Capítulo 1187: De Volta ao Ponto de Partida
“Todos aqueles cuidadores no hospital também têm o sobrenome ‘Comer’. Pode haver alguma ligação entre eles. Não é seguro ficar aqui por muito tempo.”
Chen Ge olhou para as poças de sangue no chão, sem nem se preocupar em comer, e saiu do restaurante.
Seguindo por um caminho estreito por mais de cem metros, quando ele olhou para trás, todas as luzes da loja já estavam apagadas. Ao redor, tudo era escuridão, e ele não conseguia ver nada.
“Para mim, esta cidade parece incrivelmente bela, mas o Chefe Comer disse que ela é usada para punir os pacientes. E ele mencionou a palavra ‘porta’. Será que ‘porta’ tem algum significado especial nesta cidade?”
Chen Ge pensou na porta do banheiro da casa mal-assombrada de Zhang Ya. Toda vez que ele abria a porta do cubículo, na próxima vez que entrava no banheiro, ela estava fechada novamente.
Além disso, durante o tratamento no hospital, quando o Dr. Gao o arrastou para o labirinto cerebral, o ponto crucial da virada foi empurrar uma porta.
Depois de empurrar a porta, o hospital do lado de fora era sombrio e aterrorizante, como se dentro e fora da porta fossem dois mundos diferentes.
“Talvez a saída para escapar desta cidade seja uma porta escondida em algum lugar.”
Com base na localização fornecida por Zuo Han, Chen Ge finalmente encontrou o Apartamento Ping’an por volta das 23h40.
Era um prédio de apartamentos antigo, quase abandonado, localizado atrás de uma vila deserta nos subúrbios oeste de Xinhai, em um lugar extremamente remoto.
“Por que o escritor e Zuo Han me mandaram vir aqui? Eles já se encontraram antes?”
As folhas farfalhavam com o vento. Chen Ge atravessou a vila abandonada, e ao redor não havia nem sombra de um fantasma.
“Sinto como se já tivesse estado neste lugar antes.” Chen Ge olhou para os montes de túmulos do lado de fora da vila e para a velha acácia torta na entrada, que parecia um monstro. Uma cena tão aterrorizante, no entanto, não provocou nenhuma onda em seu coração.
“O que exatamente eu passei no passado? Por que, ao ver coisas que assustariam pessoas normais, não só não sinto medo, mas até uma sensação de familiaridade?”
Chen Ge não achava que houvesse algo errado consigo mesmo, apenas sentia que a formação dessa mentalidade devia ter razões profundas.
Chegando atrás da vila, Chen Ge estava prestes a continuar andando quando de repente viu alguém agachado em um dos túmulos ao lado.
Ele parecia ter aparecido do nada, ou talvez estivesse ali o tempo todo.
Quando Chen Ge o viu, o homem também o viu. Eles se entreolharam, e nenhum dos dois achou aquilo estranho. Sem trocar uma palavra, simplesmente se desviaram um do outro.
O homem continuou agachado no túmulo, e Chen Ge só percebeu alguns passos depois que aquele homem no túmulo lhe parecia familiar.
Quando Chen Ge se virou para olhar de novo, só havia um túmulo solitário atrás dele.
“Cadê o homem?”
“Alguém agachado num túmulo no meio da noite. Uma coisa tão anormal, por que eu aceito tão facilmente? Aquele homem no túmulo também não me passou uma sensação ruim.”
Desde que decidiu vir ao Apartamento Ping’an, Chen Ge começou a notar que coisas incompreensíveis ao seu redor estavam aumentando.
Para chegar ao Apartamento Ping’an, ele precisava atravessar a vila deserta. Depois de passar por um cemitério, uma estrada de terra cheia de galhos e lixo apareceu à sua frente.
Ao lado da estrada, havia uma placa com os dizeres “Proibida a Entrada”.
Mas, com o tempo, a placa estava torta e as palavras muito desgastadas.
“Que tipo de pessoa ainda insiste em morar num prédio tão deteriorado?”
Andando pela estrada esburacada, Chen Ge olhava curioso para os lados. A estrada estava ladeada por faixas e bandeiras funerárias, e no chão havia muitos papéis de dinheiro ritual, alguns já meio enterrados na terra, claramente espalhados há muito tempo.
Os troncos das árvores estavam envoltos em pano branco, e entre as árvores era possível ver lápides. Os montes de túmulos apareciam e desapareciam, causando um grande desconforto.
Se fosse um morador comum de Xinhai, provavelmente já teria virado as costas e ido embora.
“Uma decoração tão assustadora, parece que estão tentando esconder algo de propósito, para que ninguém se aproxime.”
