Capítulo 290: Corpos Enterrados no Pomar de Pêssegos
Relâmpagos cortavam o céu noturno, e o clarão momentâneo tornava a cabeça na janela ainda mais aterrorizante.
Vários braços finos se estendiam pelo batente da janela, e, à primeira vista, era possível ver uma infinidade de dedos, algo realmente assustador.
Nesse momento crucial, quando a tensão estava no auge, Chen Ge pensava em outra coisa.
“O rosto dessa mulher é um pouco parecido com o monstro-aranha que Fan Yu desenhou. Ela parece jovem, o que se encaixa perfeitamente em todas as condições para ser a irmã de Jiang Ling.”
A viga do telhado rangeu baixinho, e a parede de madeira parecia prestes a ceder, incapaz de suportar o peso. Chen Ge sentiu a cabana inteira balançar.
Os fios de seda vermelhos já estavam se aproximando, e a cabeça da mulher forçava passagem para dentro do quarto: “Me salve! Me salve!”
“Eu vim exatamente para te salvar!” Chen Ge não ousava esperar mais, temendo que a situação fugisse ao controle. Segurando o martelo de esmagar crânios, gritou em voz alta.
A mulher talvez estivesse ouvindo aquela resposta pela primeira vez. Ela parou de falar e continuou a se enfiar para dentro do quarto.
Os fios de seda vermelhos grudavam nas paredes, e o rosto da mulher se tornava cada vez mais feroz.
“Você é a irmã de Jiang Ling! Nós nos vimos à noite!”
A mulher ouviu, mas permaneceu impassível, como se não entendesse nada do que Chen Ge dizia.
“Orfanato Infantil de Hanjiang! Lembrou?”
Chen Ge quase gritou o nome de Xu Yin, mas de repente se lembrou de algo. Ele enfiou a mão no peito e tirou uma garrafa plástica.
“Isso foi sua irmã quem me deu!”
Dentro da garrafa plástica havia uma aranha amassada. Quando saíram do Orfanato de Hanjiang, Jiang Ling havia dado aquele corpo de aranha para Chen Ge.
A cabana parou de tremer lentamente. A mulher, com os olhos inteiramente brancos, fitava fixamente a garrafa plástica. Ela não continuou a destruir a janela e, após um momento de confronto com Chen Ge, enfiou a cabeça para dentro.
O pescoço da mulher era branco e liso, muito sensual, mas tinha o dobro do comprimento de uma pessoa comum.
Chen Ge destampou a garrafa e, com uma mão, estendeu o plástico em direção à mulher. A terrível criatura finalmente se acalmou. Ela fechou a boca, pensativa.
“Não tenho más intenções com você. Só acho que você e sua irmã são muito dignas de pena, por isso vim ajudar.” Chen Ge desligou discretamente o gravador. “Sua irmã me contou muitas coisas. Entendo sua situação e conheço sua dor. A rigor, somos até parecidos. Eu também já passei por experiências desesperadoras tão terríveis quanto as suas.”
Chen Ge já havia dito aquelas palavras para Xu Yin, e elas já haviam sido testadas na prática.
Ele não era muito bom em lidar com relações interpessoais; a única coisa que sabia fazer era se colocar no lugar do outro e pensar por ele.
Homem e fantasma, separados por uma parede, olhavam-se fixamente, olhos grandes encarando olhos pequenos. A atmosfera se tornava cada vez mais estranha.
“Eu vou limpar sua injustiça! E posso cuidar de sua família jovem!”
“Pense bem: por que eu viria sozinho, tarde da noite, sob a chuva, para o meio das montanhas?”
“Só quero realizar o desejo de sua irmã e ajudar você, que sofre!”
No final, Chen Ge já acreditava no que dizia. Sua expressão era séria, e sua voz carregava um toque de compaixão.
A cabeça da mulher começou a recuar lentamente. Ela inclinou a cabeça, examinando Chen Ge. A expressão em seu rosto perdeu um pouco da ferocidade e ganhou um ar de dúvida.
“Posso ajudá-la a deixar de lado essa obsessão, levá-la para longe deste lugar de sofrimento e encontrar um novo abrigo para você.” Chen Ge falou com toda sinceridade.
