Capítulo 565: Capítulo 565: A Mudança Repentina dos Cinco Permanentes

O caminhão chegou a Wuchang ao entardecer. Era uma cidade muito maior que Erdaohezi, com casas de tijolos cinzas e telhas escuras alinhadas ao longo da rua principal. Os transeuntes apressavam-se, dando um ar de grande movimento. O motorista, velho Zhang, estacionou o caminhão nos fundos da Mercearia Liu, olhou em volta para confirmar que ninguém estava prestando atenção e bateu na lateral do veículo: "Chegamos." Liu Tiezhu ergueu a lona, segurou Xiao Yu e saltou. No canto do pátio, montes altos de grãos estavam empilhados, e o ar estava impregnado com o cheiro característico dos cereais. Um homem alto e magro, vestindo uma túnica comprida, saiu de casa. Ao ver o velho Zhang, acenou com a cabeça. "Irmão Zhang, tão tarde?" "O gerente Li mandou entregar." O velho Zhang piscou o olho. "E trouxe dois convidados." O homem alto examinou Liu Tiezhu e Xiao Yu, seus olhos parando por um instante no coldre da pistola na cintura dele. "Sigam-me." O cômodo nos fundos da mercearia era um quarto de hóspedes simples, mas tinha uma cama limpa e um kang aquecido. O homem alto trouxe duas tigelas de macarrão fumegante e uma chaleira de água fervente. "Comam e descansem. De manhã cedo, tem carro para Jilin." Ele disse de forma breve e saiu. Xiao Yu, faminta, devorou o macarrão e logo se enrolou no kang, adormecendo. Liu Tiezhu verificou portas e janelas, confirmou que podia trancá-las por dentro, e só então sentou-se para comer sua porção. O caldo do macarrão tinha torresmos e cebolinha, um aroma irresistível. Mal tinha dado duas garfadas, quando ouviu uma batida leve na porta. "Quem é?" "Sou eu, o irmão do gerente Li." Era a voz do homem alto. "Preciso tratar de um assunto." Liu Tiezhu colocou a pistola ao alcance da mão antes de abrir a porta. O homem alto entrou rapidamente, segurando um telegrama. "Mensagem de Harbin." Ele baixou a voz. "A cidade inteira está em toque de recolher. Procuram um homem, uma mulher e uma criança. Recompensa de dez mil dólares de prata." O coração de Liu Tiezhu apertou-se. "Quando foi isso?" "Duas horas atrás." O homem alto franziu a testa. "Com quem vocês se meteram?" "Uma figura importante de Fengtian." Liu Tiezhu respondeu de forma vaga. "O carro de amanhã cedo ainda é seguro?" "Difícil dizer." O homem alto balançou a cabeça. "A guarda já montou barreiras. Pela estrada principal é perigoso demais." Ele desenrolou um mapa rudimentar, apontando para a região montanhosa ao norte de Wuchang. "Esta trilha leva a Shulan, em Jilin, mas é preciso ir a cavalo. Posso arranjar." Liu Tiezhu fitou o mapa por um momento. "Qual é o mais cedo que podemos partir?" "Meia-noite." O homem alto guardou o mapa. "Na hora da troca de turno da guarda." Nesse instante, um alvoroço repentino veio do pátio da frente. Relinchos de cavalos e gritos se misturavam. O homem alto empalideceu e, num movimento rápido, apagou o lampião a óleo. "Revistem! Revistem cada cômodo!" "Os foragidos estão aqui!" Liu Tiezhu pegou Xiao Yu, que dormia profundamente, e, tateando no escuro, foi até a janela. O pátio dos fundos já estava iluminado por archotes. Uma dúzia de guardas uniformizados de preto revistava os armazéns um por um. "Porta dos fundos!" O homem alto apontou para uma portinhola no canto, que dava para a tinturaria vizinha. Liu Tiezhu ia se mover, mas os guardas do pátio da frente já haviam invadido os fundos. A luz dos archotes, através do papel de janela, iluminou ele e Xiao Yu. "Estão ali!" "Não deixem eles escaparem!" Balas assobiaram, estilhaçando a janela. Liu Tiezhu protegeu Xiao Yu e caiu no chão, rolando para o canto. O homem alto já tinha aberto a porta dos fundos, mas foi atingido nas costas por um tiro e caiu de bruços. "Vão!" Ele gritou com o último suspiro. Liu Tiezhu pegou Xiao Yu e correu para a porta dos fundos. As balas perseguiram seus calcanhares, acertando o batente e fazendo lascas de madeira voarem. Ele arrombou a porta e entrou num beco estreito. O pátio da tinturaria