Capítulo 619: Rosto Sorridente
A capa de chuva preta cobria o corpo daquele homem; ele estava vestido de forma grossa, parecendo um tanto inchado. Ao perceber que o ônibus se aproximava dele, virou-se imediatamente e correu na direção oposta.
"Por que está me seguindo?" Havia um traço de pânico em seus olhos. O ônibus da linha 104 já havia se desviado de sua rota habitual, algo que nunca acontecera antes.
O ônibus velho e surrado atravessava lentamente a cortina de chuva, numa velocidade nem rápida nem lenta, seguindo lado a lado com o homem da capa de chuva, como se estivesse esperando que ele embarcasse.
Algo tão sinistro estava acontecendo. O homem da capa de chuva acelerou o passo, virando a cabeça para os lados, como se procurasse um beco onde o ônibus não pudesse entrar.
"Com tanta chuva, é perigoso andar sozinho lá fora." Chen Ge mandou Tang Jun parar o veículo na frente do homem da capa de chuva e então abriu a porta.
O homem da capa de chuva hesitou do lado de fora por um momento, mas no final subiu no ônibus.
Ele tirou a capa de chuva, revelando um rosto que Chen Ge conhecia bem.
Chen Ge já tinha visto aquele passageiro antes. Da última vez que foi para a cidade de Liwan, no subúrbio leste, foi esse homem quem apresentou a Chen Ge o ônibus fantasma da linha 104.
Ele era um médico queimaduras, que se casou com uma paciente muito mais jovem que ele. Mais tarde, por várias razões, sua esposa cometeu suicídio no banheiro.
Desde então, ele sempre usava o cachecol que sua esposa havia tricotado para ele, vagando pelas sombras da cidade em busca de uma maneira de reencontrá-la.
O médico também viu Chen Ge ao subir no ônibus. Em um ambiente tão sombrio e aterrorizante, rostos familiares sempre trazem uma sensação de segurança. Sem hesitar, ele foi até Chen Ge e sentou-se na penúltima fileira.
O veículo reiniciou. A chuva forte batia nos vidros das janelas, o som era irritante.
"Você ainda está vivo?"
A maneira como Chen Ge cumprimentava era um tanto peculiar, mas o médico não se irritou. Fez um gesto de silêncio para Chen Ge e depois falou em voz baixa: "Hoje este ônibus está diferente do normal. Pode haver algum problema."
"O que é diferente?" Chen Ge ouviu com atenção, pensando em como melhorar no futuro.
"Não sei explicar. Enfim, é muito estranho." O médico colocou a capa de chuva de lado e, com o canto do olho, examinou os outros passageiros, ignorando completamente Chen Ge.
"Não é à toa que você fugiu quando viu o ônibus entrar na estação." Chen Ge parecia indiferente. Ele recolocou o gato branco na mochila de viagem; sempre que enfrentava perigo, o gato branco ficava dócil e obediente, muito carente.
Depois que o médico subiu, o ônibus da linha 104 virou e retomou a rota normal.
"Ainda faltam várias paradas até Liwan. Não são poucos os passageiros que pegam o ônibus fantasma da linha 104 nesta noite." Chen Ge fechou os olhos para descansar. Não se importava nem com o bêbado nem com os sapatos de salto alto vermelhos; seu alvo principal esta noite era a capa de chuva vermelha.
Viajando sob a cortina de chuva, lá fora relâmpagos e trovões, vento forte e tempestade; dentro do ônibus, porém, era abafado e opressivo, como se até respirar se tornasse difícil.
Após cinco ou seis minutos, o ônibus da linha 104 chegou à próxima parada.
Na plataforma vazia, uma poça de sangue estava sendo lavada pela chuva.
Ninguém sabia o que havia acontecido naquela plataforma antes da chegada do ônibus fantasma; o sangue também ia se desvanecendo lentamente na chuva.
"Quando a capa de chuva vermelha é estimulada, gotas de sangue caem dela. Foi ela quem deixou isso?" Chen Ge não tinha certeza; talvez algum passageiro esperando o ônibus tivesse sido morto.
A porta se abriu. Por costume, mesmo que ninguém subisse, Tang Jun parava ali por três minutos.
