Capítulo 322 – A Aldeia
Chen Ge e seus dois companheiros encararam o homem deformado à sua frente, cada um com uma expressão diferente.
“Tudo o que você disse é verdade?” O tio Bai era o mais chocado. Ele e seu pai haviam visitado a Aldeia do Caixão Vivo há muito tempo. Naquela época, ele só achava que os moradores do lugar tinham uma aparência estranha, mas, em outros aspectos, pareciam pessoas comuns. Nunca imaginou que algo tão terrível estivesse escondido ali.
“Tudo é verdade.” O homem deu mais alguns passos para frente, parando na porta da casa. “Eu poderia muito bem ter escondido tudo isso. Agora que estou contando tudo, essa é a minha sinceridade.”
Em uma aldeia repleta de caixões, um homem deformado vestindo uma mortalha dizia palavras sinistras.
O tio Bai e o velho Wei trocaram olhares e, por fim, sem combinar, dirigiram o olhar para Chen Ge.
“Sem pressa. Quero fazer uma pergunta a ele primeiro.” Chen Ge fez um sinal para o homem entrar. “Como devo te chamar?”
“Pode me chamar de Aqing.”
“Certo.” Chen Ge arrastou o martelo de esmagar crânios até o lado do homem. “Você pode nos tirar daqui?”
“Sim, conheço o caminho e tenho essa capacidade.” O homem parecia apressado, como se o tempo estivesse se esgotando para ele.
“Já que você sabe como sair e tem condições de ir embora, por que não leva seu filho e foge sozinho?” Na visão de Chen Ge, os dois lados estavam apenas em uma relação de interesse mútuo. Já que Aqing havia procurado por eles, isso significava que os forasteiros tinham algo que ele considerava útil. “Não me diga que você tem medo de ser perseguido pelos espíritos malignos e quer que a gente sirva de distração?”
“Nunca pensei nisso!” Aqing rapidamente balançou as mãos. Ele estava preso na aldeia há muito tempo e tinha pouco contato com o mundo exterior. Suas expressões mudavam de forma exagerada, quase sem conseguir esconder o que realmente pensava.
“Se não é para desviar a atenção dos espíritos, então por que nos procurou?”
“No primeiro mês após o nascimento do bebê, a mulher de sobrenome Zhu vem pessoalmente examinar a criança. Se estiver normal, ela leva o bebê embora na hora, mas há exceções.” Aqing começou a contar nos dedos. “No dia em que a fantasma feminina se jogou no poço todos os anos, a aldeia realiza um ritual de sacrifício. Nesse dia, a mulher Zhu reúne todos os bebês nascidos nos últimos três meses em um quarto e deixa a fantasma escolher a oferenda adequada.”
“Deixar a fantasma escolher?” Chen Ge hesitou. A fantasma feminina que Aqing mencionava devia ser aquela assombração de vestido vermelho, a mais aterrorizante de todas.
“Hoje é o dia em que a fantasma se jogou no poço. O sacrifício vai começar em breve. Esta é a nossa chance! Durante o ritual, todos serão reunidos para despertar a fantasma. Nós só precisamos, antes que ela acorde, nos infiltrar no quarto, roubar o bebê e fugir da aldeia!”
“Você está sonhando alto.” Chen Ge interrompeu o homem. “Essa fantasma feminina que você mencionou foi capaz de dizimar a aldeia inteira sozinha. Mesmo que a gente consiga escapar, as chances de sobrevivência são mínimas.”
“Já é a melhor saída que temos.” Aqing cravou os dedos na própria carne. “O rancor dessa fantasma é apenas contra esta aldeia. Ela não tem muito interesse em forasteiros.”
“É verdade?”
Aqing assentiu com dificuldade. “Assim como ela nunca machucou a mulher Zhu, nunca vi a fantasma atacar forasteiros. Quando encontrarem meu filho, levem-no embora. Eu voltarei pelo mesmo caminho até a aldeia. Se vocês forem descobertos por acidente, vou mentir, dizendo que os vi, e os levarei na direção oposta.”
“Mas o problema é que seu filho é desta aldeia. Se o levarmos conosco, é bem possível que a fantasma também nos veja como alvo.”
