Capítulo 716: O Olho Esquerdo Pode Ver
Na tela, os pais da protagonista não estavam realmente prestando atenção às palavras do "médico"; seus olhos transbordavam uma decepção impossível de esconder.
"Acredite em mim, sua filha não está doente. O problema no olho dela foi apenas um acidente. Se possível, gostaria de levá-la para a cidade de Xinhai e fazer um exame mais completo." O homem não parecia um vigarista; sua atitude ao falar era sincera. Infelizmente, os pais da protagonista não concordavam com o que ele dizia.
"Se houver oportunidade, eu a levarei mais tarde. Agora, Wenyu ainda precisa ir à escola." A mãe da protagonista recusou educadamente.
O médico suspirou levemente, entregou um cartão de visita à mãe da protagonista e se levantou para sair.
Durante todo o processo, o médico ficou de costas para a protagonista, sem que seu rosto fosse visto.
Quando a porta se fechou e o médico foi embora, a mãe da protagonista murmurou em tom de reclamação: "Eu já estava achando estranho ele se oferecer para tratar a Wenyu de graça. No fim, é só um vigarista. Aposto que, quando chegasse em Xinhai, ele inventaria todo tipo de desculpa para cobrar."
"Também acho que esse médico não é confiável. Pode ser alguém se passando por outra coisa. Mas alguma causa para a doença tem que haver. A Wenyu nunca teve um problema assim antes. Como é que ficou doente do nada?"
"É verdade. Essa criança estava bem há alguns meses. Foi a partir daquela noite... não, daquela tarde depois da escola que ela começou a ficar estranha."
Os pais estavam com o rosto carregado de preocupação, e suas vozes carregavam um toque de dor.
A câmera registrou tudo de forma fria, dando a sensação de que a protagonista estava observando aquela cena com indiferença.
Os olhos abertos se fecharam lentamente, e a música sinistra soou novamente.
Diferente de assistir a um filme de terror em casa, no cinema a música de fundo vinha de todas as direções, criando até a sensação de passos se aproximando ou algo se movendo ao redor.
Esse curta-metragem de suspense e terror foi feito com muito cuidado, como se percebia pelos efeitos sonoros.
A música de fundo era misturada com batidas cardíacas e respirações ofegantes, como se alguém estivesse dormindo e tendo um pesadelo.
Imerso na escuridão, lutando desesperadamente, mas sem conseguir tocar em nada.
Quando o público, involuntariamente, se deixou levar e prendeu a respiração, a música de fundo trouxe um som nítido de campainha.
As pálpebras piscaram; a protagonista parecia ter sido despertada pelo som da campainha e abriu os olhos confusa.
A imagem reapareceu na tela, mas a câmera não mostrava mais o quarto, e sim uma sala de aula de um curso de reforço um tanto simples.
A luz do sol, ofuscante, entrava pela janela e incidia sobre a protagonista. A câmera capturou a sombra dela no chão.
Ela estava debruçada sobre a mesa na última fileira da sala de aula do curso, sonolenta.
"Já assisti a um terço do filme e só agora vejo a sombra da protagonista. Esse diretor é um gênio."
Chen Ge já tinha visto muitas sombras; do ponto de vista profissional dele, aquela sombra no filme era comum ao extremo.
O sol deixava a cabeça pesada e sonolenta. Nos ouvidos, chegavam o som do ventilador girando, o virar de páginas e a música saindo dos fones de ouvido de baixa qualidade de algum colega.
Um plano-sequência longo mostrou tudo na sala de aula. A direção, a fotografia e os atores trabalharam em perfeita sintonia.
"Puf!"
Quando o público estava imerso na atmosfera criada pelo diretor, a calma foi subitamente quebrada.
A porta foi empurrada com força, e uma garota com um penteado exagerado entrou.
"He Qiumei! Comporte-se direito! Não atrapalhe os outros alunos!" Um homem de cabelo curto e óculos a seguia de perto, com um celular em uma mão e um livro na outra.
Esse homem devia ser o professor do curso, e parecia já conhecer bem a nova aluna.
"Já entendi." A garota de cabelo ruivo ainda mascava chiclete, falando de forma pouco clara.
O professor, que já conhecia o temperamento da garota, coçou a cabeça irritado, enxugou o suor do rosto e bateu palmas levemente: "Desculpem interromper. Esta nova aluna do nosso curso se chama He Qiumei. Por questões familiares, ela ficou um ano afastada dos estudos. Está aqui para recuperar o atraso. Espero que todos possam ajudá-la."
O professor apresentou a garota rapidamente e a mandou sentar na última fileira.
Por coincidência, ela sentou ao lado da protagonista, tornando-se sua colega de carteira.
A câmera se aproximou de He Qiumei. A garota, com o cabelo tingido de um vermelho claro, estava encostada na parede da última fileira e jogou a mochila em cima da mesa descuidadamente.
"O que você está olhando?" A garota percebeu que a protagonista a observava e fez uma careta.
