Capítulo 806 - A Última História
"No campus leste?" Zhou Tu hesitou visivelmente. Tanto veteranos quanto professores já haviam alertado os calouros para não se aproximarem do campus leste. Eles não explicaram o motivo específico, mas pelo tom de suas vozes dava para perceber que o campus leste era perigoso.
"Vocês têm um grande mal-entendido sobre o campus leste. Na verdade, ele é parecido com este daqui, só que os métodos de administração dos dois campi são completamente diferentes. Eles vivem em um terror real, enquanto vocês vivem em uma felicidade falsa." Chen Go olhou nos olhos de Zhou Tu: "Comparados a vocês, eles estão, na verdade, mais próximos da esperança, porque pelo menos sabem quem são e conhecem o caminho para a libertação."
Chen Go não estava enganando Zhou Tu. Tanto os alunos do campus leste quanto os do oeste estavam todos presos naquela escola. A memória dos alunos do campus oeste era modificada, repetindo a vida fabricada pelos manipuladores ocultos. Já os alunos do campus leste, ao menos, sabiam que precisavam encontrar bodes expiatórios e pensar em maneiras de sair.
"Os alunos do campus leste estão mais próximos da esperança? Mas ouvi dizer que só o lixo que o campus oeste não quer é mandado para lá." Zhou Tu já estava sendo convencido, mas ainda se sentia um pouco inseguro.
"Independentemente do critério de avaliação, qualquer escola que trata alunos como lixo é, com certeza, uma escola de lixo." Chen Go apontou para o muro alto que separava os dois campi: "Vocês sabem por que esse muro existe?"
"Por quê?"
"Porque a escola tem medo de perder o controle. Eles tentam remodelar a natureza humana de várias maneiras, mas esquecem que a natureza humana é a coisa mais complexa do mundo. As coisas já aconteceram. Não importa o quanto tentem esquecer, as feridas deixadas sempre ficam marcadas no coração. Não lembrar de nada não significa que elas não existam. Por isso, alguns planos desta escola estão fadados ao fracasso." Chen Go dizia coisas que os membros do clube não entendiam. Eles não sabiam por que ele falava aquilo, mas sentiam que havia alguma lógica no que ele dizia.
As crianças já são naturalmente curiosas, e Chen Go continuava revelando a verdade sobre a escola, conseguindo, por fim, despertar o interesse dos membros do clube.
"Então vamos agora? Para ser sincero, ainda não acredito que no campus leste exista o ateliê dos meus sonhos." Zhou Tu murmurou baixinho.
"Ainda não é hora." Chen Go olhou para trás, para sua sombra. A sombra do dormitório 413 ainda dormia, mas seu corpo já havia passado por grandes mudanças. Se olhassem com atenção, perceberiam que a sombra de Chen Go era diferente das outras: negra como tinta, como se toda a luz que a atingisse fosse engolida. Parecia que ela havia ficado muito mais forte.
O enorme potencial da sombra era uma boa notícia para Chen Go. Quando ela acordasse, ele lideraria os alunos de volta ao campus leste para caçar mais espectros solitários. Isso, por um lado, fortaleceria seu poder; por outro, agitaria as águas paradas da escola, servindo de disfarce para o "assassino" no colégio.
"Agora ainda é a fase de acumular forças. Antes que o dono da escola descubra este pequeno inseto que sou, preciso preparar o máximo de cartas na manga possível."
Chen Go virou-se para Wang Yicheng. Ele já conhecia as histórias dos outros três membros do clube, só faltava aquele garoto manco que havia entrado primeiro: "O próximo lugar que vamos visitar é o dormitório do Wang Yicheng."
"No meu dormitório?" A reação de Wang Yicheng foi estranha. Ele balançou as mãos repetidamente: "Melhor deixar pra lá. Não tem nada de interessante no meu dormitório."