“Se a fantasma os alcançar…” Aqing soltou as mãos que estavam cerradas, com uma expressão de resignação. “Então vocês podem largar meu filho e fugir sozinhos.”
Ouvindo aquilo, o tio Bai ficou comovido. “Talvez a gente devesse aceitar. Do jeito que está, também não conseguimos sair.”
“As palavras desse homem têm muitas falhas.” O velho Wei ficou na frente dos outros. “Ele diz que essa tal fantasma feminina não ataca forasteiros, mas mal entramos na aldeia e já enfrentamos perigos várias vezes. Acho que ele só quer arriscar. Se formos realmente pegos pela fantasma, tanto nós quanto o filho dele vamos nos dar mal.”
“Os monstros que vocês encontraram na aldeia não têm nada a ver com a fantasma.” Aqing suspirou. “Cada vez menos vivos na aldeia, e mais coisas malignas aparecem. Não dá para explicar tudo isso rapidamente. Só posso dizer que, nesta aldeia, os vivos são dez por cento, os mortos são dez por cento, e os oitenta por cento restantes são fantasmas.”
O velho Wei ia perguntar mais, mas Aqing já vestia a mortalha novamente. “O sacrifício vai começar. Se perder esta oportunidade, não teremos mais como sair!”
“Vamos dar uma olhada lá fora. Ficar aqui também não é seguro. O bebê fantasma de vermelho sabe onde estamos.” Chen Ge guardou o martelo de esmagar crânios na mochila.
“Hum… seria melhor você deixar a mochila aqui.” A voz de Aqing saiu de dentro da mortalha. “As mortalhas nos caixões podem atrapalhar o julgamento dos espíritos até certo ponto, mas sua mochila é muito chamativa.”
“Não tem problema.” Chen Ge pegou o gravador e caminhou em direção ao quarto ao lado.
“O que você vai fazer? Não temos tempo.”
“Pegar uma mortalha. Não vou demorar.” Chen Ge fechou a porta do quarto e apertou o botão do gravador.
Um minuto depois, Chen Ge saiu do cômodo. Ele havia encontrado duas mortalhas nos dois quartos.
“Guardem-nas com vocês. Se a situação ficar estranha, considerem se vale a pena vesti-las.” Chen Ge entregou as mortalhas ao velho Wei e ao tio Bai.
O tio Bai tinha o pingente de jade para protegê-lo, então Chen Ge não estava tão preocupado. O problema era o velho Wei; ele não queria que aquele policial, prestes a se aposentar, sofresse algum acidente.
“Você tirou isso dos caixões?” Aqing olhou para as mortalhas nas mãos de Chen Ge. Ainda havia marcas de dedos retorcidos e arranhões no tecido. Diante dele estava um homem de corpo intacto; as marcas só podiam ter sido feitas pelo dono original da mortalha.
“Isso mesmo. Vi que estavam lá, ninguém queria, então peguei.” Chen Ge deu um sorriso leve. “Fique tranquilo. Um dia eu devolvo.”
Aqing desviou o olhar, sem coragem de encarar Chen Ge. Aquele homem à sua frente lhe transmitia uma sensação peculiar.
Mesmo estando no fundo da escuridão, ele irradiava força e esperança, como se sob seus pés estivesse o lugar onde o sol estava prestes a nascer.
“Sigam-me de perto. É melhor vocês vestirem as mortalhas. Cuidado para não esbarrar em fantasmas.”
Depois de dizer isso, Aqing seguiu na frente, encostado na parede esquerda. A cada curva, ele virava para a rua da esquerda. Cerca de seis ou sete minutos depois, construções diferentes começaram a aparecer nas laterais das ruas.
“Já saímos do labirinto fantasma?” Vestindo a mortalha, o velho Wei estava com uma péssima aparência.
“Estou levando vocês ao centro da aldeia. O sacrifício vai começar daqui a pouco.” Aqing conduziu Chen Ge e os outros para se esconderem dentro de uma casa antiga ao lado. “Ouvi dizer que neste sacrifício também há outros forasteiros participando. Vou tentar contatá-los para sondar a situação.”