Capítulo 564: Capítulo 564: Navegação Noturna no Rio Songhua

O vento noturno do Rio Songhua carregava fragmentos finos de gelo, cortando o rosto como navalhas. O barco de pesca avançava lentamente nas águas escuras do rio, o ronco do motor abafado pelo som das ondas. Xiao Yu estava encolhida num canto do porão, enrolada no velho casaco de algodão do pescador, já adormecida. Liu Tiezhu agachava-se na popa, varrendo a superfície do rio com olhar vigilante. Ao longe, as luzes de Harbin pareciam um colar de pérolas borradas, desaparecendo gradualmente na escuridão. Seus dedos acariciavam inconscientemente a metade do pingente de jade, as ranhuras ásperas arranhando a ponta dos dedos. "Um trago?" O velho pescador ofereceu um cachimbo de cobre. Liu Tiezhu balançou a cabeça: "Parei." O velho pescador acendeu-o para si mesmo, deu uma longa tragada: "E aquele rapaz, o Rouxinol... como é que se foi?" "Salvando pessoas." Liu Tiezhu respondeu de forma breve. "Salvou muita gente." O velho pescador ficou em silêncio por um momento, soltou uma baforada grossa de fumaça: "O pai dele também se foi assim." Liu Tiezhu virou-se para olhá-lo: "O pai do Rouxinol?" "Chen Dayong, o velho comandante do Batalhão de Segurança." O velho pescador apertou os olhos. "Em 37, quando os japoneses acabavam de tomar Harbin, ele liderou um grupo para explodir o arsenal do Exército de Kwantung... para ganhar tempo para o povo recuar." O coração de Liu Tiezhu tremeu. O Rouxinol nunca tinha falado da sua origem; afinal, era filho de um comandante. "Esta miúda..." O velho pescador apontou para Xiao Yu, que dormia. "A mãe dela morreu no parto. O Rouxinol andou com ela de um lado para o outro, escondendo-se, até há dois anos, quando a confiou a mim." Ele riu amargamente. "Mas aqueles animais acabaram por encontrar o orfanato..." Liu Tiezhu apertou o pingente: "Porque é que o Bando do Tigre Negro não larga a Xiao Yu?" "Não é só o Bando do Tigre Negro." O velho pescador baixou a voz. "Chegou gente importante de Fengtian... ofereceram cinco mil dólares de prata pela cabeça da miúda." Cinco mil dólares! Liu Tiezhu engoliu em seco. Essa quantia dava para comprar metade do bairro de Daowai. "Porquê?" O velho pescador abanou a cabeça: "O Rouxinol só disse que tinha a ver com medula sanguínea, que a miúda tem sangue especial." Liu Tiezhu lembrou-se da mutação do Rouxinol depois de injetar o protótipo. Será que Xiao Yu também herdara essa característica? Era por isso que os capangas de Yamamoto não desistiam? Enquanto pensava, o rugido de motores ecoou de repente no rio. O velho pescador empalideceu e pisou o cachimbo: "Lancha de patrulha!" Ao longe, dois feixes ofuscantes de holofotes cortaram a escuridão, varrendo rapidamente o barco de pesca! "Entra no porão!" O velho pescador pegou Xiao Yu, que dormia, e enfiou-a no apertado compartimento de peixe. "A tampa tem buracos para respirar, não faças barulho!" Liu Tiezhu escondeu rapidamente os seus pertences e seguiu-o para dentro do porão. O cheiro húmido e fétido de peixe invadiu-lhes as narinas, fazendo arder os olhos. Xiao Yu acordou assustada, mas Liu Tiezhu tapou-lhe a boca antes que ela pudesse falar. "Shh... vieram os maus." No convés acima, o velho pescador praguejava alto, fazendo barulho com as redes. O feixe do holofote varreu o casco, uma luz branca e cegante filtrando-se pelas frestas da tampa. "Parem para inspeção!" A voz do megafone vinha com ruído elétrico. O barco de pesca balançou bruscamente; a lancha de patrulha devia ter atracado ao lado. O som surdo de botas no convés fez cair pó da tampa do porão. A mão de Liu Tiezhu pousou no cabo da pistola, pronto para lutar até à morte. "Velho, a pescar a estas horas?" Uma voz rude interrogou. "Com todo o respeito, senhor oficial," o velho pescador riu-se, bajulando, "a minha rede rompeu-se de dia, vim remendá-la de noite..." "Chega de conversa, já viste este homem?" O som de papel a ser