No quartel-general de Rietis...
O céu, que há muito não estava limpo, começou a chover fraco naquele momento, no local onde os guardas do palácio do príncipe costumavam descansar. Yuri estava sentado sozinho num banco de pedra, rememorando.
Nos últimos dias, muitos perguntavam sobre o que acontecera em Tacoma. Na verdade, ele já contara tudo o que sabia; o resto ele simplesmente não conseguia lembrar...
Embora o príncipe sempre dissesse para ele pensar com calma, Yuri, que sempre vivera no círculo da nobreza, percebia claramente.
O príncipe também tinha seus limites de paciência. Se demorasse muito a dar notícias, talvez fosse expulso do palácio, ou então enviado para a fronteira para servir como guarda.
Ele ainda tinha família em Tacoma; se fosse mandado para longe, jamais voltaria!
"Yuri, o que está fazendo aí? Não é sua vez de trocar o turno?" Alguém chamou do outro lado.
Yuri, vindo do sudeste, tinha hábitos diferentes dos locais e também aparência distinta dos nortistas. Os do sudeste geralmente tinham a pele mais amarelada e eram mais baixos.
"Ah, certo. Já vou..."
O soldado que se aproximou, vendo-o distraído, perguntou: "O que foi? Lembrou de algo?"
Na verdade, todos os soldados do mesmo batalhão de Yuri receberam uma missão especial. Todos sabiam, menos Yuri. Talvez ele já tivesse percebido, mas preferia não tocar no assunto, afinal, era isso que lhe permitia viver em Rietis.
Todos os soldados designados para ficar com ele foram secretamente instruídos: se ele mencionasse algo sobre Tacoma, deveriam anotar e relatar, e seriam recompensados por isso... Com o tempo, virou rotina perguntar todos os dias se ele lembrava de algo.
Mas Yuri sempre balançava a cabeça nessa hora.
Não lembrava, ou talvez não quisesse contar. Ele temia que, se contasse, fosse mandado para a fronteira; mas se não contasse, com o tempo, também seria. Então, sempre que lembrava de algo, contava um pouco, espalhando aos poucos, até que houvesse notícias de Tacoma e ele pudesse fugir de volta.
"Não lembra de nada mesmo?"
"Não lembro. Naquela época, eu me sentia meio tonto, a cabeça confusa..."
Sempre escapava assim, e até os soldados que perguntavam já se acostumaram.
"Deixa pra lá. Vamos. Pelo tempo, a chuva deve ir até a noite, mas pelo menos está chovendo com sol..." O soldado olhou para o céu.
Naquele momento, a chuva fina caía junto com o sol. No horizonte, até um arco-íris aparecia, e, vagamente, dava para ver a lua...
Como se chamava isso mesmo?
O soldado não se lembrava bem; os sábios costumavam falar disso ao estudar os fenômenos celestes, que às vezes a lua aparecia até de dia.
"Vamos... O que foi?" Ele se virou e viu Yuri parado.
"Eu... acho que lembrei de algo!"
"O quê?!" Perguntou ansioso. "Conte logo."
"A lua..."
"A lua?"
"Várias coisas iguais à lua apareceram no céu..." Os pensamentos de Yuri mergulharam de volta naquele dia, quando viu o céu pela última vez.
………………………………
O céu clareava aos poucos.
Sean olhou pela porta e viu que os arredores estavam seguros, pelo menos sem mais daqueles bodes-demônios!
"Por enquanto, está seguro lá fora." Ele se virou para os mercenários espalhados pelo chão, sonolentos.
"Eles não nos seguiram mesmo?!"
Ao ouvir a voz, alguém se levantou depressa, com os olhos vermelhos de cansaço. A noite inteira, muitos mal conseguiram dormir; fechavam os olhos por segundos e já achavam que tinha passado muito tempo, então se forçavam a acordar.
"Parece que eles não conseguem se mover durante o dia." Sean explicou.
Lembrar da cena da noite anterior ainda fazia sua espinha gelar...
Num grito estridente, uma chama verde iluminou a névoa, e um bode-demônio ainda maior saiu dela, com uns dez metros de altura, seguido por outros menores.
O bode que eles tinham enfrentado era só um dos subordinados.
Foi aí que Sean entendeu que a habilidade [Chamado~] era para invocar companheiros...
Ele olhou para o grupo no quarto...
Dos que chegaram até ali, só restavam dez, e a maioria era de classes de longo alcance, que tiveram chance de fugir. Quando o bode-demônio gigante apareceu, os mercenários corpo a corpo quase não sobreviveram.
Nem mesmo o Lukaal!
Jonathan também saiu do canto para olhar lá fora. Sim, estava seguro; os bodes não os seguiram.
"Eles só agem à noite?"
"Talvez..." Disse Sean.
Não podia responder com certeza. Ele supunha isso porque, ao fugir, não recebeu nenhum aviso de perseguição. O grupo correu por quase duas horas até chegar àquele vilarejo abandonado e parar para descansar.
Isso foi só meia hora atrás.
"Não dá! Se é assim, temos que sair durante o dia. Não aguento mais um minuto nesse lugar maldito." Muitos acordaram com o barulho e, ao ouvir a suposição de que os bodes-demônios só agiam à noite, quiseram partir.
"Agora? Não é tão fácil. Como sabe que eles não estão esperando na floresta? Quando passaram por lá ontem, devem ter sentido a aura estranha, não? Pensando bem, será que eles não estão lá?"
Na verdade, Sean também estava confuso.
Sua visão não mostrava nenhum aviso, pelo menos eles não estavam de olho nele. Mas, se não estivessem na floresta, como apareceram à noite?
Não fazia sentido.
"Então o que fazemos? Não podemos ficar aqui esperando a noite." Quem falou foi a ladra que Sean conhecia. Ela também sobrevivera, sua agilidade a salvou no massacre anterior!
"Até o mestre Lukaal caiu, nós não temos chance contra eles."
Só de mencionar a noite, o medo era visível em todos!
Sean olhou para a névoa lá fora. Desde que começaram a correr, horas atrás, ele notara que a névoa estava se dissipando.
Ele saiu sozinho...
"Talvez o objetivo deles não fosse nos matar, mas nos trazer até aqui."
"O que quer dizer?"
De repente, todos os olhares se voltaram para Sean, que estava do lado de fora, apontando para o céu.
A névoa parecia ter se aberto...
Talvez, na correria, ninguém tivesse reparado, mas ali dava para ver o céu.
"O que é aquilo? O sol? Ou a lua?!! Por que há tantos..." Todos ergueram a cabeça...
Ainda havia névoa, mas já dava para ver estrelas gigantes no céu!
Pareciam ainda maiores que o sol aos olhos...
Eram dez ao todo; olhando bem, pareciam se mover lentamente.
"As estrelas voltaram ao lugar certo! Então era isso..."
"Eles queriam nos guiar até aqui para realizar este ritual." Disse Sean.