A névoa matinal nas montanhas, como um véu fino, envolvia o caminho sinuoso.
Liu Tiezhu carregava Xiaoyu nos braços, avançando com dificuldade pela floresta densa. A ferida na perna ardia como fogo, cada passo parecia pisar em pontas de faca. O som do motor atrás ora se aproximava, ora se afastava; a equipe de busca da guarda claramente não desistira. Xiaoyu estava deitada em seu ombro, com a respiração fraca, mas estável. Essa criança já passara por demais e aprendera a conservar energia durante a fuga. — Tio Liu... — ela disse de repente, em voz baixa. — Para a direita... tem uma trilha de caçador... Liu Tiezhu olhou na direção que ela apontava e, de fato, viu entre dois arbustos uma vereda quase coberta por ervas daninhas. Ele afastou os espinhos e entrou; a trilha era íngreme, mas escondida, e logo deixou para trás o barulho dos perseguidores. Ao subir até a meia encosta, a vista se abriu diante dele. Numa clareira escondida do vale, havia uma cabana de palha solitária, com uma fumaça fina saindo da chaminé. — Tem alguém morando... — Liu Tiezhu pegou a pistola com cautela. — Cuidado. Mas Xiaoyu se debateu para descer: — É gente boa... eu sinto... Liu Tiezhu, entre a dúvida e a crença, segurou-a pela mão e se aproximou devagar. Na frente da cabana havia um pequeno quintal, com algumas ervas medicinais e vegetais plantados. Um velho de cabelos brancos se curvava, arrumando um cesto de ervas; ao ouvir os passos, ergueu-se lentamente. — Chegaram? — disse o velho sem se virar. — Dois dias atrasados. Liu Tiezhu ficou pasmo: — O senhor... estava nos esperando? O velho se virou; no rosto cheio de rugas, havia um par de olhos excepcionalmente brilhantes: — Filha de Chen Yeying, não é? Ele olhou para Xiaoyu: — Você se parece com sua mãe. Xiaoyu, tímida, assentiu: — O senhor conhece meu pai? — Velha amizade. — O velho acenou. — Entrem, o ferimento está feio. A cabana era simples, mas limpa, com um cheiro forte de ervas medicinais. O velho mandou Liu Tiezhu deitar e examinou habilmente o ferimento na perna. — Ferimento de bala, infeccionou. — O velho pegou um pequeno frasco de porcelana. — Aguente firme. O pó de remédio espalhado na ferida doeu tanto que Liu Tiezhu viu tudo escuro. O velho então pegou agulhas de prata e as cravou ao redor do ferimento; o sangramento finalmente começou a parar. — O senhor é? — Sobrenome Hu, os montanheses me chamam de Doutor Hu. — O velho fazia o curativo. — Yeying salvou minha vida; prometi a ele que, se precisasse, cuidaria da filha dele. Liu Tiezhu suspirou aliviado: — O senhor sabe que estamos sendo perseguidos? — Correu por toda a região. — O Doutor Hu deu um sorriso frio. — Um figurão vindo de Fengtian ofereceu dez mil dólares de recompensa por uma garotinha. Ele olhou para Xiaoyu com um significado profundo: — Parece que os boatos não mentem; ela realmente tem o sangue do dragão guardião. O coração de Liu Tiezhu apertou: — O senhor também sabe... sobre o Guardião do Dragão? — Sei um pouco. — O Doutor Hu preparava o remédio. — Meus antepassados foram xamãs khitan; deixaram alguns registros. — Ele mexeu a panela de remédio. — Yeying me procurou, perguntou sobre o dragão da terra. O caldo do remédio ficou pronto, preto como tinta, com um cheiro forte. O Doutor Hu mandou Liu Tiezhu beber e deu a Xiaoyu uma tigela pequena de chá medicinal amarelado. — Para acalmar os nervos; a criança está assustada. Xiaoyu bebeu obedientemente e logo caiu no sono. O Doutor Hu a carregou para o quarto dos fundos, colocou-a na cama e a cobriu com um cobertor. — Ela consegue sentir o dragão da terra, não é? — O Doutor Hu baixou a voz. — O tremor de agora há pouco, até aqui eu senti. Liu Tiezhu assentiu e contou