Capítulo 604: Capítulo 604: Transportando Pessoas em Caixões

O coração de Liu Tiezhu apertou-se. Ele virou-se e entrou num beco, tomando um atalho de volta à estalagem.

— Rápido! — sussurrou ao entrar. — Fomos descobertos.

O Dr. Xing e os desertores começaram a arrumar as coisas imediatamente.

Assim que saíram pelos fundos, ouviram batidas na porta da frente.

— Separem-se! — Liu Tiezhu entregou dinheiro aos desertores. — Esperem-nos no cais de Tianjin!

Os cinco dispersaram-se em fuga.

Liu Tiezhu e o Dr. Xing mergulharam num labirinto de becos, com gritos e passos atrás deles.

— Por aqui! — Liu Tiezhu puxou o Dr. Xing e saltou um muro baixo, caindo no quintal de uma casa.

No pátio, havia roupas estendidas.

Os dois trocaram rapidamente de roupa, vestindo-se como civis, e esconderam as roupas antigas numa pilha de lenha.

Bateram à porta da frente: — Tem alguém? Caça a fugitivos!

Liu Tiezhu e o Dr. Xing saltaram o muro dos fundos e chegaram a outra rua.

Ali, havia movimento de pessoas. Eles baixaram a cabeça e misturaram-se rapidamente à multidão.

— Não podemos voltar à estalagem. — O Dr. Xing ofegava. — E a bagagem?

— Deixa para lá. — Liu Tiezhu foi decidido. — Primeiro, saímos de Shanhaiguan.

Os dois deram voltas pela cidade, certificando-se de que tinham despistado os perseguidores, e chegaram a um templo em ruínas no sul da cidade.

O lugar estava abandonado há muito, servindo de abrigo para mendigos.

— Passamos a noite aqui. — Liu Tiezhu examinou o ambiente. — Amanhã cedo vamos para o cais.

Havia alguns mendigos no templo, que os ignoraram.

Os dois encontraram um canto e sentaram-se, dividindo os pães frios que restavam.

— Aquele comerciante japonês... — O Dr. Xing refletiu. — Por que tanta pressa em nos prender?

— O minério. — Liu Tiezhu riu com desprezo. — A última carga foi destruída por nós.

— Será que ele vai nos seguir até Tianjin?

— Muito provável. — Liu Tiezhu olhou para a noite lá fora. — Precisamos dar um jeito de despistá-los.

A noite avançou, e os mendigos no templo dormiam.

Liu Tiezhu ouviu passos leves de repente. Ficou alerta e aproximou-se sorrateiramente da janela.

Sob o luar, três vultos aproximavam-se do templo em ruínas, um deles com uma arma na mão.

— Velho Xing! — Liu Tiezhu avisou em voz baixa. — Tem gente chegando!

O Dr. Xing acordou imediatamente, e os dois esconderam-se rapidamente atrás da estátua de um deus.

A porta do templo foi aberta devagar, e um vulto entrou.

— Revistem! — ordenou o líder em voz baixa.

Os vultos espalharam-se para revistar.

Um deles dirigiu-se à estátua, com a luz de uma lanterna varrendo o ambiente.

Liu Tiezhu prendeu a respiração e apertou o punhal.

De repente, um mendigo acordou assustado e gritou em pânico: — Quem é?

— Pum!

O tiro ecoou, cortante no silêncio da noite!

O grito do mendigo cessou abruptamente!

Os outros mendigos também acordaram e fugiram em desespero, espalhando-se.

Na confusão, Liu Tiezhu e o Dr. Xing aproveitaram para correr em direção à porta. Um vulto bloqueou o caminho.

Liu Tiezhu deu um chute voador na virilha dele, e o vulto caiu com um gemido.

— Peguem-nos! — gritou o líder com severidade.

Liu Tiezhu já tinha saído pela porta do templo, com o Dr. Xing logo atrás.

Balas assobiavam perto de suas orelhas, batendo na parede e levantando lascas de pedra.

Os dois correram desesperadamente e entraram num beco.

Os perseguidores não largavam o osso, e os passos aproximavam-se cada vez mais.

— Separem-se! — Liu Tiezhu empurrou o Dr. Xing. — Encontramo-nos no cais.

O Dr. Xing virou noutro beco, enquanto Liu Tiezhu continuou em frente.

Os perseguidores dividiram-se, e três deles seguiram Liu Tiezhu.

Liu Tiezhu virou várias esquinas e de repente deu com um beco sem saída.

Os perseguidores estavam quase em cima dele. Ele chutou uma porta de madeira com força e entrou.

Dentro, havia um pequeno pátio com redes de pesca estendidas.

Liu Tiezhu escondeu-se rapidamente atrás das redes e prendeu a respiração.

Os perseguidores entraram no pátio e revistaram tudo: — Sai daí, já te vimos.

Liu Tiezhu não se mexeu.

