— Não pode ir ao segundo andar? O lugar não é grande, mas você tem muitas regras. — A Tesoura estalou a língua, fazendo a cicatriz grotesca em seu rosto tremer levemente.

O dono gordo, já acostumado com a aparência aterrorizante de psicopatas e monstros, não mudou de expressão e explicou pacientemente à Tesoura:

— É para o bem de vocês. Porque, quando a noite chegar, podem aparecer outros clientes aqui, e não posso garantir que eles não vão atacar vocês.

— Faz sentido. Vamos ter cuidado. — Chen Ge era o mais educado entre os passageiros; em seu rosto, não se via nenhum traço de que planejava tomar a hospedaria.

— Se ficarem quietos em seus quartos, nada vai acontecer. Além disso, quero que lembrem: depois de se instalarem, não abram a porta para ninguém, nem mesmo para o amigo mais próximo. — Os olhinhos do dono gordo estavam escondidos pela gordura, e sua expressão mudou sutilmente: — Não estou tentando assustá-los de propósito. Às vezes, um amigo pode não ser um amigo, mas sim outra coisa.

Chen Ge não levou muito a sério o que o dono disse. O outro claramente estava tentando semear discórdia, plantando sementes de suspeita entre eles.

— Bom, por enquanto é só o que tenho a dizer. Na hora da refeição, irei chamá-los. Agora, vão dar uma olhada nos quartos. A primeira noite é de graça. — O dono gordo disse isso e foi embora, com passos leves, incompatíveis com seu corpo obeso: — Mais quatro pessoas. Vou ter que preparar mais comida.

Chen Ge observou as costas do dono gordo. Não sabia o que significava aquela última frase: preparar mais comida para eles quatro? Ou considerá-los como comida?

— Vamos ver os quartos primeiro. Relaxem, não fiquem tão tensos. — Chen Ge foi o primeiro a entrar no corredor, usando a chave para abrir o quarto correspondente.

A disposição interna do prédio era diferente do jogo Pequeno Bu; era muito maior.

— O velho, o estudante do ensino médio, a mulher, o policial... Será que esses passageiros vão aparecer? — No jogo, o policial foi o primeiro a ser morto pelo dono. Se o jogo correspondesse à realidade, o dono deveria ter uma arma policial, e essa era uma das razões pelas quais Chen Ge não tinha simplesmente derrubado o dono com o martelo.

— O quarto é muito mais limpo do que eu imaginava. — O médico foi o primeiro a entrar no quarto com a chave, revirando debaixo da cama e dentro do armário.

— O que você está procurando? — O Bêbado estava confuso.

— Vejo se tem manchas de sangue ou restos de corpos, algo assim.

— Para com isso. Finalmente encontramos um lugar seguro, e você já me deixa com medo de entrar. — O Bêbado seguiu o médico: — Que tal dormirmos juntos hoje?

O Bêbado estava realmente com medo, não só dos outros, mas também dos outros passageiros. A Tesoura claramente não era normal; cada movimento dela quase gritava "assassino". O outro homem com o martelo parecia legal, mas o que ele dizia e fazia não era coisa de gente normal. Comparado a eles, o médico parecia mais normal.

Depois de ver seu próprio quarto, Chen Ge pegou a mochila e começou a rondar na frente dos outros quartos.

— O velho fica no quarto um. O dente que pode invocar o vermelho está na gaveta do quarto um. A chave reserva da hospedaria também está nesse quarto. — No jogo Pequeno Bu, ao entrar no quarto do velho, apareciam algumas opções para o Pequeno Bu escolher um item para levar. Mas jogo é jogo, realidade é realidade. Chen Ge planejava colocar todos os itens úteis na mochila e assumir o controle total da hospedaria.

— Fica no centro de Liwan. O que este prédio tem de especial? — No jogo Pequeno Bu, Chen Ge só pensava em sobreviver. Agora que estava pessoalmente, certamente iria desenterrar todos os segredos.

Com os olhos semicerrados, Chen Ge enfiou a chave na fechadura e começou a balançá-la com força.

Sua chave, naturalmente, não abria a porta do quarto um. Ele fazia isso para atrair o velho para fora e então executar o próximo passo do plano.

A única coisa na hospedaria que deixava Chen Ge cauteloso era o vermelho na geladeira. O dente na gaveta do velho era o item chave para invocar o vermelho. Só conseguindo o dente primeiro ele poderia agir sem preocupações.

Balançou por um bom tempo, mas não houve nenhum som vindo do quarto um. Parecia um quarto vazio.