Depois de toda aquela conversa, a mulher parecia ter se deixado enganar. Ela não entendia muito bem, mas, quando Chen Ge disse que a levaria embora, ela instintivamente balançou a cabeça.
“Você ama muito sua irmã e quer ficar sempre ao lado dela para protegê-la. Mas sabia que, por sua causa, sua irmã é maltratada por outras crianças, tratada como doente e monstro? Ela não consegue ter uma vida normal, não consegue amar de verdade nem ser amada.”
“Eu posso compreendê-la e entendê-la, mas os outros não. Um dia, você se tornará o pesadelo da pessoa que mais ama!”
“Você gostaria de ouvir da boca de sua irmã mais amada palavras de ódio e repulsa por você?”
A mulher sentiu que o que acontecia naquela noite era bem diferente do que imaginava. Os olhos, inteiramente brancos, giravam nas órbitas. Ela balançou a cabeça mais uma vez.
“Não vou forçá-la a fazer escolha alguma. Só estou lhe dizendo um fato, para o seu bem.” A voz de Chen Ge era rouca, carregada de uma indescritível melancolia. “A dor que você sofre e o sofrimento que pode enfrentar no futuro, eu já passei por tudo. Se um dia você não tiver para onde ir, pode vir me procurar.”
Em seguida, ele fez um movimento extremamente ousado: escondeu a mão direita, que segurava firmemente o martelo, atrás das costas e estendeu a mão esquerda para a mulher.
“Meu irmão é o melhor amigo de sua irmã. Se possível, que tal nos tornarmos amigos também?”
Ele não fez questão de abaixar a voz. No momento em que disse aquilo, um barulho estranho veio do quarto ao lado, como se alguém tivesse caído da cama.
Os olhos da mulher giravam loucamente nas órbitas. Ela olhou para a mão que Chen Ge estendia para ela e deu alguns passos para trás.
“Nós também podemos ser amigos.” Chen Ge deu um passo à frente. Os olhos da mulher giravam ainda mais rápido. Ela cuspiu um fio de seda na porta e, então, disparou para dentro do pomar de pêssegos, desaparecendo.
“Espere!” Chen Ge afastou a cama de madeira e correu para fora, mas já não encontrava mais a figura da mulher. “Ainda não disse o endereço... Deixa pra lá. Hoje plantei uma semente no coração dela. Para que ela se torne de fato uma funcionária da Casa do Terror, ainda preciso trabalhar pela irmã dela.”
Atrás dele, ouviu-se o som de uma porta se abrindo. O velho, com uma lamparina numa mão e uma enxada na outra, estava parado na entrada, tremendo.
Ele estava com muito medo de Chen Ge. No meio da noite, encontrar um fantasma já era assustador, mas aquele homem não só não tinha medo, como ainda saía correndo atrás dele, insatisfeito! E, para piorar, tinha uma expressão de pesar no rosto! O que era aquela sensação de encontrar um almas gêmeas em meio à natureza?!
“Vovô, você estava escutando escondido o tempo todo?” A chuva molhava o cabelo de Chen Ge. Ele virou-se e olhou para o velho.
Aquele olhar casual fez o coração do velho disparar. O que ele queria fazer? Silenciar a testemunha? Aliás, de onde ele tinha tirado aquele martelo enorme que parecia tão ameaçador?!
“Não, não. Eu acordei com seus falatórios. Vamos dormir logo.” O velho apertou a enxada, as veias saltando no dorso da mão. Ele estava tão nervoso que mal conseguia falar direito.
“Não precisa mais mentir para mim. Aqui aconteceu um crime. Uma família de quatro pessoas: o casal foi envenenado, a irmã mais velha desapareceu. O monstro que acabei de ver deve ser a irmã.”
Chen Ge pensou um pouco e continuou: “Ela acabou de correr para dentro do pomar de pêssegos e desapareceu. Da primeira vez que te vi, você estava revirando a terra. Se não me engano, você estava procurando o corpo dela, não estava?”
O velho ficou chocado. Levou um tempo até que ele falasse, com a voz carregada de um certo pesar: “Como você sabe?”
“Não só sei que você está procurando o corpo da irmã, como também sei que ele está enterrado debaixo do pessegueiro mais alto, no centro do pomar.” Chen Ge apontou para os fios de seda vermelhos na porta, a marca que a mulher havia deixado.