Capítulo 580: Superfície da Água, Superfície do Espelho
A mente de Xiaozhu estava completamente atordoada, e a sensação fria e familiar chegou ao seu pulso.
Ela agitava braços e pernas desesperadamente, tentando emitir algum som, mas ninguém respondia. Ela só conseguia ver, no espelho, a mulher erguendo lentamente a cabeça, revelando um rosto difícil de descrever.
Em circunstâncias normais, a mulher no espelho poderia ser considerada bonita, mas, infelizmente, todos os seus traços estavam inchados.
Mais estranho ainda, o rosto da mulher mudava constantemente; os cabelos negros se espalhavam e, depois de um tempo, começaram a parecer familiares para Xiaozhu. Com muito medo, ela percebeu que os traços da mulher no espelho estavam começando a se tornar iguais aos seus.
Ela balançava as mãos, mas não conseguia controlar o corpo. O som da água corrente ecoava em seus ouvidos. Xiaozhu sentia como se estivesse presa dentro do espelho, seu corpo trocado com o da fantasma!
"Socorro! Socorro! Socor..." Ela ofegava, mas nenhum oxigênio entrava em seus pulmões. Antes de sufocar, com o rosto contorcido, por instinto biológico, ela se jogou de repente contra o espelho de vidro à sua frente!
"Pá!"
O som veio, o sangue embaçou seus olhos, mas a sensação de sufocamento desapareceu.
"Xiaozhu!" A voz de A Cheng a chamou. A consciência da mulher finalmente clareou. Seu corpo balançou e ela caiu para trás.
"O que houve com você?" O homem a segurou por trás. O sangue escorria de sua testa, tingindo seus olhos de vermelho.
"Espelho! Tem alguém no espelho!" Xiaozhu agarrou o braço de A Cheng e apontou para o espelho, gritando.
O espelho do banheiro estava rachado com o impacto dela. Pedaços de vidro manchados de sangue caíam da parede.
A Cheng segurou Xiaozhu e tirou os cacos de vidro do cabelo dela. Ele também ficou assustado com a ação repentina da mulher.
"Não tenha medo, estou aqui. Ainda estou aqui." A Cheng a apoiou para trás. Ele percebeu que aquele banheiro tinha algo errado.
Os cabelos negros no ralo da pia se moviam como algas marinhas. O nível da água subia constantemente, transbordando lentamente da pia.
Gotas d'água caíam no chão, tornando a atmosfera do quarto ainda mais aterrorizante.
"Vamos sair daqui primeiro." A Cheng segurou Xiaozhu e a arrastou para fora do quarto à força.
"A torneira ainda não foi fechada..." A voz de Xiaozhu soava fraca.
"Não dá tempo. Depois chamamos mais pessoas para entrar. Primeiro, vou te levar ao hospital." A Cheng, a princípio, não achava tão assustador, mas a loucura repentina da mulher fez seu coração disparar.
Como um pássaro assustado, ele olhou para trás, em direção ao banheiro, e de repente viu que o sangue nos cacos do espelho rachado se mexia, como pequenos insetos na água do rio, formando lentamente algumas palavras.
*Estou no espelho! Ela está em seus braços!*
Ao ver essas palavras de repente, A Cheng quase soltou a mulher que segurava. Ele já percebera que aquilo não era uma brincadeira; algo realmente estranho estava acontecendo na escola de reabilitação.
O sangue ainda escorria de sua testa. Xiaozhu estava completamente diferente de sua aparência adorável de antes. Com o ferimento sem tratamento, ela parecia assustadora.
As luzes do corredor piscavam mais rápido. Para acelerar a recuperação das crianças, a escola tinha muitos adesivos de desenhos animados e figuras de animais nas paredes.
Naquele momento, sob a iluminação, a luz e a sombra mudavam, fazendo com que as figuras dos desenhos parecessem estranhas. Aqueles sorrisos pareciam particularmente horripilantes.
Cada vez mais água transbordava da pia do banheiro. A água parecia ter vida própria, saindo do banheiro e seguindo atrás dos pés de A Cheng.
A Cheng não percebeu. Uma pessoa normal jamais pensaria nisso. Toda a sua atenção estava concentrada nas figuras dos desenhos na parede.
"É a primeira vez que percebo como essas coisas são assustadoras à noite. Depois vou falar com o diretor para trocarmos todas."
As palavras que apareceram no espelho há pouco ecoavam na mente de A Cheng. Ele amparava Xiaozhu, que mantinha a cabeça baixa. Sentia a maciez do corpo dela, mas não sentia sua temperatura.
"Xiaozhu?"
Ele tentou chamá-la. Xiaozhu, em seus braços, ergueu a cabeça. O ferimento se abriu para os lados, e o sangue da testa escorria pelo nariz, cobrindo todo o rosto. Parecia muito feroz: "A Cheng, estou tão cansada. Minha cabeça está tão tonta."
O tom arrastado e o nariz entupido soavam como se o nariz da mulher estivesse cheio d'água.
A namorada que ele amava profundamente agora parecia estranha. Era uma sensação difícil de descrever.
"Aguente firme. Vou te levar ao médico agora." A Cheng mordeu levemente a língua. Sua namorada estava sofrendo tanto, e ele pensava em abandoná-la. Que canalha ele era.
Ele acelerou o passo, mas, enquanto andava, percebeu que o corredor da escola de reabilitação parecia ter se alongado.
"Já andei um bom tempo..." A sensação de mau agouro em seu coração se intensificava. Rangendo os dentes, ele segurou Xiaozhu e começou a correr para frente.
Mas, assim que deu o primeiro passo, pareceu pisar em algo, escorregou e caiu no chão.
Ele e Xiaozhu caíram. Quando olhou para trás, viu que o corredor estava molhado, não sabia desde quando. Um filete d'água, como uma cobra venenosa, o seguia.
