Capítulo 517: Capítulo 517: O Cristal Fragmentado e o Coração Maligno

A névoa de incenso envolvia o salão ancestral da família Zheng. O Comandante Ma fixava o olhar nas folhas de chá que rodopiavam dentro da xícara, absorto em pensamentos.

Três dias se passaram desde que o fogo verde de Liaoyang finalmente se apagou, mas os corpos cristalizados nas ruas ainda não haviam sido totalmente removidos.

— Relatório! — Um soldado de comunicações entrou correndo. — Sete infectados foram encontrados no norte da cidade, com sintomas diferentes dos anteriores.

Liu Tiezhu esmagou a tigela de chá com as mãos.

Desde que voltou da Montanha do Dragão Negro, a tatuagem de cabeça de dragão em seu ombro esquerdo ardia intermitentemente, como se uma agulha em brasa estivesse perfurando sua carne.

Rouxinol percebeu o sangue escorrendo entre seus dedos e franziu a testa ao lhe oferecer um lenço.

— Sintomas diferentes, o que significa? — O Comandante Ma largou a xícara.

— Desta vez, as pessoas estão com manchas pretas, não verdes. — O soldado entregou uma foto. — E têm pavor de água; enlouquecem ao ver um poço.

Dmitri arrancou a foto para examiná-la e soltou um palavrão em russo: — Não é infecção por medula terrestre, é uma maldição do xamã negro.

A Srta. Zheng, que estava trocando o curativo do Velho Zhou, tremeu ao ouvir: — Você está falando da Maldição da Água Negra?

A porta do salão foi arrombada de repente.

Zhang Dashan arrastou um homem amarrado como um rolo e o jogou no chão: — Peguei um espião remexendo nos fragmentos de cristal no Templo do Deus da Cidade.

O homem ergueu a cabeça, o lado direito do rosto coberto por manchas negras em forma de teia de aranha, e os cantos da boca sujos de fragmentos verdes de cristal.

O peito de Liu Tiezhu apertou. Era exatamente o mesmo tipo que ele chutara do Penhasco da Águia.

— Restos do Pangolim. — Zhang Dashan deu um chute no prisioneiro. — Teimoso, esse.

O prisioneiro de repente abriu um sorriso, revelando dentes tingidos de preto: — O chefe disse... depois de comer setecentos gramas de areia de cristal... vocês verão o verdadeiro dragão...

Antes que terminasse, as manchas negras em seu rosto começaram a se contorcer, como se inúmeros vermes rastejassem para dentro de seus orifícios.

Dmitri deu um passo à frente e pressionou sua cruz de cobre contra a testa do homem.

As manchas pararam por um instante, depois avançaram ainda mais furiosamente em direção à cruz.

Em menos de três segundos, toda a cruz ficou negra como tinta.

— Não há mais salvação. — Dmitri recuou dois passos. — Ele está se auto-sacrificando.

O grito do prisioneiro cessou abruptamente, e seu corpo murchou rapidamente como casca de árvore desidratada.

Mais assustador ainda, as manchas negras, ao se desprenderem da pele, formaram uma silhueta difusa de dragão no ar e avançaram em direção a Liu Tiezhu.

A adaga de Rouxinol atravessou a névoa negra, e a lâmina enferrujou instantaneamente até virar pó.

Liu Tiezhu ergueu o braço instintivamente para se proteger. A tatuagem de cabeça de dragão em seu ombro esquerdo esquentou de repente, e a névoa negra explodiu a meio metro dele, transformando-se em água preta no chão.

Um silêncio mortal tomou conta do salão.

Após um longo momento, a Srta. Zheng perguntou com a voz trêmula: — Você ainda está carregando medula terrestre?

— Não. — Liu Tiezhu puxou a gola da camisa para mostrar a tatuagem de dragão que já estava desaparecendo, mas propositalmente evitou o ombro esquerdo. — Deve ser um resquício da aura do Subjugador de Dragões.

O Comandante Ma fitou o buraco corroído no chão e de repente ordenou: — Revistem a cidade inteira atrás dos remanescentes do Pangolim. Foquem nas farmácias e casas de penhores. Esses canalhas devem estar coletando cristais.

Todos partiram para cumprir as ordens.

Rouxinol ficou deliberadamente para trás e, quando todos se foram, agarrou Liu Tiezhu: — Você pode enganar os outros, mas não a mim.

Ela puxou a roupa de seu ombro esquerdo: — O que é isso?

No centro da tatuagem de cabeça de dragão, incrustado como um grão de gergelim, havia um cristal verde que pulsava com a respiração.

Liu Tiezhu afastou a mão dela: — É uma garantia.

— Você enlouqueceu? — Rouxinol baixou a voz. — Essa coisa está sugando seu sangue.

Liu Tiezhu não respondeu.

Nos últimos dias, ele tinha o mesmo sonho repetidas vezes: estava à beira de um abismo infinito, e lá embaixo, um par de olhos verdes o chamava.

Cada vez que acordava, o cristal em seu ombro esquerdo estava um pouco maior.

— Vou ao porão. — Ele se virou para sair. — Dar uma olhada nos pertences do Tio San.

O porão da família Zheng era frio e úmido.

Assim que Liu Tiezhu abriu o baú velho do Tio San Zheng, ouviu um barulho atrás de si.

Rouxinol estava encostada na entrada da escada, de braços cruzados: — Procurando o quê?

