Capítulo 497: Não foi ele quem ligou
Chen Ge assentiu, sem recusar: "Dirija."
"Obrigada." Huang Ling estava encharcada, sentada no banco do motorista: "Minha casa não fica longe daqui, uns dez minutos."
Os faróis acenderam, e Huang Ling, com os outros a bordo, atravessou a cortina de chuva, seguindo pela estrada em direção ao longe.
Ninguém falou durante o trajeto, cada um absorto em seus próprios pensamentos.
À uma da manhã, o carro chegou ao bairro onde Huang Ling alugava um apartamento. O lugar era muito afastado, bem perto da cidade de Liwan.
"Antes, a prefeitura planejava desenvolver intensamente o subúrbio leste, mas depois, sei lá por quê, o projeto foi abandonado. No fim, ficou essa vastidão de construções pela metade. Quem morava aqui foi se mudando por causa do transporte, da vida, e outros motivos." Huang Ling estacionou o táxi direto no condomínio. No enorme conjunto, nem uma única luz estava acesa, parecia que tinham entrado numa cidade fantasma: "Há alguns anos, quando iam construir o novo distrito no subúrbio leste de Jiujiang, os preços dos imóveis eram assustadores. Agora só sobrou essa bagunça, e a gente, que foi enganada."
Através da conversa, Chen Ge entendeu o passado daquela mulher. Anos atrás, ela e o marido gastaram todas as economias para comprar um apartamento no subúrbio leste de Jiujiang.
No começo, os dois ficaram eufóricos por terem conseguido um imóvel lá, esperando sentados o novo distrito ser estabelecido e o apartamento valorizar.
Mas quem diria que, pouco depois, a construtora atrasaria a entrega por problemas de fluxo de caixa e dívidas.
Para comprar o apartamento, o jovem casal gastou todas as economias da família e ainda ficou com muitas dívidas. Eles se uniram a outros proprietários para exigir uma explicação da construtora, mas a empresa foi enrolando, enrolando, até hoje.
O projeto foi parado do nada, e o apartamento comprado com todas as economias virou uma obra inacabada inabitável. O casal só podia viver de aluguel.
A vida não era fácil. Durante esse período, o marido ainda sofreu um acidente de carro, e agora era basicamente Huang Ling quem segurava tudo sozinha.
"Chegamos, é aqui." Huang Ling parou o carro, pegou a bolsa e subiu correndo as escadas. Chen Ge e Xiao Gu a seguiram.
No prédio residencial, só a luz do primeiro andar funcionava direito. As paredes estavam escuras, parecia por causa da umidade, e um cheiro fraco de mofo pairava no corredor.
"Jia Ming!" Huang Ling chegou ao quarto andar, abrindo a porta com a chave enquanto gritava para dentro. Estava apavorada, com medo de que o pior tivesse acontecido.
Vendo Huang Ling tão nervosa, Chen Ge e Xiao Gu não disseram nada. Para eles, se o marido de Huang Ling tinha ligado naquele momento e sabia que o ônibus estava cheio de fantasmas, isso significava que ele provavelmente já estava morto, que também tinha virado fantasma.
A chave não entrava na fechadura, a mão de Huang Ling tremia de ansiedade. Mas foi então que uma voz masculina soou de dentro do apartamento.
"Por que você demorou tanto? Aonde foi a essa hora da noite? Liguei para o chefe da sua empresa..." A porta se abriu por dentro, e um homem de aparência abatida, mancando de uma perna, apareceu diante de Huang Ling.
"Jia Ming?!"
Huang Ling ficou muito agitada ao ver o homem de meia-idade. Ela estendeu a mão para abraçá-lo, mas ele se esquivou discretamente: "Você está toda molhada, o que foi que fez?"
"Depois eu te conto. Só fico feliz que você está bem. Hoje me assustou de verdade." Huang Ling soluçava: "Vou trocar de roupa primeiro. Esses dois são meus salvadores. Mais tarde vou levá-los de carro para casa."
