Capítulo 252: Pacote Preto
O motorista, um senhor de meia-idade, pegou o celular enquanto esperava o sinal vermelho e mandou um áudio no grupo de conversa deles.
Ele tinha acabado de deixar Chen Ge no Beco das Acácias e ouvido histórias de fantasmas o caminho inteiro; agora, estava apavorado.
“O carro tem câmera de bordo, sistema de localização e proteção nas laterais. Não deve dar problema”, pensou o motorista, que era bem esperto. Ao enviar o áudio, falou alto de propósito para que o passageiro no banco de trás também ouvisse.
“Essas noites estão meio complicadas. Toma cuidado.”
“Tá bom.”
O sinal ficou verde. O motorista deixou o celular de lado e ligou o táxi.
As paisagens dos dois lados passavam voando, e os carros na estrada diminuíam cada vez mais.
O motorista deu uma olhada discreta no retrovisor para o passageiro no banco de trás. Não era muito alto, vestia um moletom preto por cima e uma camisa rosa-claro por baixo.
O sujeito tinha entrado no carro correndo, dito o destino e não abrira mais a boca.
Mais estranho ainda: depois de entrar, não tirou o capuz do moletom da cabeça. Por causa do ângulo, dava para ver só metade do rosto dele.
“Cara, a gente que trabalha à noite tem umas manias. Normalmente, não vou para esses lugares”, disse o motorista, sem muita confiança, começando a enrolar. “Mas já que te deixei entrar, não vou cobrar a mais. Só que só posso te deixar perto dali. Você vai ter que andar uns cem ou duzentos metros por conta própria. Tá de boa?”
Na primeira vez que levou Chen Ge, foi assim: medroso, já planejava a rota de fuga antes de chegar. Assim que o passageiro desceu, deu meia-volta e arrancou.
“Qual é, só vou pegar uma coisa. Minha casa é no centro”, o homem levantou a cabeça. Pela voz, não parecia ter nada de errado. “Se você for embora e me largar na porta do crematório, como é que vou pegar um táxi depois de pegar o que preciso? De noite, quem vai levar passageiro lá no crematório?”
O motorista, seu Zhang, pensou um pouco. O que o passageiro disse fazia sentido.
“Você me leva lá e me traz de volta. Duas corridas. Não é melhor do que voltar de mão abanando?”
Com o argumento do passageiro, seu Zhang ficou tentado. Por que não ganhar um dinheiro extra?
Antes, ele teria topado na hora. Mas depois de levar Chen Ge, ficou traumatizado e começou a tomar cuidado com tudo. “Tá, então. Mas vou esperar no cruzamento. Você pega o que precisa e volta para me encontrar.”
“Fechado. Contanto que você não se importe de perder tempo.” O passageiro no banco de trás, com as mãos nos bolsos, parecia fácil de lidar.
“Esse cara, além de não tirar o capuz, não tem nada de anormal. Parece bem mais de boa do que aquele que foi encontrar a namorada no campus abandonado.”
Seu Zhang resmungou baixinho, pensando: “Tantos táxis rodando à noite em Jiujiang, não é possível que toda vez eu encontre uma coisa estranha.”
Já tinha encontrado aquele psicopata duas vezes seguidas. A probabilidade já era baixa o suficiente. Devia ser a vez de dar sorte.
Ficou se enchendo de desculpas para se acalmar, mas as mãos no volante ainda suavam.
O carro andava rápido. Em dez minutos, já tinha saído do centro antigo e seguia para o crematório nos arredores.
As pessoas dos dois lados diminuíam, a luz das placas das lojas já não se via. Na estrada, só o táxi de seu Zhang corria.
“Quase lá.”
O motorista não parava de espiar o passageiro pelo retrovisor. O sujeito ficava quieto no banco, parecendo não ter se mexido o caminho inteiro.
“Pode ir mais um pouco. Não precisa parar na porta. Só um pouco mais perto.” A voz do passageiro no banco de trás era baixa, como se ele estivesse inspirando enquanto falava.