estava cheio de grandes tonéis, e um cheiro acre de anil tomava conta do ar. Liu Tiezhu, sob a luz do luar, corria aos tropeções em direção ao muro dos fundos. Atrás, os gritos dos guardas se aproximavam. "Pule o muro!" Ele ergueu Xiao Yu. "Rápido!" Xiao Yu escalou o muro com agilidade e estendeu a mão para puxá-lo. Liu Tiezhu ia começar a escalar quando sentiu um formigamento na panturrilha: fora atingido. Rangeu os dentes, fez força e conseguiu passar por cima do muro, caindo com Xiao Yu do outro lado. Do lado de fora do muro, havia uma horta. Ao longe, via-se a massa escura da floresta montanhosa. Liu Tiezhu, arrastando a perna ferida, mancou em direção ao bosque. Atrás, os guardas já haviam pulado o muro, e a luz dos archotes balançava na horta. "Persigam em grupos separados!" "Vivo ou morto, tragam-nos!" A floresta estava escura como breu. Liu Tiezhu só podia avançar pelo tato. Xiao Yu segurava firme sua mão, a respiração ofegante, mas sem chorar. Aquela criança era mais forte do que a idade sugeria. "Tio Liu... você está sangrando..." Xiao Yu sussurrou. Liu Tiezhu olhou para baixo. A perna da calça estava encharcada de sangue. A bala provavelmente ainda estava alojada na perna. Cada passo era como uma facada. "Não é nada." Ele se forçou a continuar. "Só mais um pouco..." A floresta ficava mais densa, a luz da lua bloqueada pela copa das árvores, quase não se via a mão diante dos olhos. Os perseguidores também estavam dispersos pela escuridão. Os pontos de luz dos archotes, em grupos de dois ou três, foram se distanciando. Liu Tiezhu encostou-se num grande pinheiro para recuperar o fôlego, rasgou a barra da camisa e apertou o ferimento. Xiao Yu, compreensiva, ajudou a segurar o pano. Suas mãos estavam geladas. "Para onde... vamos?" Ela perguntou, tremendo. Liu Tiezhu olhou para o norte. Pelo mapa, atravessando aquela floresta, chegava-se a Shulan. Mas, no estado em que estava, duvidava que conseguiria. "Vamos achar um lugar para passar a noite." Ele disse baixinho. "Amanhã a gente dá um jeito." Nesse momento, ao longe, ouviu-se um canto de pássaro estranho, como uma coruja, mas o ritmo era errado: três longos, dois curtos, uma pausa, e mais três longos. Liu Tiezhu ergueu a cabeça, alerta. Parecia algum tipo de sinal. O canto soou novamente, agora mais perto. Xiao Yu apertou a mão dele de repente: "Tio Liu... é o sinal que meu pai me ensinou." "O quê?" "Três longos e dois curtos significa que está seguro." Os olhos de Xiao Yu brilhavam na escuridão. "Alguém está nos procurando." Liu Tiezhu ficou na dúvida. O Rouxinol já estava morto. Quem mais conhecia aquele sinal? Seria uma armadilha? Antes que pudesse decidir, os arbustos à sua frente se abriram de repente, e uma silhueta escura se aproximou silenciosamente. Liu Tiezhu sacou a pistola imediatamente. "Não atire!" A pessoa que chegava baixou a voz. "Foi o gerente Li quem me mandou!" Com a fraca luz do luar, Liu Tiezhu reconheceu um dos empregados da mercearia, que tinha ajudado a descarregar o caminhão durante o dia. "Como nos encontrou?" "Seguindo o rastro de sangue." O empregado respondeu de forma sucinta. "O gerente Li está bem. Fingiu de morto e enganou a guarda. Ele me mandou levá-los a um lugar seguro." Liu Tiezhu hesitou. Podia ser verdade, podia ser uma cilada. Xiao Yu falou de repente: "Depois de três longos e dois curtos, o que vem?" O empregado hesitou por um instante, depois respondeu: "Dois longos e três curtos. Significa 'sigam-me'." Xiao Yu assentiu: "Ele acertou. Meu pai me ensinou." Liu Tiezhu acreditou relutantemente, mas manteve a vigilância. "Guie o caminho. Sem truques." O empregado os conduziu por entre a mata fechada até uma caverna escondida. A entrada estava coberta de vinhas, mas por dentro era surpreendentemente seca e espaçosa, com palha seca e peles de animais no chão. "Lugar onde os caçadores descansam." O empregado explicou. "A guarda não conhece. O gerente Li trará remédios e comida amanhã." Ele deixou uma pedra de isqueiro, um cantil e um pequeno