Huang Ling entrou, e o homem manco ficou parado na porta, sem dar a menor intenção de convidar Chen Ge e Xiao Gu para entrar.
Lá fora, Chen Ge e Xiao Gu também acharam estranho. O homem estava vivo e bem, como poderia ter ligado para Huang Ling naquele momento? E como ele sabia que o ônibus 104 estava cheio de fantasmas?
"Sua esposa encontrou bandidos. Nós dois a socorremos por bondade." Chen Ge deu uma olhada para dentro do apartamento. O cômodo estava bem arrumado. O homem parecia um dono de casa comum, sem nada de estranho.
"Ei! Para onde você está olhando?" O homem estava muito desconfiado de Chen Ge.
"Nada. Posso pegar seu celular emprestado? O meu descarregou, quero avisar minha família que estou bem." Chen Ge falou calmamente.
"Então espera aí." O homem manco entrou e entregou o celular a Chen Ge.
"Obrigado." Chen Ge folheou o registro de chamadas. O homem realmente tinha ligado várias vezes para a mulher naquela noite, mas nenhuma chamada tinha sido completada.
Não foi ele quem ligou?
Chen Ge fingiu enviar algumas mensagens, depois apagou o histórico e devolveu o celular ao homem de meia-idade.
Lá dentro, Huang Ling já tinha trocado de roupa. Vestindo roupas casuais, exalava uma beleza madura e elegante: "Querido, fica em casa. Vou levá-los de volta, foi o que prometi a eles."
"Não!" O homem manco recusou sem pensar: "Já é mais de uma da manhã. Não fico tranquilo com você saindo com eles. Deixa eles pegarem um táxi por conta própria. No máximo, a gente paga a corrida."
"Com essa chuva toda lá fora, onde a gente vai achar um táxi?" Chen Ge franziu a testa e olhou para Huang Ling: "O que você acha?"
Huang Ling hesitou um pouco, mas acabou saindo pela porta: "Querido, a situação é complicada. Quando eu voltar, te explico em detalhes."
"Você não vai a lugar nenhum hoje! Uma ou duas da manhã e ainda quer sair? Você enlouqueceu?" O homem manco estendeu a mão para agarrar o braço de Huang Ling, mas Chen Ge o impediu.
O homem claramente tinha um pouco de medo de Chen Ge, sua voz não era muito firme: "O que você quer?"
Com a mochila pendurada numa mão, Chen Ge estreitou os olhos, fixando o rosto do homem manco: "Sou uma pessoa muito razoável. Cumpri o que ela pediu. Se ela não cumprir o combinado comigo, não espere que eu seja gentil."
O clima ficou tenso. No fim, com a mediação de Xiao Gu e Huang Ling, o homem manco deu um resmungo e concordou relutantemente.
"Não liguem, meu marido é um pouco mesquinho, sempre foi assim." Huang Ling entregou o guarda-chuva e a toalha a Xiao Gu: "Ainda não agradeci direito no carro."
"Sem problemas, eu entendo." Xiao Gu sorriu bobo, pegou a toalha e enxugou o rosto.
"Parem de enrolar, vamos descer primeiro." Chen Ge desceu as escadas sem expressão, sem dizer uma palavra durante todo o trajeto.
Ao sair do prédio, Chen Ge sentou no banco do carona do táxi. Abriu o zíper da mochila e enfiou a mão dentro, segurando alguma coisa.
Huang Ling, vendo que o marido estava bem, finalmente relaxou. Só se valoriza algo depois de perdê-lo. Ela decidiu que nunca mais brigaria com o marido, que viveriam bem.
O táxi partiu, entrando na cortina de chuva. Chen Ge, que tinha ficado em silêncio até então, finalmente falou.
"Huang Ling, você notou que seu marido, a partir de um certo momento, ficou diferente do que era antes?"
A chuva batia no vidro do carro. Huang Ling ouviu as palavras de Chen Ge e pensou seriamente por um momento: "Não notei nada diferente. Por quê?"
Chen Ge fez uma pausa e falou devagar: "Suspeito que aquele homem não é seu marido."