Capítulo 732: Capítulo 732 Capítulo 717 Vamos brincar!

Capítulo 717: Vamos brincar!

A câmera se afastou de Qiu Mei e se voltou para o velho que carregava uma cesta de compras.

O sol poente iluminava a idosa, e conforme ela se afastava, a imagem finalmente se fixou em sua sombra parcial.

Vendo isso, Chen Ge ficou inquieto. Ele não sabia como o diretor havia filmado aquilo. "A Mesa" foi filmada muito cedo, quando a tecnologia de efeitos especiais ainda não era avançada, mas aquela cena no filme parecia incrivelmente real.

"Será que isso realmente não é um filme filmado?"

As sombras têm um significado incomum para a vida, pelo menos era o que Chen Ge achava.

"O olho esquerdo da protagonista consegue ver anormalidades nas sombras das pessoas vivas. Aliás, no começo do filme, os pais da protagonista tinham sombras?"

Lembranças de cenas anteriores do filme passaram por sua mente. Na tela, os pais da protagonista, incluindo o médico, não tinham sombras, mas isso também podia ser por causa do tempo nublado.

No início do filme, o céu estava sempre coberto de nuvens escuras, sem um raio de sol, então era normal não ver sombras.

Depois que Qiu Mei e a idosa foram embora, a protagonista voltou para casa. Ela pegou a chave e abriu a porta.

"Wen Yu? Por que voltou tão tarde hoje?" A mãe de Wen Yu saiu correndo da cozinha, olhando para a filha com uma expressão que misturava preocupação e uma emoção estranha e indescritível. Essa emoção era diferente da de pais normais, e Chen Ge só percebeu isso agora.

A protagonista não respondeu. Assim que entrou em casa, perdeu toda a vitalidade, como se até respirar fosse desconfortável.

Ela abriu a porta do quarto e correu para dentro.

"Essa criança..."

"Perguntei a outras pessoas, nossa filha pode estar doente." O pai da protagonista largou o jornal, apontou para a própria cabeça e baixou a voz: "Já entrei em contato com um médico, no fim de semana vamos trazê-lo para examinar nossa filha."

"Quanto vai custar?"

"O importante agora é tratar a doença. Você também não quer que nossa filha fique sempre triste, quer?"

A voz dos pais vinha de fora da porta, mas a protagonista não se importava com o que diziam.

A câmera, representando a visão da protagonista, moveu-se dos pais para o teto, e então a tela escureceu, enquanto a protagonista fechava os olhos novamente.

"Este filme parece estar registrando algo, mas se tudo é real, a linha do tempo parece não bater." Chen Ge cutucou o ombro do cego: "O que você acha?"

"Eu não vejo nada. Se você já terminou de ver, vamos embora logo. Não quero ficar aqui nem mais um minuto. Irmão, pelo que ouço você falar, não parece ser uma pessoa má. Me solta, não fica me atormentando mais."

O cego estava encharcado por trás. Ele mantinha os olhos fechados, mas só de ouvir os sons já estava apavorado.

"O filme já passou da metade, vai acabar logo. Aguenta mais um pouco." Chen Ge olhou para a tela. As cores da imagem ficaram mais vivas. Esta parte também era registrada pela perspectiva da protagonista, contando principalmente algumas pequenas coisas entre ela e Qiu Mei.

A protagonista era calada, quase nunca falava, evitando ao máximo abrir a boca.

A personalidade de Qiu Mei era exatamente o oposto: despreocupada, não levava nada a sério.

Ela agia por impulso, sem pensar nas consequências, mas talvez fosse justamente por essa energia que a relação entre ela e a protagonista se aproximava cada vez mais.

Duas pessoas com personalidades tão diferentes acabaram se tornando amigas.

O que mais surpreendeu os outros foi que as notas das duas estavam melhorando constantemente. Nem mesmo o professor Cao esperava por isso.