resumidamente a experiência na caverna subterrânea, mas omitiu a parte sobre o pingente de jade e o "Registro do Dragão Guardião". O Doutor Hu ouviu, franzindo a testa. — O grupo de Yamamoto enlouqueceu; se o dragão da terra despertar completamente, milhares de quilômetros ao redor serão devastados. — O senhor conhece outros locais de selamento? O Doutor Hu balançou a cabeça: — Yeying também não encontrou todos. Só sei da Montanha do Dragão Negro, da Montanha Tiesha, e... Ele hesitou: — Pode haver um debaixo do Templo da Família Zheng. A família Zheng! Liu Tiezhu lembrou-se da foto de Yeying com o Terceiro Mestre Zheng; realmente havia uma ligação. — E agora? — perguntou ele. — A guarda não vai desistir de vasculhar a montanha. O Doutor Hu pensou por um momento: — Tenho um campo de ervas medicinais na floresta antiga, onde ninguém vai; vocês podem se esconder lá por alguns dias. Quando a poeira baixar, dou um jeito de tirá-los da montanha. Enquanto falava, ouviu-se ao longe o latido de cães! O Doutor Hu mudou de expressão e foi rapidamente até a janela. — Estão vindo... Rápido, pela porta dos fundos! Liu Tiezhu pegou Xiaoyu, que dormia profundamente, e seguiu o Doutor Hu através da horta, entrando numa trilha quase coberta por ervas daninhas. Os latidos se aproximavam, e vozes humanas já eram audíveis. — Há uma caverna adiante, a entrada coberta por vinhas. — O Doutor Hu falava apressado. — Tem comida e água lá dentro, dá para três dias. Eu me livro deles e venho buscá-los. A trilha era íngreme e escorregadia; a perna ferida de Liu Tiezhu quase não aguentava. Quando finalmente chegaram à caverna, os sons dos perseguidores já estavam muito próximos. — Entrem, não façam barulho! — O Doutor Hu enfiou um pacote de remédio na mão dele. — Troque o curativo uma vez por dia. Liu Tiezhu entrou na caverna, e as vinhas na entrada se fecharam imediatamente, perfeitamente ajustadas. A caverna era seca e arejada; num canto, havia palha seca e alguns potes de cerâmica. Ele colocou Xiaoyu no chão com cuidado e foi até a entrada observar. Através das frestas das vinhas, viu o Doutor Hu voltar rapidamente para a cabana. Pouco depois, um grupo de guardas entrou no quintal com cães de caça. — Velho! Viu um homem, uma mulher e uma criança? — Não, senhor oficial, este lugar é isolado... — Revistem! Ouviu-se o barulho de passos confusos e de gavetas sendo reviradas. Liu Tiezhu prendeu a respiração, com a pistola apontada para a entrada. Se os cães encontrassem este lugar... De repente, um latido agudo de cachorro, seguido de gritos dos guardas. — Cobra! Cobra venenosa! — Minha perna! Socorro! — Recuem! Este lugar é amaldiçoado! O barulho confuso dos passos foi se afastando. Liu Tiezhu suspirou aliviado, mas não baixou a guarda; esperou mais meia hora antes de voltar para dentro da caverna. Xiaoyu já tinha acordado e estava sentada na palha seca, abraçando os joelhos. — Tio Liu... por que aqueles bandidos querem tanto me pegar? Liu Tiezhu sentou-se ao lado dela: — Porque seu sangue é especial; pode controlar uma força terrível. — Igual ao papai? — Sim. — Liu Tiezhu hesitou. — Seu pai é um herói; ele deu a vida para impedir que os bandidos destruíssem o mundo. Xiaoyu baixou a cabeça, e as lágrimas caíam na palha: — Sinto saudades do papai. Liu Tiezhu a abraçou pelos ombros magros: — Ele se orgulharia de você, tão corajosa. A noite caiu, e o frio aumentou dentro da caverna. Liu Tiezhu tapou a entrada com palha seca e acendeu uma pequena fogueira para se aquecer. À luz do fogo, Xiaoyu dormia de novo, com marcas de lágrimas no rosto. Ele tirou do bolso o "Registro do Dragão Guardião" e o pingente de jade, estudando-os à luz da fogueira. O pingente brilhava