pacote de provisões, e partiu às pressas. Liu Tiezhu, depois de confirmar que ele tinha ido embora, acendeu uma pequena fogueira e examinou o ferimento na perna. A bala tinha passado de raspão pela parte externa da panturrilha, abrindo um corte profundo, mas sem atingir o osso. Liu Tiezhu lavou o ferimento com água limpa e rasgou um pedaço limpo da roupa para fazer um curativo. A dor fazia o suor brotar em sua testa, mas ele não soltou um gemido. "Dói?" Xiao Yu perguntou timidamente. "Já me acostumei." Liu Tiezhu esboçou um sorriso fraco. "Durma um pouco. Amanhã ainda temos que viajar." Xiao Yu se enrolou na palha e logo adormeceu. Liu Tiezhu sentou-se na entrada da caverna, de vigia, com a pistola ao alcance da mão. O vento noturno atravessava a floresta, emitindo um som como um lamento. Ele tirou a metade do pingente de jade e a examinou à luz do fogo. O jade era macio e úmido, as bordas irregulares, claramente partido de uma peça inteira à força. Na fratura, havia um símbolo estranho, como metade de um selo. O que seria aquilo? Por que o Rouxinol nunca tinha mencionado? Que sangue corria nas veias de Xiao Yu? Enquanto pensava, ao longe, ouviu-se um apito repentino e urgente. Não era canto de pássaro, mas um apito de metal, que ecoava de forma estridente na noite silenciosa. Liu Tiezhu apagou a fogueira imediatamente e sacudiu Xiao Yu: "Alguém está vindo." O apito se aproximava, acompanhado de passos confusos e latidos de cães. A guarda tinha conseguido segui-los até ali. "Para o fundo da caverna!" Ele pegou Xiao Yu no colo e recuou para o interior. A caverna era muito mais profunda do que imaginava, serpenteando para baixo, como se levasse ao centro da terra. Liu Tiezhu avançava no escuro, com a mão apoiada nas paredes úmidas de rocha. Atrás, os gritos dos guardas e a luz de lanternas se aproximavam. "O rastro de sangue vai até aqui!" "Com certeza estão na caverna!" "Soltem os cães!" Xiao Yu apertava o pescoço dele, o rostinho enterrado em seu ombro. A perna ferida de Liu Tiezhu doía muito, mas ele não ousava parar. O túnel da caverna ficava cada vez mais estreito, até que só dava para passar de lado. Quando os perseguidores estavam quase alcançando-os, o túnel fazia uma curva abrupta para baixo, formando uma ladeira íngreme. Liu Tiezhu escorregou e caiu, rolando ladeira abaixo com Xiao Yu nos braços. Num turbilhão, ele protegeu a cabeça de Xiao Yu com todas as forças. Não sabia quanto tempo rolou, até que bateu com força numa plataforma. Sentia como se todos os ossos do corpo tivessem se despedaçado, mas, milagrosamente, Xiao Yu parecia ilesa. "Tio Liu, olhe." A voz de Xiao Yu estava cheia de admiração. Liu Tiezhu ergueu a cabeça. A visão diante dele o fez prender a respiração. Abaixo da plataforma, havia uma enorme caverna subterrânea. As paredes rochosas estavam incrustadas de musgo brilhante, que iluminava todo o espaço com uma estranha luz azul-esverdeada. No centro da caverna, erguiam-se alguns pilares de pedra, cobertos de símbolos semelhantes aos do pingente de jade. O mais arrepiante era que, no espaço cercado pelos pilares, havia uma dúzia de sarcófagos de pedra alinhados ordenadamente. Todas as tampas estavam abertas, e os sarcófagos, vazios. "Que lugar é este?" Liu Tiezhu murmurou para si mesmo. Xiao Yu, porém, como se estivesse enfeitiçada, soltou-se de seus braços e correu em direção aos sarcófagos. "Xiao Yu! Volte!" A menina não deu ouvidos. Foi direto ao sarcófago central e estendeu a mão para tocar as inscrições na parede de pedra. A ponta de seu dedo foi cortada de repente, e uma gota de sangue caiu sobre o sarcófago. Num instante, o musgo brilhante em toda a caverna se intensificou. Os símbolos no sarcófago acenderam um após o outro, como se fossem circuitos sendo ativados. Mais terrível ainda, a metade do pingente de jade no bolso de Liu Tiezhu começou a esquentar, quase queimando sua pele. "Tio Liu." Xiao Yu virou a cabeça. Seus olhos, na luz azul, brilhavam com um fulgor estranho. "Estou ouvindo meu pai me chamar."