Ele só tinha aceitado o pedido por educação, para não parecer rude, mas nunca imaginou que as duas piores alunas da aula de reforço, ao se tornarem colegas de mesa, produziriam uma "reação" tão奇妙.

A imagem ficou cada vez mais clara, e o estilo de filmagem era completamente diferente do início. Apesar de ser um filme de terror, dava a Chen Ge a sensação de estar assistindo a um filme juvenil motivacional.

"Este diretor consegue lidar com tantos estilos diferentes, muito bom."

Chen Ge calculou o progresso do filme: já tinha passado quatro quintos. Além do começo, quando viu algo sobrenatural, no resto do tempo, nem sequer um ponto de susto um pouco mais assustador apareceu.

"Um filme de terror sem fantasmas?"

No mercado, filmes de terror sempre têm algo "desconhecido" presente, que traz suspense ao público e cria a sensação de medo.

Mas este filme parecia ser uma exceção. Todo ele era narrado pela perspectiva da protagonista, e ela não via nada realmente assustador.

Chen Ge sentia que o diretor estava guardando algo grande. Ele sabia que o filme não era tão simples. Conforme se aproximava do final, ele sentia que a coisa realmente aterrorizante estava prestes a aparecer.

O relacionamento entre Qiu Mei e a protagonista melhorava cada vez mais, mas havia um ponto estranho a ser notado: durante o tempo em que se tornaram amigas, a risada de Qiu Mei ecoou várias vezes na tela, mas a da protagonista nunca foi ouvida uma única vez.

Faltava um tempo para o exame de formatura. Com as notas atuais de Qiu Mei, se formar sem problemas era certeza.

Ela tinha feito a melhor amiga e estava prestes a cumprir a promessa com a avó. Este era o momento mais feliz de Qiu Mei.

Mas enquanto Qiu Mei estava feliz, o público, pela perspectiva da protagonista, podia ver a inquietação escondida por trás da alegria.

A sombra da avó de Qiu Mei estava cada vez mais curta, a preocupação dos pais da protagonista aumentava, e as mudanças de câmera se tornavam mais frequentes e rápidas, como se a protagonista estivesse piscando os olhos constantemente.

Sob a vida tranquila, escondia-se um enorme redemoinho, puxando todos que se aproximavam para as profundezas do mar.

Depois do exame de formatura, houve uma festa da turma. Qiu Mei e a protagonista voltaram para casa tarde.

A noite estava especialmente silenciosa. Qiu Mei cantarolava uma música pop. O maior desejo dos últimos meses tinha sido realizado, e ela estava de muito bom humor.

"Colega de mesa, por que você não fala nada? Finalmente podemos relaxar, não precisamos mais ver a cara do velho Cao todos os dias." Qiu Mei abraçou a protagonista pelo ombro, aproximando o corpo.

A câmera observava Qiu Mei de perto. A garota já tinha tingido o cabelo de preto novamente, e estava linda.

A protagonista olhou por um momento e desviou o olhar. Ela baixou a cabeça, e a câmera filmava a estrada escura, como se não tivesse fim.

"Você parece um pouco triste?" O rosto de Qiu Mei invadiu a tela novamente.

A protagonista fitou Qiu Mei em silêncio, sem dizer uma palavra, e seguiu sozinha em frente.

"É por causa da sua família? Parece que nunca ouvi você falar deles." Qiu Mei a alcançou. "Na verdade, minha família também me irrita. Quem me deu à luz foi preso, quem me criou foi minha avó, por isso tenho o sobrenome dela."

A protagonista não parou. Qiu Mei a seguiu até um cruzamento.

A casa de Qiu Mei ficava à esquerda, a da protagonista à direita. Elas sempre se separavam ali.

"Wen Yu? O que houve com você hoje?"

A protagonista não parou. Depois de atravessar a rua, ela disse baixinho para Qiu Mei: "Na verdade, esse não é meu nome."

"Não é seu nome?" Qiu Mei quis perguntar mais, mas a protagonista já estava andando para frente.

