Liu Tiezhu fez sinal para Huikong proteger Xiaoyu e foi até a janela espiar.
Lá embaixo estava uma pessoa inesperada: o gordo funcionário da Casa de Grãos Zheng.
Ele estava coberto de sangue, olhando ansiosamente para todos os lados.
— Velho Zhang? — chamou Liu Tiezhu em voz baixa, surpreso.
O funcionário gordo ergueu a cabeça e, ao vê-lo, pareceu aliviado: — Abre a porta, tenho uma notícia importante.
Liu Tiezhu, cauteloso, deixou-o entrar.
O funcionário gordo subiu as escadas tropeçando e, ao entrar, desabou no chão.
— O... o Sr. Zhou me mandou... — disse ele, ofegante — Ele... foi preso...
— O quê? — exclamou Huikong, chocado.
— Mas ele... mandou um recado... — disse o gordo com dificuldade — Vão... à ferraria... do Velho Wu...
Ao dizer isso, desmaiou.
Liu Tiezhu examinou seus ferimentos e encontrou um tiro nas costas, sangrando sem parar.
— O que ele disse sobre a ferraria? — perguntou Huikong.
Liu Tiezhu balançou a cabeça: — Não sei, mas pode ser uma pista.
Ele fez um curativo simples no funcionário gordo e ficou pensativo.
A mensagem que Zhou Mo arriscou a vida para enviar devia ser muito importante.
— Ferraria... Velho Wu... — murmurou — Onde fica?
Xiaoyu de repente abriu os olhos e disse, fraca: — Tio Liu... eu sei...
Os dois a olharam surpresos. A menina ergueu a mão com dificuldade, apontando para o norte: — Lá... tem um calor... como o pai disse...
Liu Tiezhu e Huikong trocaram olhares.
Será que a percepção de sangue de Xiaoyu poderia guiá-los até o contato?
— A que distância?
— Não longe... — Xiaoyu fechou os olhos — Mas é perigoso... tem gente ruim vigiando...
Liu Tiezhu tomou uma decisão: — Quando escurecer, vamos dar uma olhada.
Huikong olhou preocupado para o funcionário gordo desmaiado: — E ele?
— Deixamos dinheiro para o dono cuidar — disse Liu Tiezhu — Não podemos mais atrasá-lo.
Ao cair da noite, os três saíram silenciosamente da hospedaria.
Xiaoyu, carregada por Liu Tiezhu, indicava o caminho.
O "calor" que ela mencionava parecia ser uma energia que só ela conseguia sentir.
Depois de atravessar algumas ruas e vielas, chegaram a uma ferraria isolada.
A loja já estava fechada, mas no quintal dos fundos ainda havia luz acesa.
— É aqui — disse Xiaoyu em voz baixa.
Liu Tiezhu observou os arredores com atenção e notou algumas sombras patrulhando nos cantos escuros.
Aquela ferraria não era simples.
— Como entramos?
Huikong pensou: — Eu chamo a atenção pela frente, você entra pelo muro dos fundos.
O plano funcionou bem. Huikong fingiu ser um bêbado causando confusão na porta, distraindo os guardas.
Liu Tiezhu aproveitou para pular o muro e entrar no quintal, carregando Xiaoyu até a janela iluminada.
Pela fresta, viu um ferreiro velho e robusto forjando uma adaga estranha, com runas iguais às do pingente de jade.
— Arma de subjugar dragões — percebeu Liu Tiezhu. Aquele Velho Wu também era um guardião.
Ele bateu levemente na janela. O ferreiro velho ergueu a cabeça, alerta, e pegou o martelo: — Quem é?
— Irmão de Chen Yeying — respondeu Liu Tiezhu em voz baixa — Trouxe a filha dele.
O ferreiro velho empalideceu e abriu a janela depressa para deixá-los entrar: — Céus, como vocês me encontraram?
— Xiaoyu nos guiou — explicou Liu Tiezhu resumidamente — Zhou Mo nos mandou.
O ferreiro velho olhou para o estado de Xiaoyu e franziu a testa: — Reação do sangue, precisa de tratamento urgente.
— Você pode ajudar?
— Posso, mas é perigoso — disse o ferreiro velho, indo para o cômodo dos fundos — Venham comigo.
O cômodo era uma oficina secreta, com paredes cobertas de armas e ferramentas estranhas.
O mais impressionante era a fornalha no centro, com chamas de um azul sinistro.
— O que é isso?
— Fornalha do Fogo do Dragão — explicou o ferreiro velho, sucinto — Forja armas de subjugar dragões com o fogo das veias da terra.