"Ao dizer isso, sua voz ficou mais alta que o normal, o ritmo acelerou, seu olhar ficou instável... Você realmente não sabe mentir, hein, garoto." Chen Go colocou a mão no ombro de Wang Yicheng: "Por que não quer que a gente vá? Com medo de que vejamos algo?"
"Eu..." Wang Yicheng pensou muito, sem saber o que dizer, e acabou desviando o olhar: "Não é nada. Vamos logo."
"Está bem."
Wang Yicheng morava no dormitório 413 do campus oeste, e Lin Sisi, no 413 do campus leste. O número do dormitório era exatamente o mesmo, mas no 413 do campus oeste, todas as camas, exceto a cama 4, tinham alunos; já no campus leste era o contrário: só a cama 4 tinha alguém, as outras estavam vazias.
"Os segredos do nosso clube não devem ser contados a ninguém. Todos tentem ser discretos. Nesta escola, há professores como eu, e também há professores que não são tão fáceis de lidar." Chen Go mantinha-se sempre alerta. O barulho que fizeram no prédio de laboratórios foi grande demais; a escola provavelmente já havia começado a investigar.
"O tempo que me resta é curto. Depois de ver o dormitório 413, preciso me esconder um pouco."
No campus oeste, havia quatro prédios de dormitórios masculinos, com um número de alunos várias vezes maior que no campus leste. Ainda não era hora de apagar as luzes, e era o momento mais movimentado: barulho de gente se lavando, de bacias de plástico caindo, de conversas. Dava para ouvir tudo claramente lá de baixo.
"Este prédio é parecido com o do campus leste." Chen Go agiu com naturalidade, entrando no primeiro prédio atrás dos quatro alunos.
A portaria do zelador estava com a porta fechada, mas a janela de vidro estava aberta. Lá dentro, uma senhora de mais de cinquenta anos cantarolava, parecendo de bom humor. Ao lado da janelinha, havia um aviso proibindo o uso de aparelhos de alta potência e de cozinhar nos dormitórios.
"Lembro que no aviso do dormitório do campus leste estava escrito algo como: 'Recentemente ocorreram crimes violentos. Proibido sair após o apagar das luzes'."
Separados por um muro, eram quase dois mundos, como dentro e fora de uma "porta".
Atravessando o corredor, Chen Go e os membros do clube chegaram à porta do dormitório 413.
"Este dormitório não tem nada de diferente dos outros." Wang Yicheng abriu a porta. Quando entrou, os outros colegas de quarto agiam como se ele não existisse, cada um cuidando da sua vida, sem ninguém falar com ele.
Assim que Wang Yicheng deu alguns passos para dentro, o rapaz da cama perto da porta levantou o mosquiteiro e o encarou: "Quantas vezes já falei? Bate a porta quando entrar. Sua perna é manca, e seus ouvidos também são ruins?"
O rapaz falava de forma muito rude. Não se sabia por quê, mas parecia odiar Wang Yicheng.
"Ele não fechou a porta porque ainda tem gente para entrar. Se precisam de desculpas, nós podemos pedir desculpas por ele. Só preciso saber que tipo de desculpas vocês querem." Chen Go segurou a maçaneta e entrou no quarto, examinando os outros colegas.
O rapaz do mosquiteiro, ao ver Chen Go, logo se encolheu. Não disse nada, apenas fechou o mosquiteiro de cara feia.
"Professor Bai, esta é a cama 4. Como ninguém mora nela, a gente usa para guardar bagagem." Wang Yicheng apontou para a cama 4, onde estavam jogadas algumas malas. Naquele dormitório, só a bagagem dele ficava debaixo da própria cama; os outros jogavam toda a tralha na cama 4.
Chen Go conhecia bem a cama 4. Ele próprio já tinha deitado na cama 4 do campus leste. Chegando perto da cama 4, embora ninguém dormisse nela, havia colchão e lençóis, mas estavam sujos por causa da bagagem e da tralha.