com um estranho tom vermelho sob a luz; os veios internos pareciam se mover levemente, como se estivessem vivos. A última página do "Registro do Dragão Guardião" era um mapa incompleto, com sete pontos vermelhos marcados. Três deles já estavam riscados — Montanha do Dragão Negro, Montanha Tiesha, e um terceiro com o nome ilegível. Os quatro restantes estavam espalhados pela Montanha Changbai, Grande Montanha Khingan e duas cordilheiras sem nome. Se o pessoal de Yamamoto encontrasse e destruísse todos os selamentos... Liu Tiezhu não ousava pensar nisso. Yeying dera a vida para impedir o desastre, mas seus inimigos ainda estavam ativos e de olho em Xiaoyu. — Preciso protegê-la. — murmurou para si mesmo. — E também impedir aqueles homens. De repente, ouviram-se passos leves do lado de fora da caverna; Liu Tiezhu apagou a fogueira imediatamente e engatilhou a pistola. — Sou eu. — A voz do Doutor Hu veio de fora. — Está seguro. As vinhas se abriram, e o Doutor Hu entrou, carregando uma cesta: — Trouxe um pouco de comida. A guarda se retirou, mas ainda há postos de controle no sopé da montanha. Ele largou a cesta e olhou para Xiaoyu, que dormia: — A criança está bem? — Assustada, mas é forte. O Doutor Hu assentiu e tirou do peito um pequeno pacote de pano: — Isto, Yeying deixou comigo, dizendo que, se um dia a filha dele viesse, eu deveria entregar a ela. Dentro do pacote havia um cadeado de prata para longevidade, com "Paz e Alegria" gravado na frente e, no verso, um desenho de dragão semelhante ao do pingente de jade. — Herança de família dos Chen. — O Doutor Hu disse em voz baixa. — Afasta o mal. Liu Tiezhu pegou o cadeado e de repente notou uma pequena chave pendurada na corrente: — O que é isto? — Não sei, Yeying não disse. — O Doutor Hu balançou a cabeça. — Pode ser útil. A chave era muito pequena, como se fosse para abrir algum tipo de fechadura delicada. Liu Tiezhu guardou-a por enquanto e continuou folheando o "Registro do Dragão Guardião". — Doutor Hu, o senhor sabe onde fica o Templo da Família Zheng? — Nos arredores oeste de Fengtian, perto da Montanha do Dragão Negro. — O Doutor Hu apertou os olhos. — O que você pretende fazer? — O diário de Yeying menciona que pode haver um selamento lá. — Liu Tiezhu baixou a voz. — Se o pessoal de Yamamoto encontrar... O Doutor Hu ficou com o rosto grave: — É muito perigoso; você está com a criança, mal consegue se salvar. — Justamente por estar com Xiaoyu é que preciso impedi-los. — Liu Tiezhu disse com firmeza. — O sangue dela pode sentir o dragão da terra; aqueles homens não vão desistir dela. O Doutor Hu ficou em silêncio por um longo tempo e finalmente suspirou: — Quando o ferimento melhorar, vou levá-lo para ver alguém; talvez ele possa ajudar. — Quem? — O filho adotivo do Terceiro Mestre Zheng, Zheng Xiaohu. — O Doutor Hu baixou a voz. — Ele vem investigando secretamente os remanescentes de Yamamoto. Os olhos de Liu Tiezhu brilharam. Alguém da família Zheng; se conseguisse contato, as coisas ficariam mais fáceis. Enquanto falavam, Xiaoyu de repente gritou e sentou-se assustada: — Tio Liu, alguém está vindo. Quase ao mesmo tempo, ouviram-se latidos furiosos de cães e passos confusos do lado de fora. — Impossível! — O Doutor Hu ficou pálido. — Eu claramente... Antes que terminasse, as vinhas na entrada foram arrancadas de repente! Várias figuras escuras entraram com armas apontadas, e a luz de lanternas ofuscava os olhos. — Não se mexam! — Finalmente os pegamos! Liu Tiezhu instintivamente se jogou em direção a Xiaoyu, mas a perna ferida atrasou seu movimento. Um cano de arma frio encostou em sua nuca. — Liu Tiezhu — uma voz fria soou. — Estamos procurando você há muito tempo.