Ele tirou uma pequena caixa de ferro de um armário, com algumas pílulas douradas: — Pílulas de Sangue de Dragão, estabilizam temporariamente o sangue.
Liu Tiezhu pegou as pílulas e as deu a Xiaoyu com cuidado.
Em pouco tempo, a respiração da menina se acalmou e as escamas na pele diminuíram.
— Só dura alguns dias — suspirou o ferreiro velho — Para curar de vez, precisa ir à terra ancestral.
— Montanhas Khingan?
— Sim — confirmou ele — Lá há uma piscina de purificação do sangue, que lava a reação.
Enquanto falavam, ouviram barulho de luta e gritos lá fora.
O ferreiro velho empalideceu: — Fomos descobertos!
Ele rapidamente empurrou um compartimento secreto na parede: — Vão, o túnel leva para fora da cidade.
Liu Tiezhu pegou Xiaoyu no colo e ia entrar no túnel quando a porta foi arrombada.
Vários homens de preto entraram com armas.
— Peguem eles! — gritou o líder.
O ferreiro velho pegou um alicate em brasa e avançou: — Vão, eu seguro eles!
Liu Tiezhu rangeu os dentes e entrou no túnel, ouvindo atrás os gritos do ferreiro e tiros.
O túnel era estreito e escuro; ele só podia avançar tateando.
Não sabia quanto tempo rastejou, até que a luz apareceu na frente.
Ao sair do túnel, estavam numa floresta fora da cidade.
Huikong saiu depois, com o ferimento no ombro aberto de novo: — O Velho Wu... se sacrificou...
Liu Tiezhu apertou os punhos, mas não era hora de lamentar.
Ao longe, o contorno da cidade era visível sob o luar, e os perseguidores podiam vir a qualquer momento.
— E agora? — perguntou Huikong, fraco.
Liu Tiezhu olhou para Xiaoyu, adormecida em seus braços: — Continuamos para o norte. O Velho Wu disse que a piscina de purificação pode salvá-la.
— Como vamos? A pé é perigoso demais.
Liu Tiezhu pensou um momento: — Primeiro, achamos um lugar para passar a noite. Amanhã, damos um jeito de conseguir um carro.
Encontraram uma cabana de caçador no fundo da floresta e se abrigaram temporariamente.
Xiaoyu dormia inquieta, murmurando de vez em quando. Liu Tiezhu ficou ao lado dela, pensativo.
Nessa jornada, muitos já haviam se sacrificado.
E agora, a última esperança estava nas distantes Montanhas Khingan.
No meio da noite, Xiaoyu acordou de repente, agarrando a mão de Liu Tiezhu com medo: — Tio Liu, o dragão da terra vai acordar.
Como se confirmasse suas palavras, no horizonte distante, uma luz vermelha sinistra subiu ao céu.
A terra começou a tremer levemente, como se uma criatura enorme estivesse se virando no subsolo.
A luz vermelha, como uma coluna de sangue, perfurou o céu noturno.
O tremor aumentou, e os pássaros e animais na floresta fugiram em pânico.
Liu Tiezhu pegou Xiaoyu e saiu correndo da cabana, com Huikong tropeçando atrás.
— O que está acontecendo? — perguntou Huikong, apavorado, olhando para a luz vermelha ao longe.
— O selo quebrou — disse Xiaoyu, fraca — O dragão da terra vai sair.
Liu Tiezhu sentiu o coração apertar: — Qual selo?
— Templo Bohai.
Liu Tiezhu lembrou do selo principal que o monge Huiming guardava.
— Precisamos sair agora — disse ele, carregando Xiaoyu nas costas — Para o norte!
Os três avançaram tropeçando pela floresta.
O chão tremia cada vez mais forte, as árvores balançavam, folhas caíam.
Ao longe, um rugido abafado ecoava, como se a terra estivesse rugindo.
— Olha! — Huikong apontou para o céu.
O céu, antes escuro, agora brilhava com uma luz vermelha sinistra, as nuvens como tingidas de sangue.
Pior ainda, nas nuvens, uma sombra enorme se movia, como um dragão.
— O dragão da terra se manifestou — a voz de Xiaoyu tremia — Ele vai se vingar.
Liu Tiezhu acelerou o passo. No fim da floresta, havia uma estrada de terra vazia, com algumas carroças abandonadas.
— Achem uma carroça!
Eles examinaram as carroças e encontraram um cavalo assustado que havia se soltado, tremendo na beira da estrada.
Liu Tiezhu acalmou o cavalo e, com Huikong, atrelou a carroça.
Assim que a carroça partiu, ouviram gritos vindos da floresta atrás. Vários homens de preto saíram tropeçando, com chamas azuis sinistras queimando em seus corpos.