agitado, provavelmente mostrando um cartaz de procurado. "Nunca vi... vivo no rio o dia todo, como é que conhecia alguém da cidade..." "Revistem!" Ao comando, passos espalharam-se. A tampa do porão foi subitamente levantada uma fresta! Liu Tiezhu prendeu a respiração e colocou Xiao Yu atrás de si. Uma mão grossa entrou, tateando às cegas... "Senhor oficial, este porão cheira muito mal." O velho pescador gritou de repente. "Acabei de meter peixe podre, não sujem a vossa roupa." A mão hesitou um momento, retirou-se, e a tampa fechou-se novamente. "Relatório! Nada encontrado!" "Continuem a revistar rio abaixo!" O motor da lancha de patrulha rugiu novamente, afastando-se gradualmente. Só quando o som desapareceu completamente é que o velho pescador levantou a tampa: "Saiam, por enquanto estão seguros." Liu Tiezhu saiu do porão e viu que as costas do velho pescador estavam completamente molhadas, encharcadas de suor frio. "Não podemos ir para a outra margem como planeado." O velho pescador disse em voz baixa. "Eles montaram um posto de controlo rio abaixo." "Então o que fazemos?" O velho pescador apontou para um contorno escuro a norte do rio: "Majiawan, tenho um parente lá, que pode arranjar uma carroça." O barco de pesca mudou de direção, rumando para norte. Xiao Yu, assustada e cansada, adormeceu novamente em breve. Liu Tiezhu sentou-se na proa, olhando para a margem norte que se aproximava, mas a inquietação no seu coração só aumentava. Majiawan era uma pequena aldeia piscatória, com apenas uma dúzia de famílias. Quando o barco atracou, o céu já começava a clarear. O velho pescador, conhecendo bem o caminho, amarrou as cordas e levou-os através de um canavial. Debaixo da velha árvore de sophora à entrada da aldeia, estava mesmo uma carroça coberta. Um homem magro de meia-idade fumava cachimbo; ao ver o velho pescador, aproximou-se imediatamente. "Tio Zhao! Com tanta pressa?" "Sobrinho, faz um favor." O velho pescador enfiou-lhe algumas moedas de prata na mão. "Leva-os a Wuchang." O homem pesou as moedas na mão, depois examinou Liu Tiezhu e Xiao Yu: "Este irmão está ferido." "Queda." Liu Tiezhu respondeu de forma breve. O homem não fez mais perguntas, abriu a cortina da carroça: "Sobe, antes do amanhecer chegamos a Erdaohezi." A carroça era mais confortável que o barco, pelo menos dava para esticar as pernas. Xiao Yu encostou-se a Liu Tiezhu, perguntando sonolenta: "Tio Liu, para onde vamos?" "Primeiro sair daqui." Liu Tiezhu disse baixinho. "Depois vamos ver o mar." Os olhos de Xiao Yu brilharam um instante, depois escureceram: "O papá disse que o mar é azul." "Sim, muito azul." Liu Tiezhu acariciou-lhe a cabeça. "E tem praia, conchas, gaivotas..." A carroça chacoalhou pela estrada de terra, a figura do velho pescador na entrada da aldeia cada vez mais pequena, até desaparecer no nevoeiro matinal. Erdaohezi era uma vila maior que Majiawan, com uma rua decente. A carroça parou no quintal de uma mercearia de cereais. O homem magro saltou: "O dono é meu cunhado, consegue arranjar um carro para Wuchang." Liu Tiezhu agradeceu e, de mão dada com Xiao Yu, entrou no quintal. O dono da mercearia era um gordo de cara redonda; ao vê-los, primeiro estranhou, depois recebeu-os calorosamente. "Viajantes de longe, entrem e descansem!" Dentro de casa, o kang estava aceso, um calor aconchegante. O dono trouxe papa quente e picles; Xiao Yu comeu com avidez. Liu Tiezhu, porém, observava o ambiente com vigilância; aquela hospitalidade era demasiado repentina. "Irmão, não fiques nervoso." O dono pareceu perceber a sua desconfiança. "Quando era novo, também estive no Batalhão de Segurança, conhecia o Rouxinol." Liu Tiezhu relaxou um pouco, mas a mão ainda não se afastou do cabo da pistola: "Ainda há carro para Wuchang?" "Há, mas só à tarde." O dono baixou a voz. "De manhã há feira na vila, a guarda montou postos de controlo." Nesse momento, ouviram-se batidas urgentes na porta