O caminho à sua frente parecia levar diretamente ao submundo. Chen Ge não sabia quanto tempo andou, mas finalmente chegou ao fim da estrada.
No fundo da floresta densa, havia um prédio de apartamentos velho e degradado, de três andares, não muito alto. As janelas do terceiro andar estavam todas lacradas com tábuas, e nas paredes ainda se viam marcas de queimaduras de um incêndio.
Parecia que houve um incêndio ali, e o proprietário, talvez por falta de dinheiro, só reformou os dois primeiros andares, deixando o terceiro quase como estava.
“Apartamento Ping’an?”
Atravessando o pátio cheio de ervas daninhas, Chen Ge viu a placa na entrada do prédio.
A construção parecia ter tido muitos nomes ao longo do tempo, e os caracteres na placa foram alterados várias vezes, parecendo muito confusos.
“Tem alguém aí?” Chen Ge abriu o zíper da mochila, colocou a mão dentro e entrou no corredor com cuidado.
O interior do apartamento era extremamente velho, com azulejos rachados, paredes com frestas, e ocasionalmente via-se insetos pretos rastejando por elas.
“Parecia pequeno por fora, mas não esperava que tivesse tantos quartos aqui dentro.” Chen Ge não ousava se mover à toa pelo corredor. Seu olhar percorreu as portas, até que finalmente se dirigiu à porta 101.
Bateu levemente na porta e ficou parado ali por um bom tempo, mas ninguém abriu. Ele se inclinou contra a porta, ouvindo com atenção.
O quarto estava em silêncio, como se não houvesse ninguém morando ali.
“O que você está fazendo?”
Uma voz masculina soou de repente atrás de Chen Ge, assustando-o. Ele se virou imediatamente para olhar.
“É você! O homem que estava agachado no túmulo antes!” Chen Ge reconheceu o homem atrás dele.
“Este não é lugar para você. Vá embora enquanto não incomoda os outros inquilinos.” O homem estava a poucos passos de Chen Ge. Ele andava sem fazer barulho algum, e Chen Ge não fazia ideia de quando ele tinha chegado.
“É tarde demais, não tem mais transporte para sair. Posso ficar aqui esta noite?” Chen Ge encarou o homem, registrando cada movimento dele.
“O apartamento está lotado.” O homem de meia-idade insistia para Chen Ge ir embora: “Vá, mesmo que durma do lado de fora, é melhor do que ficar aqui.”
“Lotado? Mas me parece que nenhum desses quartos tem moradores.”
“Não ter moradores não significa que os quartos estejam vazios...” Antes que o homem terminasse, algo caiu do terceiro andar, rolando pelas escadas como uma bola.
Chen Ge virou a cabeça para olhar, mas o homem bloqueou sua visão com o corpo.
“O que caiu?”
“Um pertence de um inquilino caiu. Vou ajudá-la. Fique aí parado.” O homem se dirigiu para a esquina do corredor, mas Chen Ge não o obedeceu e o seguiu.
Na curva da escada, Chen Ge viu o homem colocar algo sobre uma mulher.
“Obrigada...” A mulher acariciou o próprio pescoço e olhou para Chen Ge com curiosidade.
Estranhamente, quando ela viu o rosto de Chen Ge, seu olhar não conseguia se desviar. Só depois que o homem tossiu várias vezes, a mulher pareceu perceber algo e se virou para ir embora.
Sob o olhar daquela mulher estranha, Chen Ge sentiu um arrepio na espinha.
Ele tinha visto claramente o homem colocar algo sobre a mulher, mas não havia nada nas mãos ou no corpo dela que pudesse fazer o som de uma bola rolando.
Chen Ge fixou o olhar na nuca da mulher. O pescoço dela estava torcido de forma não natural, como se a cabeça não estivesse bem encaixada.
“Você precisa ir.” O homem de meia-idade estava na escada, olhando para Chen Ge de cima. Seu rosto tinha um tom azulado anormal, como o de um cadáver no necrotério.
“Na verdade, vim aqui para procurar um amigo.” Chen Ge não queria esconder nada. Aquele lugar era estranho demais, e ele achava melhor ser honesto.
“Seu amigo não pode estar aqui, e os inquilinos daqui também não podem ser seus amigos.” O homem desceu até Chen Ge: “Esta é a segunda vez que nos vemos esta noite. Na primeira, fingi que não te vi, e ainda posso fazer o mesmo agora. Vá embora agora. Não haverá uma terceira vez.”
“Você tem fingido que não me vê? E se você me visse, o que aconteceria?”
