O coração de Liu Tiezhu apertou-se. Ele virou-se e entrou num beco, tomando um atalho de volta à estalagem.
— Rápido! — sussurrou ao entrar. — Fomos descobertos.
O Dr. Xing e os desertores começaram a arrumar as coisas imediatamente.
Assim que saíram pelos fundos, ouviram batidas na porta da frente.
— Separem-se! — Liu Tiezhu entregou dinheiro aos desertores. — Esperem-nos no cais de Tianjin!
Os cinco dispersaram-se em fuga.
Liu Tiezhu e o Dr. Xing mergulharam num labirinto de becos, com gritos e passos atrás deles.
— Por aqui! — Liu Tiezhu puxou o Dr. Xing e saltou um muro baixo, caindo no quintal de uma casa.
No pátio, havia roupas estendidas.
Os dois trocaram rapidamente de roupa, vestindo-se como civis, e esconderam as roupas antigas numa pilha de lenha.
Bateram à porta da frente: — Tem alguém? Caça a fugitivos!
Liu Tiezhu e o Dr. Xing saltaram o muro dos fundos e chegaram a outra rua.
Ali, havia movimento de pessoas. Eles baixaram a cabeça e misturaram-se rapidamente à multidão.
— Não podemos voltar à estalagem. — O Dr. Xing ofegava. — E a bagagem?
— Deixa para lá. — Liu Tiezhu foi decidido. — Primeiro, saímos de Shanhaiguan.
Os dois deram voltas pela cidade, certificando-se de que tinham despistado os perseguidores, e chegaram a um templo em ruínas no sul da cidade.
O lugar estava abandonado há muito, servindo de abrigo para mendigos.
— Passamos a noite aqui. — Liu Tiezhu examinou o ambiente. — Amanhã cedo vamos para o cais.
Havia alguns mendigos no templo, que os ignoraram.
Os dois encontraram um canto e sentaram-se, dividindo os pães frios que restavam.
— Aquele comerciante japonês... — O Dr. Xing refletiu. — Por que tanta pressa em nos prender?
— O minério. — Liu Tiezhu riu com desprezo. — A última carga foi destruída por nós.
— Será que ele vai nos seguir até Tianjin?
— Muito provável. — Liu Tiezhu olhou para a noite lá fora. — Precisamos dar um jeito de despistá-los.
A noite avançou, e os mendigos no templo dormiam.
Liu Tiezhu ouviu passos leves de repente. Ficou alerta e aproximou-se sorrateiramente da janela.
Sob o luar, três vultos aproximavam-se do templo em ruínas, um deles com uma arma na mão.
— Velho Xing! — Liu Tiezhu avisou em voz baixa. — Tem gente chegando!
O Dr. Xing acordou imediatamente, e os dois esconderam-se rapidamente atrás da estátua de um deus.
A porta do templo foi aberta devagar, e um vulto entrou.
— Revistem! — ordenou o líder em voz baixa.
Os vultos espalharam-se para revistar.
Um deles dirigiu-se à estátua, com a luz de uma lanterna varrendo o ambiente.
Liu Tiezhu prendeu a respiração e apertou o punhal.
De repente, um mendigo acordou assustado e gritou em pânico: — Quem é?
— Pum!
O tiro ecoou, cortante no silêncio da noite!
O grito do mendigo cessou abruptamente!
Os outros mendigos também acordaram e fugiram em desespero, espalhando-se.
Na confusão, Liu Tiezhu e o Dr. Xing aproveitaram para correr em direção à porta. Um vulto bloqueou o caminho.
Liu Tiezhu deu um chute voador na virilha dele, e o vulto caiu com um gemido.
— Peguem-nos! — gritou o líder com severidade.
Liu Tiezhu já tinha saído pela porta do templo, com o Dr. Xing logo atrás.
Balas assobiavam perto de suas orelhas, batendo na parede e levantando lascas de pedra.
Os dois correram desesperadamente e entraram num beco.
Os perseguidores não largavam o osso, e os passos aproximavam-se cada vez mais.
— Separem-se! — Liu Tiezhu empurrou o Dr. Xing. — Encontramo-nos no cais.
O Dr. Xing virou noutro beco, enquanto Liu Tiezhu continuou em frente.
Os perseguidores dividiram-se, e três deles seguiram Liu Tiezhu.
Liu Tiezhu virou várias esquinas e de repente deu com um beco sem saída.
Os perseguidores estavam quase em cima dele. Ele chutou uma porta de madeira com força e entrou.
Dentro, havia um pequeno pátio com redes de pesca estendidas.
Liu Tiezhu escondeu-se rapidamente atrás das redes e prendeu a respiração.
Os perseguidores entraram no pátio e revistaram tudo: — Sai daí, já te vimos.
Liu Tiezhu não se mexeu.
Um dos perseguidores aproximou-se das redes e ia levantá-las quando, de repente, ouviu-se o latido de um cão no pátio vizinho.