— O que você está fazendo? Nosso quarto é ali, não está vendo os números? — O Bêbado veio avisar, preocupado. ChenGe sorriu levemente, guardou a chave no bolso e ficou olhando para o quarto um por um momento.

Apertou o cabo do martelo na mochila, pensou um pouco e decidiu que era melhor não agir por impulso. Se ele arrombasse a porta e não encontrasse o dente, e o velho já o tivesse transferido para outro lugar, a situação fugiria ao controle.

— Quanto mais tempo passar, mais complicado fica. Quando o dono perceber o perigo que representamos, será difícil agir. — Chen Ge era uma pessoa muito decidida. Ele estava esperando uma oportunidade. Assim que algum funcionário da hospedaria mostrasse uma brecha, ele agiria imediatamente.

— Irmão, o perigo que representamos está todo em você! Por favor, se acalme um pouco! — O Bêbado sabia que Chen Ge não o ouviria, então foi correndo chamar o médico para convencê-lo juntos.

Mas, no momento em que se virou, a porta do quarto um se abriu uma fresta.

— Vocês estão no quarto errado. — Uma voz de velho veio de dentro. Chen Ge contraiu as pupilas e usou a Visão Sombria para olhar para dentro.

O quarto estava escuro, sem luz. Um velho baixinho, corcunda, estava parado na porta.

— Desculpe, não foi de propósito. — O Bêbado se apressou em se desculpar por Chen Ge, segurando seu braço: — Vamos embora, não vamos incomodar os outros.

O Bêbado realmente queria tirar Chen Ge dali; todos os seus gestos e expressões eram sinceros.

Talvez por isso, ao ouvir as palavras do Bêbado, o velho relaxou a guarda. A mão que segurava a maçaneta afrouxou, e a fresta da porta se alargou um pouco, revelando a outra mão pendente ao lado do corpo.

Aquela mão estava cheia de cicatrizes, segurando um pano vermelho e alguns dentes polidos.

— Encontrei! — Antes que todos pudessem reagir, Chen Ge estendeu a mão e segurou a porta, impedindo o velho de fechá-la.

— O que você vai fazer?! — O Bêbado e o velho falaram ao mesmo tempo, ambos tensos.

— Quero pedir algo emprestado a você. — Chen Ge disse isso e entrou diretamente no quarto, tapando a boca do velho com força: — Venham ajudar! Peguem todos os dentes que caíram no chão! Não deixem nenhum!

O Bêbado ficou chocado. Com quem ele estava se metendo? Um louco? Sem aviso, sem motivo, de repente atacar um velho! E, pela fluidez dos movimentos, estava claramente planejado há muito tempo!

O velho, com a boca tapada, também ficou paralisado de medo, sem reagir. Assassinos ou espíritos malignos normais esperavam a calada da noite, criavam uma atmosfera estranha e desesperadora, e então apertavam lentamente o cerco, levando a pessoa à morte aos poucos.

Raramente alguém agia como Chen Ge, que, mal tinha entrado, em menos de três minutos já partia para a agressão direta.

— Irmão! O dono ainda está preparando a janta para a gente! E você já está sequestrando um cliente? — O Bêbado seguiu Chen Ge para dentro do quarto, preocupado que o barulho chamasse a atenção dos outros.

— Este velho não é um cliente. — Chen Ge, ainda tapando a boca do velho, foi até a gaveta.

— Então ele é...? — O Bêbado sempre achou Chen Ge enigmático e começou a pensar se o velho realmente era perigoso.

— É o pai do dono da hospedaria. — Chen Ge abriu a gaveta como se estivesse em casa, tirando chaves, dentes e outras pequenas coisas.

— O pai dele?! — O Bêbado gaguejou: — Na primeira vez que se encontram, por que você está sequestrando o pai dele?!

— Por que você fala tanto? Vem ajudar. Rasgue o lençol e faça uma corda para amarrá-lo. — ChenGe esvaziou a gaveta, embrulhou todos os dentes no pano e os colocou no bolso. Depois, virou-se para o velho, de olhos arregalados: — Não vou machucá-lo. Espero que fique quieto e não tente resistir em vão.

O Bêbado, embora relutante em palavras, sabia que estava do lado de Chen Ge. Então, seguiu suas instruções, transformou o lençol numa corda improvisada e amarrou o velho.

— Pronto. Os dentes estão em mãos. Agora, só preciso tomar cuidado com a possível arma do dono. — Chen Ge suspirou aliviado e usou a toalha de rosto para amordaçar o velho.

Ouvindo o barulho, o médico e a Tesoura também vieram correndo.