Seu olhar foi para mais longe. A porta do quarto ao lado do banheiro se abriu lentamente.
Uma figura baixa apareceu atrás da porta. Ela se inclinava contra a porta. A luz não era tão escura, mas ele não conseguia ver seu rosto claramente. Só sabia que ela usava um casaco encharcado.
"Wenwen?"
O quarto onde a menina apareceu era exatamente o quartinho onde a mulher havia trancado Wenwen ao meio-dia.
A Cheng estava prestes a agir quando seu celular tocou. Quase instintivamente, ele atendeu.
"A criança voltou para a escola? Perguntei a muitos comerciantes lá fora com o diretor. Todos disseram que não viram Wenwen. É provável que ela ainda esteja na escola, só se escondeu em algum lugar."
Quem ligou foi a professora Wang. Ao ouvir sua voz, A Cheng se agarrou a ela como a uma tábua de salvação: "Wenwen está na escola! Venham rápido! Xiaozhu se machucou!"
"Se machucou? Certo! Já estou indo!" O telefone foi desligado às pressas. A Cheng queria dizer mais algumas palavras.
Ele guardou o celular, mas, assim que tirou os olhos da tela, viu Xiaozhu com o rosto erguido, olhando para ele de um jeito estranho: "Com quem você estava falando?"
"Com a professora Wang. Ela vai trazer pessoas daqui a pouco." A Cheng era cauteloso. Percebendo que o tom de Xiaozhu estava estranho, ele não perguntou mais. Também não se aproximou da sombra que parecia ser Wenwen.
Para ele, o melhor era sair daquele lugar primeiro.
"Eu já revistei aquele quartinho antes. A menina não estava lá. Será que ela está brincando de esconde-esconde conosco?"
Uma menina com deficiência intelectual, com a mente não muito normal, como conseguia enganar os adultos tão facilmente?
Quanto mais A Cheng pensava, mais assustador ficava. Lembrou-se de um filme de terror que vira há muito tempo. A protagonista era uma pessoa estranha que parecia uma criança inocente, mas que, na verdade, vivia há muito tempo. Cada vez que era adotada, quebrava a paz da família, até mesmo manchando-a de sangue.
"Será que essa criança tem a mesma doença?"
Ele não ousou pensar mais. Arrastou Xiaozhu para fora do corredor, mas, ao chegar à porta, viu que ela estava trancada, não sabia desde quando.
"Onde está a chave?" A Cheng revirou os bolsos, mas não encontrou a chave. Ele balançou a porta com força, até que a luz do teto se apagou.
A figura baixa escondida no quartinho saiu, com as mãos estendidas para frente, como se tentasse impedir algo.
"Não se aproxime!"
Vendo a figura correr cada vez mais rápido pelo corredor, A Cheng soltou as mãos. Ele estava prestes a abandonar Xiaozhu e pular pela janela sozinho.
Mas, estranhamente, ele soltou as mãos, mas o corpo de Xiaozhu ainda estava grudado nele.
O rosto da mulher estava pressionado contra o peito de A Cheng. Ela ergueu a cabeça: "A Cheng, você não me quer mais?"
O sangue se espalhava pelo rosto da mulher. O som de gotas d'água ecoava em seus ouvidos. A Cheng não sabia por quê, mas sentia que o rosto da mulher estava ficando estranho, como se fosse outra mulher.
Ele empurrou a cabeça da mulher para o lado com força. Sua respiração ficou ofegante, e seu coração batia acelerado: "Espere aqui! Vou chamar alguém lá fora!"
O som das gotas d'água em seus ouvidos não desaparecia; pelo contrário, aumentava. A figura baixa no corredor já estava se aproximando. A mulher no chão também rastejava em sua direção. Os cabelos grudavam em seus braços e, finalmente, agarraram firmemente a perna de A Cheng.
"Não me deixe aqui sozinha!"
...
"Quem trancou a porta? Eles dois encontraram a Wenwen?" Uma mulher de aparência mais tranquila parou na porta da sala de aula: "Não atendem o telefone. Será que não encontraram a criança e fugiram escondidos?"
Pelas palavras, dava para perceber a insatisfação da mulher com os outros professores da escola.
Ela pegou a chave e abriu a porta. O chão estava cheio de poças d'água.
"O que aconteceu?" A mulher parou na entrada por um tempo e ligou a lanterna do celular: "No telefone, o A Cheng disse que a Li Xuezhu se machucou. Eles dois estavam procurando a criança na escola. Como se machucaram? Tem mais alguém aqui?"
Ela estendeu a mão para acender o interruptor do corredor, mas a luz parecia estar quebrada, não acendia.
Andando na ponta dos pés por alguns passos, a mulher ergueu o celular. A luz atravessou o corredor. Ela viu que a porta do banheiro estava aberta. Uma menina baixinha estava em frente ao espelho.
A criança estava na ponta dos pés, colocando as mãos dentro da pia, como se estivesse pegando algo.
"Wenwen?"
A mulher achou a silhueta da criança familiar. Ela se aproximou do banheiro sorrateiramente.
"O que essa criança quer fazer?"
Havia água acumulada no chão. Por mais cuidado que tivesse, ainda fazia barulho. Quando a mulher chegou à porta do banheiro, ela viu.
No espelho quebrado, estava um monstro de corpo inchado.
No momento crucial, a razão venceu o medo. A mulher correu para dentro do banheiro para salvar a menina.
Vendo a mulher entrar correndo, o monstro no espelho ficou surpreso.
No lugar onde a mulher estava há pouco, cabelos negros se espalhavam como algas. Se a mulher tivesse virado as costas e fugido, teria batido de frente com uma grande teia tecida de cabelos.