da loja. O dono empalideceu e fez-lhes sinal para se esconderem no quarto interior. "Quem é? Tão cedo!" "Abram! Inspeção de registo!" Liu Tiezhu pegou em Xiao Yu e examinou rapidamente o quarto; não havia porta dos fundos, a janela dava para abrir, mas dava para a rua. "Escondam-se no armário!" O dono teve uma ideia de última hora, abrindo um grande armário de arroz. Mal se esconderam, a porta da frente foi arrombada. Passos confusos acompanhados de gritos: "Todos para fora, inspeção de procurados." "Senhor oficial, na minha loja só estou eu..." "Mentira! Alguém viu um homem, uma mulher e uma criança entrarem na tua loja." O espaço dentro do armário era apertado; Liu Tiezhu sentia Xiao Yu a tremer. Tapou-lhe suavemente a boca, fazendo-lhe sinal para não fazer barulho. Os passos aproximavam-se... "O que é este armário? Abram!" "Senhor oficial, é arroz velho, já cheio de bichos." "Chega de conversa!" A porta do armário foi aberta de repente; a luz do sol entrava, cegante. A pistola de Liu Tiezhu já estava apontada à barriga do guarda da frente. "Não te mexas!" Ele gritou. A cena congelou instantaneamente. À porta estavam três guardas; o líder, com a arma apontada, estava pálido. O dono, ao lado, tinha um cutelo na mão, sem se saber quando o tinha pegado. "Larguem as armas." Liu Tiezhu ordenou. "Devagar." Os três guardas obedeceram sem hesitar. Liu Tiezhu fez sinal ao dono para apanhar as armas, depois empurrou os três para um canto. "Amarra-os." Disse ao dono. "Tapa-lhes a boca." O dono agiu com rapidez, e em pouco tempo os três estavam amarrados como trouxas. Liu Tiezhu revistou-os e encontrou alguns cartazes de procurado; nele estavam a sua imagem e a de Xiao Yu, com a recompensa já elevada a dez mil dólares de prata. "Vamos!" Pegou em Xiao Yu. "Não podemos comprometer o dono." Mas o dono deteve-os: "No quintal há um camião de entrega de cereais, vai partir agora; eu levo-vos!" O camião estava carregado de sacos, exalando aroma de grãos. Liu Tiezhu e Xiao Yu esconderam-se no fundo, cobertos por sacos. O motor rugiu, e o camião saiu lentamente do quintal. "A Mercearia Liu em Wuchang é meu irmão." A última frase do dono veio de fora da lona. "Diz o meu nome que funciona." O camião chacoalhou pela estrada. Liu Tiezhu abriu cuidadosamente uma fresta e viu o arco de Erdaohezi a afastar-se. Na entrada da vila, havia mesmo um posto de controlo; alguns guardas revistavam os veículos um a um. "Baixa a cabeça." Disse baixinho a Xiao Yu. O camião abrandou e parou; passos aproximaram-se, e a lona foi levantada. "Lao Zhang, a entregar cereais outra vez?" "Pois é, Comandante Li, com licença!" "Inspeção de rotina... Eh, porque é que este saco está a mexer-se?" O coração de Liu Tiezhu subiu-lhe à garganta; Xiao Yu apertava-lhe o braço com força, as unhas quase a cravar-lhe na carne. "Ora, ratos!" A voz do motorista Lao Zhang veio com um riso. "Num armazém de cereais, como não haveria ratos? Quer subir e revistar?" "Deixa, deixa." O comandante disse com desdém. "Vai-te embora!" A lona fechou-se novamente, e o camião arrancou. Liu Tiezhu suspirou de alívio, só então percebendo que as costas estavam encharcadas. "Tio Liu." Xiao Yu perguntou baixinho. "Porque é que aqueles maus nos querem prender?" Liu Tiezhu não soube o que responder. Lembrou-se da mutação do Rouxinol, das experiências horríveis no laboratório de Yamamoto, do "sangue especial" que podia correr nas veias de Xiao Yu. "Porque o teu pai é um herói." Disse por fim. "Os maus têm medo dos filhos dos heróis." O camião corria pela estrada; a paisagem lá fora mudava de campos para colinas. Liu Tiezhu abraçou Xiao Yu, mas os seus pensamentos voavam para longe. Wuchang era apenas uma paragem; para onde iriam no final? Como se livrariam completamente da perseguição? Mais importante ainda, qual era o segredo de Xiao Yu? Porque valia ela dez mil dólares de prata? O pingente no bolso pesava, como um enigma por resolver.