Capítulo 635: Cada casa tem uma história estranha
A cozinha não era grande, e o que mais chamava a atenção era o armário, cheio de todo tipo de comida gostosa, mas tudo estava coberto com filme plástico, e uma boa parte já estava estragada.
"Tem geladeira e não usa, por que guardar comida no armário?"
A situação era crítica, e o bêbado não teve tempo de pensar nessas questões. Ele correu até o fogão a gás e olhou para o exaustor instalado na parede.
"Essa saída..."
Não sabia se foi proposital ou se era um hábito peculiar da família, mas o exaustor instalado na cozinha era maior que o normal, e a abertura de ventilação era grande o suficiente para uma criança passar rastejando.
"A cozinha não tem janela, então colocaram um exaustor potente?" O bêbado subiu em uma cadeira, arrancou o exaustor à força e olhou para a abertura, com o rosto indeciso.
Aquela saída era pequena demais para um adulto; se ficasse preso, as consequências seriam imprevisíveis.
"O que fazer?" Enquanto hesitava, ele viu a faca de cortar ossos na bancada, com restos de osso e sangue ainda na lâmina.
Olhando para a abertura e depois para a faca, um pensamento estranho surgiu na mente do bêbado: parecia que tudo estava sendo orquestrado por alguém.
A abertura era estreita para um adulto, mas se quebrasse as omoplatas e esmagasse os ossos do quadril, talvez conseguisse sair com facilidade.
Ele estendeu a mão e pegou a faca de cortar ossos. O cabo estava pegajoso, o que o enojou profundamente.
Como se quisesse apressá-lo, enquanto hesitava, ouviu o som de uma porta sendo aberta no corredor, como se alguém estivesse verificando cômodo por cômodo.
"Se eu sair por aqui, não sei que coisa horrível vou encontrar lá fora. Cortar a mim mesmo seria coisa de idiota." Segurando a faca com uma mão, o bêbado mordeu o lábio com força e teve uma ideia.
"Fingir que escapei pelo duto de ventilação, me esconder em algum lugar e, quando o dono da casa vier ver, escapar de vez." Olhando ao redor, ele finalmente se dirigiu à geladeira.
A cozinha não era grande, mas tinha uma geladeira dupla bem grande.
O bêbado abriu a parte de cima da geladeira, que estava cheia de desodorizadores e purificadores de ar, alguns lacrados, outros já usados.
"Isso é demais, não?" Era a primeira vez que via alguém guardar desodorizadores na geladeira.
Ele se abaixou e abriu a parte de baixo, onde havia vários sacos plásticos pretos.
"Não serão cadáveres, né?" O bêbado não tinha escolha; na cozinha, só a geladeira podia esconder alguém.
Ele tirou os sacos pretos e os enfiou na parte de cima da geladeira. Durante o processo, um dos sacos rasgou, e uma cabeça de cachorro caiu.
"Isso aqui é carne de cachorro?" Para não se expor, o bêbado pegou a cabeça do chão, mas, ao colocá-la de volta na parte de cima, sem querer olhou para o rosto do cachorro.
Os olhos estavam cheios de medo. Quanto mais olhava, mais achava que a cara do cachorro se parecia com a de um humano. Não sabia explicar por quê, mas sentia que não era uma cabeça de cachorro, e sim um rosto humano congelado.
"Que coisa sinistra!" Sem coragem de encarar a cabeça de novo, o bêbado enfiou todos os sacos pretos na parte de cima da geladeira.
"Pá!"
Assim que terminou, a maçaneta da porta da cozinha foi girada. A pessoa tentou algumas vezes, não conseguiu abrir, e os movimentos começaram a ficar mais agressivos.
A porta balançou, e a mesa atrás tremeu.
"Fui descoberto!" O bêbado colocou a cadeira bem debaixo da abertura de ventilação, pegou a faca e se enfiou na parte de baixo da geladeira, fechando a porta.
A porta de madeira da cozinha foi batida várias vezes seguidas, mas não abriu. O monstro do lado de fora parecia ter desistido.
Os passos foram se afastando, e o cômodo inteiro ficou em silêncio.
O bêbado tremia de frio, mas não ousava sair, com medo de que fosse uma armadilha.
Cerca de meio minuto depois, os passos voltaram, seguidos pelo som de uma chave sendo inserida na fechadura.
A porta da cozinha, trancada por dentro, foi aberta, e a mesa foi empurrada para o lado.
"Ele entrou!"
O bêbado não sabia como era o dono da casa, mas só de pensar nas fotos que ele tirava, seu coração disparava.
Passos soaram na cozinha, e logo a cadeira foi derrubada. O dono parecia estar verificando.
"Espero que ele se engane..." O plano do bêbado era bom, mas, no momento em que esse pensamento surgiu, ele ouviu o som da porta da geladeira sendo aberta.
A porta da parte de cima foi aberta, e a pilha de sacos pretos que ele havia enfiado desordenadamente caiu toda.
O rosto do bêbado ficou pálido. Sabia que tinha sido descoberto!
"Sair daqui!"
Talvez a faca de cortar ossos lhe desse coragem, ele bateu na porta da geladeira e a abriu.
Um chão cheio de carne de cachorro apareceu diante dele, e a cabeça de cachorro, com uma expressão facial tão viva quanto a de um humano, estava bem na sua frente.
Mesmo preparado mentalmente, ao ver aquilo, o bêbado levou um susto.
Ele desviou o olhar e viu, ao lado da cabeça de cachorro, no meio da carne, uma pessoa de idade indefinida.
A pessoa vestia uma pele de cachorro, e a expressão no rosto parecia familiar ao bêbado.
"Esse rosto... é o do cachorro que ria na foto!" Ele sentiu um frio percorrer o corpo, usou toda a força para sair da parte de baixo da geladeira e, sem dizer nada, saiu correndo porta afora.
"Cachorros mortos têm expressões parecidas com as de humanos, mas um vivo tem o sorriso do cachorro da foto." Essa frase passou pela mente do bêbado. Se não tivesse visto com os próprios olhos, nunca acreditaria: "Será que o cachorro morto tomou o corpo do vivo? Ou eles trocaram de corpo? Ou é uma maldição? A maldição do cachorro sorridente?"
O bêbado nem sabia o que estava pensando. Corria desesperadamente em direção ao cômodo onde havia entrado primeiro.
Diante de algo mais assustador, o que antes o amedrontava parecia menos terrível. Ele entrou no cômodo e, ao virar uma esquina, olhou para trás.
A figura estranha estava de quatro, correndo como um cachorro louco.
A pele do rosto se franzia, exibindo o mesmo sorriso do cachorro na foto.
Ele bateu a porta, pulou pela janela e saiu. Sem ousar olhar para trás, correu para fora da casa de dois andares.
Parecendo estar com muito medo, o bêbado não parou mesmo depois de sair. Continuou correndo pela rua por mais de dez metros, só parando quando teve certeza de que ninguém o seguia.
"Que tipo de monstros são esses? Parece que cada casa esconde um deles?"
A névoa de sangue se espalhava. O bêbado parou no cruzamento, olhou ao redor e de repente percebeu que o ônibus que estava no meio da rua havia sumido.
"Será que me perdi? O carro está no cruzamento anterior?" Ele ficou na beira da rua, sem ousar chegar perto dos prédios: "Comparado com os prédios, a rua é mais segura. Vou seguir pela rua, fazendo marcações. O ônibus deve estar por perto."
O bêbado se abaixou e seguiu pela rua, mas, antes de ir longe, viu alguém acenando para ele não muito à frente.
Na névoa de sangue, a visibilidade era baixa; ele só conseguia ver um contorno vago.