— Os arquivos do Tio San sobre a eliminação do Pangolim. — Liu Tiezhu puxou um caderno amarelado. — Olhe esta parte.

O caderno registrava algo de vinte anos atrás: o Pangolim, cujo sobrenome verdadeiro era Chen, era descendente de um guardião de tumba da nobreza Khitan.

Quando o Tio San Zheng liderou as tropas para suprimir os bandidos, encontrou sete placas de bronze gravadas com dragões no covil do Pangolim.

— E as placas de bronze? — Rouxinol se aproximou para olhar.

— Desapareceram. — Liu Tiezhu virou as páginas. — Mas o Tio San mencionou que o Pangolim tinha uma irmã, que foi capturada e mantida em...

A escada rangeu de repente.

Os dois se viraram alertas, mas viram Xiao Yun descendo com uma lamparina a óleo: — Irmão Liu, o Comandante Ma está chamando você para...

Seu pé escorregou, e a lamparina voou de suas mãos.

Liu Tiezhu saltou para pegá-la, mas o óleo caiu sobre o caderno.

No instante em que as chamas subiram, ele vislumbrou na borda de uma página algumas marcas ocultas, manchadas de suor: "Oeste de Liaoning... Vale da Rocha Vermelha... Salão Ancestral da Família Chen..."

Rouxinol apagou as chamas, mas o caderno já estava quase todo queimado.

Xiao Yun se desculpou repetidamente, mas Liu Tiezhu fixou o olhar em seu pulso. Quando a manga escorregou, a pele exposta mostrava algumas manchas negras.

— Você tocou em cristais?

Xiao Yun puxou a manga às pressas: — Só... só peguei um pouco de pó enquanto preparava remédios.

Liu Tiezhu ia pressioná-la mais, quando o chão tremeu de repente.

Poeira caiu do teto do porão, e um rugido abafado como trovão ecoou ao longe.

Rouxinol subiu as escadas correndo e voltou momentos depois com o rosto pálido: — O norte da cidade explodiu. Foi o arsenal.

— Não. — Liu Tiezhu puxou o relógio de bolso; os ponteiros giravam descontroladamente. — É uma reação da medula terrestre.

Quando os três saíram pelo portão, uma nuvem negra em forma de cogumelo já se erguia no norte da cidade.

Mais estranho ainda, dentro da nuvem negra brilhavam luzes verdes, delineando vagamente a silhueta de um dragão.

As ruas estavam em caos; alguns gritavam que o verdadeiro dragão havia descido, enquanto a maioria corria como baratas tontas.

O jipe do Comandante Ma freou bruscamente na frente deles: — Entrem. Acabamos de receber uma mensagem: os homens do Pangolim explodiram o Vale da Rocha Vermelha.

— Vale da Rocha Vermelha? — O coração de Liu Tiezhu disparou. — O Salão Ancestral da Família Chen?

O jipe corria pela estrada montanhosa acidentada. Ao passar por Erdaohezi, Rouxinol apontou para a margem do rio: — Olhem.

Na margem, vinte e poucas pessoas vestidas de preto se ajoelhavam, fazendo reverências ao rio.

Diante delas, havia uma bacia de madeira cheia de cristais verdes.

O líder, um velho, ergueu uma faca de osso e, de repente, cortou a própria garganta. O sangue jorrou sobre os cristais, que imediatamente exalaram uma névoa verde brilhante.

— O sacrifício de sangue do xamã negro. — Dmitri, que aparecera não se sabe como, estava sentado no banco de trás do jipe, com o rosto pálido. — Eles estão alimentando o dragão terrestre.

O cristal no ombro esquerdo de Liu Tiezhu começou a arder.

Ele olhou em direção ao Vale da Rocha Vermelha e, em um devaneio, ouviu o rugido do dragão vindo do abismo.

O Vale da Rocha Vermelha recebeu esse nome por causa da coloração avermelhada das montanhas.

Quando o jipe entrou na entrada do vale, Liu Tiezhu percebeu que não era a cor natural da rocha. Toda a encosta estava encharcada de manchas de sangue oxidado, brilhando sob o sol poente como carne de animal recém-esfolada.

— No décimo segundo ano da República, o Tio San Zheng cercou o Pangolim aqui. — O Comandante Ma apontou para os buracos de bala no penhasco. — Mais de duzentos homens morreram.

No centro do vale, erguiam-se sete pilares de pedra tortos, envoltos em correntes enferrujadas.

O chão entre os pilares tinha uma depressão estranha, como se algo pesado tivesse sido pressionado ali por muito tempo.

O cristal no ombro esquerdo de Liu Tiezhu começou a vibrar em alta frequência, fazendo seus dentes rangerem.

— Onde fica o salão ancestral? — perguntou Rouxinol.

Dmitri girou uma bússola e parou diante do pilar mais grosso: — Embaixo.

Os outros removeram o mato na base do pilar, revelando uma laje de pedra azul coberta de runas.

No centro da laje, havia uma fechadura cujo formato coincidia perfeitamente com o Talismã de Dragão de Jade Negro.

— A chave está com a Srta. Zheng. — O Comandante Ma ia pegar o rádio, quando o som de motores ecoou na entrada do vale.

Três motocicletas com sidecar entraram no vale. Os pilotos estavam todos de preto, com o rosto coberto, e na testa, desenhos de dragão feitos com cinábrio.