Sua personalidade era como fogo; não que fosse má, mas ela acabava queimando os outros sem querer.
Depois de ser repreendida pela garota, a câmera se desviou imediatamente. Momentos depois, a lente, representando a visão da protagonista, voltou a se fixar na garota.
Claramente, a protagonista estava curiosa sobre sua nova colega de carteira.
O sinal tocou. Assim que o professor saiu da sala, a protagonista ia se levantar, mas Qiumei, ao lado, se levantou de repente.
Ela bateu o livro na mesa com raiva, cuspiu o chiclete e olhou para a protagonista.
Um olhar feroz, um temperamento explosivo. Quando todos os espectadores pensavam que ela era uma garota problemática prestes a intimidar a protagonista...
A garota chamada Qiumei falou: "O que o velho Cao explicou, você entendeu? Eu não entendi nada!"
A protagonista balançou a cabeça levemente, e o público ouviu a voz dela pela primeira vez.
"Eu... acabei de dormir..."
"Você parece tão educada, mas também é uma aluna ruim? Isso não pode!" Qiumei olhou ao redor, mas, para sua decepção, não parecia haver nenhum aluno confiável naquele curso simples. "A prova está chegando. Se eu não passar de novo este ano, vou repetir de ano de novo. Quando é que vou me formar?"
"Você... quer tanto se formar assim?"
"Ninguém quer crescer, mas eu não posso mais ser criança. Não adianta explicar para você. O fato é que eu tenho que me formar este ano." Qiumei colocou todos os livros na mochila e começou a ler suas anotações.
Essa atitude de estudo sério contrastava completamente com sua aparência e personalidade, mas a atriz interpretou sem nenhuma estranheza.
Os colegas foram saindo da sala. Qiumei ficava cada vez mais irritada e, por fim, jogou as anotações na mesa de novo, como se, quanto mais batesse, mais o conhecimento se quebrasse e fosse mais fácil de absorver.
"Deixa para lá. Amanhã começo a estudar a sério." Depois de se arrumar, Qiumei saiu da sala sozinha.
A câmera acompanhou as costas de Qiumei e a seguiu para fora.
"Professor Cao, pelo amor de Deus, somos vizinhos há tantos anos. Pode me ajudar?" Na esquina do corredor, ouviu-se a voz de uma idosa. A câmera desceu e mostrou uma velha de cabelos brancos segurando o braço do professor Cao, tentando enfiar uma cesta coberta com um pano preto nas mãos dele. "Minha saúde está piorando. Não sei quando o pai da Qiumei vai ser solto. Se eu morrer, o que vai ser dela? Se ela continuar assim, tenho medo de que acabe como o pai."
"Tia He, guarde isso. Vou fazer o possível para ensinar a Qiumei, mas estudar não depende só do meu esforço. Não posso prometer nada. Só posso dizer que vou tentar cuidar dela o melhor que puder." O professor Cao não aceitou a cesta da idosa.
"Muito obrigada, professor Cao."
Depois de agradecer, a idosa foi embora. O professor Cao franziu a testa e subiu as escadas. A protagonista tentou agir normalmente, mas, assim que endireitou o corpo, suas costas tocaram em algo.
A câmera virou para trás, e o rosto de Qiumei apareceu de repente!
Essa cena lembrava o início do filme.
"Gosta de bisbilhotar, hein?" Qiumei disse friamente. "Aquela é minha avó. Uma teimosa."
"Ela... parece gostar muito de você."
"Gostar nada. É um saco conversar com ela. Vou te contar: eu tenho muitos contatos. Queria largar a escola e arrumar um emprego qualquer para sustentar ela e a mim, mas ela não deixou de jeito nenhum. Disse que eu tenho que me formar. Só estou voltando a estudar porque não aguento mais a pressão dela." Qiumei tirou um espelho e olhou para o próprio rosto. Ela até que era bonita, mas tinha uma aura muito agressiva.
No instante em que Qiumei tirou o espelho, a câmera recuou imediatamente, como se a protagonista tivesse medo de se ver refletida.
"O que você está fazendo?" Qiumei notou a reação estranha da protagonista. "Que nada a ver. Vou te avisar: não conte a ninguém que minha avó veio à escola."
"Está bem..." A protagonista fez uma pausa e continuou: "Você quer se formar logo só para arrumar um emprego e cuidar da sua avó?"
Guardando o espelho, Qiumei aproximou o rosto da câmera e empurrou a protagonista de leve: "O que eu quero fazer não é da sua conta. A única coisa que você pode controlar é a sua boca."
Qiumei pegou a mochila e desceu as escadas. Quando passaram uma pela outra, a protagonista murmurou: "Você não vai conseguir cuidar dela. Ela vai morrer em breve."
"O que você está resmungando?" Qiumei não ouviu direito e nem se importou com o que a protagonista disse.
A câmera acompanhou as costas de Qiumei, que se afastava cada vez mais. Então, a voz da protagonista soou novamente: "Você não vai conseguir cuidar dela. Meu olho esquerdo vê tudo."