O ambiente peculiar de sua infância moldou em Qiu Mei uma personalidade diferente de outras da mesma idade. Ela não foi para casa, mas a seguiu.

Atrás da protagonista, chamando seu nome.

A luz dos dois lados diminuía cada vez mais, até que as duas garotas pararam em frente a um prédio velho e abandonado.

O prédio ficava num canto discreto da cidade, todo escuro, como se não houvesse moradores.

"Wen Yu? Sua casa... é aqui?"

Ainda sem resposta, a protagonista subiu correndo as escadas e tirou a chave. Qiu Mei a seguiu.

Não havia luz no corredor. Qiu Mei tropeçou várias vezes, caindo.

A porta se abriu, e a protagonista entrou.

A luz da sala não estava acesa, as cortinas estavam fechadas, tudo envolto em escuridão.

Mas, nessa situação, a câmera mostrou a porta da cozinha se abrindo, e a mãe da protagonista saindo.

"Wen Yu? Por que voltou tão tarde hoje?"

A voz familiar, a cena familiar. A figura familiar na escuridão era a mãe da protagonista.

Uma cena que parecia normal durante o dia, ao ser reproduzida na escuridão da noite, trazia um medo indescritível.

"Depois de hoje, não volto mais aqui." A voz da protagonista mudou. Desta vez, ela não se escondeu no quarto, mas parou na sala.

"Wen Yu! Com quem você está falando!" Qiu Mei estava na porta, olhando para a sala escura, o rosto pálido. A cena que ela via parecia completamente diferente da que a protagonista enxergava: "Este lugar é tão velho, os móveis estão quebrados, o chão todo rachado. Wen Yu, o que você está fazendo aqui? Vamos para casa logo!"

"Para casa?" A protagonista segurou suavemente a mão de Qiu Mei e a puxou bruscamente para dentro: "Mas... já estamos em casa!"

A luz na tela foi escurecendo, até ficar completamente preta. O diretor não mostrou o que aconteceu no quarto, talvez porque ele mesmo não soubesse.

Gritos ecoaram na escuridão. Os olhos se abriram de repente. A protagonista ainda estava deitada na cama do quarto.

A câmera se moveu para a janela. O céu estava nublado, dando uma sensação de opressão.

Esta cena se conectava novamente com o início do filme. O mesmo céu, como se tudo o que aconteceu fosse apenas um pesadelo.

A protagonista olhou para o relógio na mesa, pegou o celular e respondeu uma mensagem, depois arrastou o corpo cansado para o banheiro.

Ela mantinha a cabeça baixa, então a câmera só filmava o chão.

Escovou os dentes, lavou o rosto. Depois de tudo pronto, o celular vibrou de repente. A câmera se moveu, e a protagonista tirou o telefone do bolso da roupa e atendeu.

"Wen Yu, vamos ao cinema hoje à noite? Para comemorar que você finalmente se livrou daquela moleca."

"Qiu Mei não é uma moleca, e ela nunca me maltratou."

"Você é boa demais, por isso o velho Cao te colocou para sentar com ela. Sabia? Os pais dela cometeram crimes e foram presos. Agora que ela sumiu, quem sabe o que vai fazer? De qualquer forma, não se envolva mais com ela."

"Tá bom, entendi." A mão da protagonista apertava cada vez mais o celular. "Aliás, colega de mesa, depois do filme hoje à noite, você pode vir na minha casa? Quero te mostrar uma coisa legal."

"Claro, sem problema!"

"É, combinado então." Desligou o telefone, e a protagonista levantou a cabeça lentamente.

A câmera focou no espelho. Esta era a primeira vez no filme que o público via o rosto da protagonista.

Um corpo magro, roupas desleixadas, cabelo preto comprido, e um rosto formado por várias mulheres diferentes sobrepostas.

Essas mulheres tinham aparências distintas, mas o olho esquerdo de todas era exatamente igual.

Aquele globo ocular dava a sensação de ser um prego cravado em inúmeros rostos.