Um dos perseguidores aproximou-se das redes e ia levantá-las quando, de repente, ouviu-se o latido de um cão no pátio vizinho.

— Ali! — gritou o líder. — Vão atrás!

Os três foram-se embora às pressas.

Liu Tiezhu esperou um pouco, certificou-se de que estava seguro e saiu.

Saltou o muro para o pátio vizinho e afastou-se em silêncio.

Quando o dia começou a clarear, Liu Tiezhu chegou ao cais.

O Dr. Xing ainda não tinha chegado. Ele encontrou um lugar escondido para esperar.

No cais, já havia gente trabalhando.

Liu Tiezhu observava os barcos que iam e vinham quando viu um pequeno cargueiro a carregar mercadorias. No casco, estava escrito "Jinhai Hao" — o barco que planeavam apanhar.

Enquanto olhava, uma figura familiar apareceu no cais: o homem de fato.

Ele conversava com alguns marinheiros, segurando uma fotografia.

O coração de Liu Tiezhu apertou-se. Ele baixou a aba do chapéu e recuou alguns passos.

Nesse momento, alguém bateu no seu ombro.

Ele virou-se rapidamente, com o punhal já na garganta do outro.

— Sou eu! — o Dr. Xing apressou-se a sussurrar. — Assustaste-me!

Liu Tiezhu guardou o punhal: — Por que demoraste tanto?

— Dei uma grande volta. — O Dr. Xing ofegava. — Não podemos apanhar aquele barco; estão a revistar.

— Há outros barcos?

— Há, mas todos estão com revistas apertadas. — O Dr. Xing apontou para um barco de pesca ao longe. — Aquele é de contrabando; pagas e entras.

Liu Tiezhu pensou por um momento: — Muito perigoso. Vamos por terra.

— Na terra, há ainda mais postos de controlo. — O Dr. Xing abanou a cabeça. — Tenho uma ideia.

Ele levou Liu Tiezhu até à zona de armazéns perto do cais.

O lugar estava cheio de mercadorias à espera de transporte, com trabalhadores a circular.

— Olha para aquele. — O Dr. Xing apontou para uma carroça a ser carregada. — É de caixões.

Liu Tiezhu percebeu imediatamente a ideia dele.

Na carroça, havia três caixões, e alguns trabalhadores estavam a carregar outras mercadorias.

— Para onde vai?

— Para Tianjin. — O Dr. Xing falou baixinho. — Perguntei; é para levar defuntos de volta para casa.

— Muito arriscado. — Liu Tiezhu franziu a testa. — Se nos prenderem lá dentro.

— Melhor do que ser apanhado. — O Dr. Xing insistiu. — Eles não vão revistar mortos.

Liu Tiezhu ponderou várias vezes e acabou por concordar.

Os dois aproveitaram a pausa dos trabalhadores para o almoço e aproximaram-se sorrateiramente da carroça.

Os caixões ainda não estavam pregados.

Liu Tiezhu abriu um; estava vazio.

— Rápido! — disse em voz baixa. — Agora!

Os dois treparam rapidamente para dentro do caixão e fecharam a tampa suavemente.

Dentro do caixão, estava abafado e escuro, mas dava para se esconder.

Pouco depois, os trabalhadores voltaram.

A carroça balançou algumas vezes e começou a andar.

O caixão era sacudido de um lado para o outro. Liu Tiezhu sentia dificuldade em respirar, mas aguentou com os dentes cerrados.

Não se sabe quanto tempo passou, mas a carroça parou de repente. Ouviu-se uma voz lá fora: — Documentos de viagem?

— É um funeral. — Respondeu o cocheiro. — Três corpos, para enterrar em Tianjin.

— Abre para ver.

O coração de Liu Tiezhu subiu à garganta!

A tampa do caixão foi aberta uma fresta, e uma luz ofuscante entrou.

Ele prendeu a respiração e não se mexeu.

— Que azar! — resmungou o homem da revista. — Pode ir, pode ir!

A tampa foi fechada de novo, e a carroça continuou.

Liu Tiezhu soltou um longo suspiro de alívio. Finalmente, tinham passado o posto de controlo.

A carroça sacudiu durante um dia inteiro.

Ao anoitecer, parou finalmente. A tampa do caixão foi aberta, e o rosto do cocheiro apareceu lá em cima: — Chegámos. Podem sair.

Liu Tiezhu e o Dr. Xing saíram do caixão e viram que estavam num cemitério nos arredores de Tianjin.

— Obrigado. — O Dr. Xing deu algumas moedas de prata ao cocheiro.

O cocheiro abanou a cabeça: — Vão-se embora depressa, não deixem ninguém ver.

Os dois saíram do cemitério e dirigiram-se para a zona urbana de Tianjin.

Liu Tiezhu olhou para trás, para o longínquo Shanhaiguan, mas a inquietação no seu coração só aumentava.

Aquele comerciante japonês, Fujita... quem era ele, afinal?