— Ali! — gritou o líder. — Vão atrás!
Os três foram-se embora às pressas.
Liu Tiezhu esperou um pouco, certificou-se de que estava seguro e saiu.
Saltou o muro para o pátio vizinho e afastou-se em silêncio.
Quando o dia começou a clarear, Liu Tiezhu chegou ao cais.
O Dr. Xing ainda não tinha chegado. Ele encontrou um lugar escondido para esperar.
No cais, já havia gente trabalhando.
Liu Tiezhu observava os barcos que iam e vinham quando viu um pequeno cargueiro a carregar mercadorias. No casco, estava escrito "Jinhai Hao" — o barco que planeavam apanhar.
Enquanto olhava, uma figura familiar apareceu no cais: o homem de fato.
Ele conversava com alguns marinheiros, segurando uma fotografia.
O coração de Liu Tiezhu apertou-se. Ele baixou a aba do chapéu e recuou alguns passos.
Nesse momento, alguém bateu no seu ombro.
Ele virou-se rapidamente, com o punhal já na garganta do outro.
— Sou eu! — o Dr. Xing apressou-se a sussurrar. — Assustaste-me!
Liu Tiezhu guardou o punhal: — Por que demoraste tanto?
— Dei uma grande volta. — O Dr. Xing ofegava. — Não podemos apanhar aquele barco; estão a revistar.
— Há outros barcos?
— Há, mas todos estão com revistas apertadas. — O Dr. Xing apontou para um barco de pesca ao longe. — Aquele é de contrabando; pagas e entras.
Liu Tiezhu pensou por um momento: — Muito perigoso. Vamos por terra.
— Na terra, há ainda mais postos de controlo. — O Dr. Xing abanou a cabeça. — Tenho uma ideia.
Ele levou Liu Tiezhu até à zona de armazéns perto do cais.
O lugar estava cheio de mercadorias à espera de transporte, com trabalhadores a circular.
— Olha para aquele. — O Dr. Xing apontou para uma carroça a ser carregada. — É de caixões.
Liu Tiezhu percebeu imediatamente a ideia dele.
Na carroça, havia três caixões, e alguns trabalhadores estavam a carregar outras mercadorias.
— Para onde vai?
— Para Tianjin. — O Dr. Xing falou baixinho. — Perguntei; é para levar defuntos de volta para casa.
— Muito arriscado. — Liu Tiezhu franziu a testa. — Se nos prenderem lá dentro.
— Melhor do que ser apanhado. — O Dr. Xing insistiu. — Eles não vão revistar mortos.
Liu Tiezhu ponderou várias vezes e acabou por concordar.
Os dois aproveitaram a pausa dos trabalhadores para o almoço e aproximaram-se sorrateiramente da carroça.
Os caixões ainda não estavam pregados.
Liu Tiezhu abriu um; estava vazio.
— Rápido! — disse em voz baixa. — Agora!
Os dois treparam rapidamente para dentro do caixão e fecharam a tampa suavemente.
Dentro do caixão, estava abafado e escuro, mas dava para se esconder.
Pouco depois, os trabalhadores voltaram.
A carroça balançou algumas vezes e começou a andar.
O caixão era sacudido de um lado para o outro. Liu Tiezhu sentia dificuldade em respirar, mas aguentou com os dentes cerrados.
Não se sabe quanto tempo passou, mas a carroça parou de repente. Ouviu-se uma voz lá fora: — Documentos de viagem?
— É um funeral. — Respondeu o cocheiro. — Três corpos, para enterrar em Tianjin.
— Abre para ver.
O coração de Liu Tiezhu subiu à garganta!
A tampa do caixão foi aberta uma fresta, e uma luz ofuscante entrou.
Ele prendeu a respiração e não se mexeu.
— Que azar! — resmungou o homem da revista. — Pode ir, pode ir!
A tampa foi fechada de novo, e a carroça continuou.
Liu Tiezhu soltou um longo suspiro de alívio. Finalmente, tinham passado o posto de controlo.
A carroça sacudiu durante um dia inteiro.
Ao anoitecer, parou finalmente. A tampa do caixão foi aberta, e o rosto do cocheiro apareceu lá em cima: — Chegámos. Podem sair.
Liu Tiezhu e o Dr. Xing saíram do caixão e viram que estavam num cemitério nos arredores de Tianjin.
— Obrigado. — O Dr. Xing deu algumas moedas de prata ao cocheiro.
O cocheiro abanou a cabeça: — Vão-se embora depressa, não deixem ninguém ver.
Os dois saíram do cemitério e dirigiram-se para a zona urbana de Tianjin.
Liu Tiezhu olhou para trás, para o longínquo Shanhaiguan, mas a inquietação no seu coração só aumentava.
Aquele comerciante japonês, Fujita... quem era ele, afinal?