— Não olhem para mim. Foi ele quem mandou. — O Bêbado estava cheio de resignação.

— Alimentar um vermelho com transtorno de compulsão alimentar... Não sei quantos vivos são necessários, mas posso garantir que todos nesta hospedaria têm as mãos sujas de sangue. — Chen Ge não teve tempo de explicar: — Saiam primeiro. Muita gente aqui pode nos expor. Depois eu explico.

Assim que saíram do quarto, a voz do dono gordo veio da cozinha:

— Jantar!

O dono gordo e outro homem alto, de chapéu de cozinheiro, empurravam um carrinho de comida.

Era um carrinho vermelho vivo, raro de se ver, com um ar festivo. Em cima, havia nove pedaços de bolo e uma chaleira de chá preto.

— Bolo? — Ao ver o bolo, Chen Ge lembrou de uma cena do jogo Pequeno Bu: como quatro pessoas, com um único corte, dividir nove pedaços de bolo.

Talvez por coincidência, a história se repetia. Chen Ge, o médico, a Tesoura e o Bêbado formavam novamente um grupo de quatro.

— Isto é um lanche noturno. Se estiverem com fome, podem comer um pouco. — O dono gordo ainda não sabia o que tinha acontecido no quarto um e olhava para eles com um sorriso.

Sob seu olhar, Chen Ge, o médico e a Tesoura agiam como se nada tivesse acontecido. Apenas o Bêbado sentia um leve remorso.

— Sentem-se. — O dono gordo era muito hospitaleiro. Ele e o cozinheiro colocaram os bolos na mesa.

O médico, o Bêbado e a Tesoura sentaram-se um após o outro. Quando Chen Ge ia se sentar, seu coração disparou e um zumbido elétrico chegou aos seus ouvidos.

— Xu Yin está me alertando? A cadeira tem problema? — Chen Ge não se sentou. Apenas jogou a mochila no assento.

Ninguém tocou nos bolos. Num lugar tão perigoso, até o Bêbado sabia que não se deve comer comida de origem desconhecida.

— Vocês acham que envenenei os bolos? — O dono gordo riu: — Esta não é uma espelunca. Fiquem tranquilos. Na primeira noite, tudo é de graça. Mas, se quiserem continuar hospedados, terei que cobrar algo de vocês.

Dito isso, o dono gordo e o cozinheiro empurraram o carrinho de volta, deixando apenas Chen Ge e os outros no salão.

— Esse dono não parece mau. — O Bêbado olhava de vez em quando para o quarto um: — Quando ele descobrir que o pai foi amarrado, vai ficar furioso.

— Olhe para a mesa antes de julgar se ele é bom ou não. — Chen Ge afastou os bolos. A mesa de madeira estava cheia de marcas de faca, algumas muito profundas, claramente feitas com golpes violentos: — Sabe por que somos quatro e eles serviram nove bolos?

— Por quê? — O Bêbado mal terminou de falar e sentiu uma tontura na cabeça, quase caindo.

— Ferrou! — O médico e a Tesoura também estavam com problemas. Tentaram se levantar, mas seus corpos estavam cada vez mais fracos.

— Como fomos envenenados? — Chen Ge achava que tinha sido cuidadoso, mas ainda assim algo deu errado: — Por que não sinto tontura?

Chen Ge tirou a mochila, usou a Visão Sombria para examinar o assento e finalmente encontrou algo.

A cadeira era velha, com a superfície irregular. Escondidos sob a sujeira, havia pequenos espinhos escuros.

Olhando mais de perto, Chen Ge percebeu que eram unhas humanas encharcadas de sangue.

O bolo estava na mesa, atraindo toda a atenção. As cadeiras foram puxadas de debaixo da mesa, e raramente alguém prestava atenção ao assento numa situação dessas.

— Não é à toa que é dificuldade três estrelas e meia. Mesmo com um guia, quase caí. — Chen Ge pegou a mochila e olhou para trás. A porta da cozinha estava aberta, e duas cabeças estavam espiando. O dono gordo e o cozinheiro os observavam.

Ao ver que três passageiros estavam envenenados, o dono gordo e o cozinheiro saíram sorrindo da cozinha, segurando facas de cortar ossos.

— Só sobrou você. — O tom do dono gordo mudou. Ele arrancou a máscara.

Olhando para as facas nas mãos do dono gordo e do cozinheiro, Chen Ge lentamente exibiu um sorriso: — Eles estão vindo com facas, o que significa que o dono provavelmente ainda não conseguiu a arma do policial. Quando eles se aproximarem, se eu atacar primeiro, eles não terão chance de revidar.