Manhã cedo, An Ruo acordou naturalmente, bem descansada. Ela espreguiçou-se de olhos semicerrados e, ao tocar em algo quente e carnudo, assustou-se, abrindo os olhos num instante! O homem estava deitado de forma impecável. Vendo que ele ainda não tinha acordado, An Ruo cuidadosamente levantou o cobertor e saiu da cama. Ela lembrava-se de ter dormido na sala na noite anterior. Como é que, ao abrir os olhos, estava na cama? Será que ele tinha tido outro episódio de sonambulismo? Com o desaparecimento do calor ao lado, o homem abriu lentamente um olho e, ao ver a rapariga esgueirar-se para a casa de banho, deixou cair a máscara. Quando ele estava prestes a levantar-se, a porta foi subitamente batida pelo mordomo Xu. Hoje era sábado, An Ruo não precisava de ir à escola. Apressou-se a tomar o pequeno-almoço e foi para o hospital. Ela preparou um pouco de comida, mas, ao embalar, dividiu-a propositadamente em duas porções. He Su tinha-a ajudado várias vezes, não podia ser ingrata, mas não tinha mais nada para lhe oferecer, e a sua situação financeira não o permitia. De manhã, o hospital estava cheio. Com a vaga de frio intensa dos últimos dias, os pacientes com febre e constipação formavam longas filas. He Su recebeu o prontuário que a enfermeira lhe entregou, baixou a cabeça e disse-lhe algumas palavras. An Ruo esperou que ele terminasse o trabalho antes de se aproximar para cumprimentar. — Doutor He... He Su ergueu a cabeça e, ao ver o homem desleixado atrás dela, franziu ligeiramente as sobrancelhas, puxou-a rapidamente e encostou-a à parede. An Ruo olhou surpresa para ele, que se aproximava, e instintivamente tentou afastá-lo, mas ouviu o homem sussurrar: — Ajuda-me. He Su usou o prontuário para tapar os rostos dos dois, dando a impressão de que estavam a beijar-se. Os empurrões de An Ruo pareciam um "não, mas sim", e, à primeira vista, a atmosfera era claramente ambígua. Os enfermeiros e pacientes que passavam ficaram chocados. Sabiam que o Doutor He era desregrado, mas nunca imaginaram que fosse tão selvagem a este ponto, num hospital, em público... Que falta de decoro! Shen Tingfeng assobiava, com as mãos nos bolsos, observando os dois com interesse. — Patrão, isto... — O subordinado ao seu lado já não aguentava mais. — Intrometido. — Shen Tingfeng estava indiferente. Conhecia bem o carácter de He Su, e aquela ousadia impressionava-o. Ele chamou: — Doutor He, despache-se, ainda estou à espera para tratar do assunto sério. An Ruo estremeceu. Aquela voz... Shen Tingfeng? O que é que ele estava ali a fazer?! Se aquele tipo a visse ali, não se sabia que confusão iria armar. — Daqui a pouco, não fales. Anda sempre em frente, não olhes para trás. An Ruo acenou com a cabeça, atordoada. O homem soltou-a. Nesse instante, An Ruo virou-se rapidamente e foi na direção oposta, deixando Shen Tingfeng a olhar para as suas costas, a pensar. Ele fixou o olhar nas costas de An Ruo e, com um sorriso malicioso, comentou: — Esta miúda tem um bom corpo. — Achas que eu escolheria algo mau? — He Su sorriu com indiferença, enquanto ajustava a gravata: — O que é que tens para mim? Shen Tingfeng não lhe respondeu de imediato. Em vez disso, foi por si mesmo até à escadaria, e He Su, percebendo a deixa, seguiu-o. - Depois de correr para fora do átrio, An Ruo ofegava, apoiando-se na parede. Shen Tingfeng veio ao hospital para se tratar, ou para ver o cérebro? Pelo tom da conversa deles, pareciam conhecer-se bem. An Ruo abanou a cabeça e, ao baixar o olhar, reparou que ainda não tinha dado a comida a He Su. Esperou meia hora de propósito e deu a volta até ao consultório de He Su. Antes de entrar, bateu à porta algumas vezes. Dentro da sala, o homem junto à janela apagou o cigarro que tinha na mão e, alerta, escondeu-se atrás do biombo. — Doutor He, está aí? Aquela voz... Sem resposta, e com pressa, An Ruo pensou em deixar a comida no consultório dele. Empurrou a porta e sentiu um forte cheiro a nicotina. Parece que Shen Tingfeng tinha estado a conversar com He Su no consultório, senão de onde viria aquele cheiro intenso a tabaco? No cinzeiro da secretária, ainda havia um cigarro mal apagado. Eles tinham saído há pouco? An Ruo colocou uma caixa de bolos lindamente embrulhada na secretária. Com medo de que He Su, ao voltar, não soubesse quem a tinha deixado, pegou numa folha de papel e escreveu cuidadosamente uma mensagem curta e direta. Do outro lado do biombo, Shen Xiaoxing observava friamente An Ruo a fazer tudo aquilo. Satisfeito, acenou com a cabeça, saiu silenciosamente da sala e não se esqueceu de fechar a porta. Quando a sala ficou completamente em silêncio, ele saiu de trás do biombo, foi até à secretária e, com os olhos a arder de raiva, fixou-se na caixa de bolos. Então ela tinha passado a manhã inteira na cozinha a fazer bolos para oferecer a He Su?! E ainda por cima usou os ingredientes da villa, ou seja, gastou o dinheiro dele para oferecer a outro homem! Shen Xiaoxing não conseguia engolir aquilo. Rasgou a caixa bruscamente, pegou num bolo e meteu-o na boca, mastigando como se estivesse a desabafar. Não achou grande piada, mas não estava disposto a deixar He Su ficar com eles! Falando no diabo, He Su, depois de muito custo se ter livrado de Shen Tingfeng, ao abrir a porta, deparou-se com aquele senhor sentado à secretária, com um olhar frio e penetrante fixo nele. Aquele olhar, como se lhe devesse dinheiro. He Su ficou confuso: — O que se passa? Será que ele já sabia do assunto que Shen Tingfeng viera tratar com ele? Shen Xiaoxing não lhe respondeu. Deitou fora o meio bolo que tinha na mão e apontou para o papel na secretária. He Su pegou nele e leu: "Doutor He, obrigado pela sua ajuda repetida. É uma pequena lembrança, espero que aceite." No final, estava o nome da rapariga. He Su ergueu uma sobrancelha: — Então a pequena cunhada chama-se An Ruo. Que nome bonito. O homem lançou-lhe um olhar afiado: — O nome dela é para tu pronunciares? — Ela ofereceu-me isto, tu não só o abriste, como ainda me proíbes de lhe chamar o nome? — He Su estendeu a mão para pegar nos bolos, mas o homem deu-lhe uma palmada. Ele gemeu de dor: — Que mesquinho!