No primeiro minuto, nada de anormal aconteceu. No segundo minuto, uma figura vaga apareceu na estrada ao longe.
Ele andava sob a tempestade, com um corte de cabelo tipo cogumelo bem alinhado.
O pescoço era um pouco mais longo que o normal; as feições, embora parecessem humanas à primeira vista, quando juntas, causavam uma sensação estranha.
Quando a porta estava prestes a fechar, o homem do cabelo cogumelo subiu. Ele estava encharcado, com um sorriso constante no rosto.
Os cantos da boca se abriam, mostrando os dentes da frente; a chuva caía em sua boca, mas ele não se importava, como se só soubesse fazer aquela expressão.
"Um esquisito que não para de sorrir?" Essa foi a avaliação de Chen Ge sobre o novo passageiro. Ele usou discretamente sua Pupila Sombria, mas, ao olhar, sentiu como se uma agulha tivesse perfurado sua pupila, causando uma dor aguda.
Fechou os olhos rapidamente. Quando os reabriu, o esquisito que não parava de sorrir já estava sentado na segunda fileira do ônibus, parecendo ter se posicionado de propósito para evitar o lugar dos sapatos de salto alto vermelhos.
"A qualidade dos passageiros desta noite é muito alta!"
Esfregando os olhos, Chen Ge ainda sentia uma dor latejante no cérebro. Ele não sabia o que o esquisito carregava consigo, mas uma coisa era certa: aquele sujeito não era uma pessoa comum como o médico.
O veículo continuou avançando. Minutos depois, o médico sentado na penúltima fileira estendeu a mão para trás e entregou um celular a Chen Ge.
Chen Ge pegou o celular instintivamente e viu uma mensagem de texto não terminada: "Desde que saímos de Liwan da última vez, o ônibus fantasma desapareceu. Ele não apareceu no horário combinado. Esta noite vim só para tentar a sorte, mas não esperava que o ônibus fantasma aparecesse quando não deveria. As regras antigas foram quebradas; com certeza muitos 'passageiros' como eu virão verificar. Esta noite será muito perigosa. Cuide-se. E preste atenção a uma coisa: o monstro do sorriso na segunda fileira, tome muito cuidado. Ele já matou um ônibus inteiro de pessoas."
Lendo a mensagem do médico, Chen Ge notou um detalhe: ao se referir ao passageiro sorridente, o médico usou as palavras "monstro" e "ele".
"Matou um ônibus inteiro de pessoas. Como o médico sabe disso? Se ele estava no ônibus como passageiro, por que não morreu? Se não estava no ônibus naquela época, de quem ouviu essa história?"
A pupila ainda doía levemente, e Chen Ge só tinha usado a habilidade concedida pelo celular preto para olhar para o outro uma vez.
"Esse cara de cabelo cogumelo, com um visual tão fofo, mas parece ser um osso duro de roer."
Enquanto Chen Ge observava secretamente o homem do sorriso, o ônibus fantasma da linha 104 chegou à próxima parada.
Antes mesmo de entrar na estação, Chen Ge viu um jovem andando de um lado para o outro na plataforma, parecendo muito inquieto.
O veículo parou, a porta se abriu, e Chen Ge, sentado dentro do ônibus, podia ouvir a voz do jovem.
"Apareceu mesmo! O ônibus da meia-noite! A lenda é verdadeira, é verdadeira!"
Sua voz tremia, o rosto pálido, os lábios com um tom anormal de azul-arroxeado, o corpo tremendo, como se fosse desabar a qualquer momento.
"Tão medroso assim?" Chen Ge observou o jovem pela janela. Ele parecia ter pouco mais de vinte anos, provavelmente ainda na universidade.
Era apenas um estudante comum. Chen Ge achou que, assim como Xiao Gu, ele devia estar assombrado por algo ruim e, com azar, acabou topando com o ônibus fantasma da linha 104.
Chen Ge não tinha interesse nele. Seu olhar para ele era como o de um pescador que descobre um peixinho pequeno em sua rede, pronto para soltá-lo.
O veículo parou na plataforma, ninguém o forçou, mas, para surpresa de Chen Ge, aquele jovem que parecia tão covarde e medroso, quando o ônibus estava prestes a fechar as portas, correu para dentro.