Não se via luz nenhuma num raio de cem metros. O lugar estava especialmente silencioso hoje. O táxi avançava devagar no asfalto, como um caixão preto em movimento.
“Para aqui.” O vento da noite entrava pela janela. Seu Zhang segurava o volante com as duas mãos, inquieto.
“Tá bom. Me dá dois minutos.”
“A corrida!”
“Pago quando voltar.” O passageiro no banco de trás falou de forma seca. A voz dele parecia ter mudado de algum jeito.
“Esse cara…”
Seu Zhang queria descer e discutir com ele. Tinha medo de o passageiro fugir, mas, ao pensar em sair do carro, recuou. “Que droga. No meio da noite, ir ao crematório pegar uma coisa. Ele trabalha lá?”
O motorista olhou o relógio. Já eram 23h56. Faltava pouco para a meia-noite.
“Todo dia aparece um passageiro desses, indo para lugares esquisitos. Pelo menos não preciso me preocupar com trânsito.” Ele viu o passageiro se afastar rápido. Achou o jeito de andar estranho, como se não estivesse acostumado a andar.
O passageiro entrou no crematório por uma portinha. Seu Zhang ficou sozinho no carro. Fechou todas as janelas. O espaço fechado lhe dava uma sensação de segurança.
“Que demora.” Mal tinham passado uns segundos, e seu Zhang já não aguentava mais. “Será que caí num golpe? Esse cara não quer pagar a corrida?”
Ficou pensando um pouco, e a expressão foi mudando, como se tivesse percebido algo muito ruim. “Aquele passageiro que foi para o Beco das Acácias também desceu sem pagar!”
Na época, Chen Ge ia para o Beco das Acácias. Faltando uns cinquenta ou sessenta metros para a entrada do beco, seu Zhang começou a apressá-lo para descer e, no fim, se recusou a ir mais adiante.
Quando Chen Ge desceu contrariado e ia pagar, seu Zhang já tinha arrancado e ido embora uns dez metros.
Deu um tapinha leve no próprio rosto, com uma cara de amargura. “Uma hora de plantão, não ganhei nada e ainda gastei gasolina. Dane-se. Vou considerar que é dinheiro para espantar azar. Contanto que eu nunca mais encontre aquele cara, pago a corrida para ele de bom grado.”
Seu Zhang, irritado, ligou o som do carro. Mas, quanto mais ouvia, mais ansioso ficava.
Lá fora era o crematório, tudo escuro e muito silencioso. Fazer barulho dentro do carro naquela hora parecia atrair alguma coisa na escuridão.
Nem uma música inteira tocou, e ele já desligou o som. Segurou o volante com força e olhou em volta.
“Por que ele não sai?” Faltava um minuto para a meia-noite. O motorista achava que algo estava errado, que alguma coisa ia dar errado.
Pegou os pedaços de papel de talismã que tinha jogado no chão, curvou a cabeça e fez uma reverência, enfiando-os no bolso interno da roupa.
Por coincidência, quando abaixou a cabeça, o olhar passou pelo assento onde o passageiro tinha sentado.
No banco branco, havia uma mancha de sangue não muito visível.
“Já estava aí? Quando peguei o carro, não me lembro de ter visto.”
Seu Zhang virou a cabeça para olhar o banco de trás. De repente, lembrou que a roupa do passageiro era estranha: um moletom por cima e uma camisa rosa-claro por baixo.
“O rosa da camisa não era uniforme. Será que…”
“Pá! Pá! Pá!”
Bateram no vidro do carro. O passageiro tinha saído do crematório não se sabe como, segurando um pacote coberto com um pano preto.
Seu Zhang levou um susto e desviou o olhar na hora.
“Achei o que queria. Vamos voltar pelo mesmo caminho.” O tom do passageiro era completamente diferente de antes, como se algo tivesse mudado.
O motorista olhou pelo retrovisor para o pacote preto nas mãos do passageiro. Passou a mão na roupa para secá-la. A palma já estava encharcada de suor.