“Você se tornaria um inquilino daqui, e seria difícil sair.”
O homem e Chen Ge ficaram parados no corredor, num impasse. Pouco depois, uma porta perto da escada no segundo andar se abriu, e uma mulher de óculos saiu. Ela viu Chen Ge e o homem.
O olhar da mulher também mudou ao ver Chen Ge. Ela parecia ter uma boa relação com o homem, e foi direto até ele, sussurrando: “Lao Zhou, essa pessoa já esteve no Apartamento Ping’an antes?”
O homem chamado Lao Zhou balançou a cabeça: “Estou mandando ele embora.”
“Se mais inquilinos o virem, talvez ele não consiga mais sair.” A mulher de óculos disse isso e, como se não tivesse visto Chen Ge, passou por ele e subiu para o terceiro andar.
Chen Ge também percebeu que as pessoas no Apartamento Ping’an tinham uma atitude estranha em relação a ele. Ele suspeitava que fosse por causa de Zhang Wenyu e Zuo Han.
“Camarada Zhou, entre seus inquilinos, há um chamado Zuo Han? Ele e eu somos colegas de quarto no hospital.” Chen Ge mencionou o nome de Zuo Han, esperando descobrir mais, mas, para sua surpresa, assim que disse isso, a atitude do homem mudou.
“Colega de quarto? Você também vem daquele hospital?” Lao Zhou encarou Chen Ge.
“Nós dividíamos o mesmo quarto. A fuga dele do hospital também teve a ver comigo.”
“Zuo Han ainda não voltou. Se você é amigo dele, vá esperar no quarto dele.” Ao saber que Chen Ge era do hospital, Lao Zhou mudou de ideia. Ele levou Chen Ge até o fundo do corredor do segundo andar: “Zuo Han mora aqui. A fechadura da porta está quebrada, você pode entrar e esperar.”
Chen Ge não fez cerimônia. Ele empurrou a porta e viu ataduras e gazes manchadas de sangue no chão.
“São as que Zuo Han trocou. Ele saiu hoje para encontrar um amigo e ainda não voltou.”
“O amigo que ele foi encontrar sou eu.” Chen Ge apontou para si mesmo.
“Ah? Ele foi te encontrar, mas não voltou, e você veio procurá-lo aqui?” O homem chamado Lao Zhou sorriu com os olhos semicerrados: “Antes dele voltar, é melhor não sair por aí. Depois da meia-noite, o apartamento fica movimentado. Não importa o que ouça, não saia do quarto. Tampe os ouvidos e durma.”
O homem disse isso e se virou para sair, deixando Chen Ge sozinho no quarto.
A decoração do cômodo era simples, mas Chen Ge sentia uma familiaridade estranha.
Era como se, ao visitar um lugar desconhecido pela primeira vez, tivesse a sensação de já tê-lo visto em sonhos.
Sentado na cama, ChenGe segurava a mochila o tempo todo: “Parece que já estive aqui antes. Não me lembro exatamente do que aconteceu, mas tenho a impressão de que foi algo muito ruim.”
Chen Ge esperou no quarto até altas horas da madrugada, mas Zuo Han ainda não tinha voltado.
O sono começou a apertar. Chen Ge esfregou os olhos cheios de veias vermelhas: “Um apartamento normal jamais seria construído atrás de um cemitério numa vila deserta. Aqui tem algo errado.”
Se seguisse o plano de tratamento original do hospital, Chen Ge já teria eliminado os efeitos das memórias passadas, e seu estado seria como o de uma pessoa comum visitando o apartamento pela primeira vez.
Mas, infelizmente, a aparição do Dr. Sun criou uma brecha no tratamento. Chen Ge sabia que nunca podia confiar plenamente nos próprios olhos, e mantinha uma calma que ultrapassava os limites humanos.
Por volta das duas da manhã, Chen Ge ouviu um barulho estranho vindo de cima, como se alguém estivesse serrando algo.
Ele seguiu à risca o conselho do homem chamado Zhou, ficando quieto no quarto. O som da serra foi diminuindo, e então começaram a ouvir-se pedaços de reboco caindo do teto e gritos abafados. Entre eles, Chen Ge ouviu vagamente o nome de Zhang Wenyu.
“Ele me disse para não sair, deve ter um motivo.” Chen Ge continuou sentado na cama, imóvel. Mas, minutos depois, ele ouviu um nome familiar na conversa do andar de cima — Zhang Jingjiu.
Pensando bem, os gritos soavam muito como a voz de Zhang Jingjiu.
Chen Ge não aguentou mais. Pegou a mochila, saiu furtivamente do quarto e subiu para o terceiro andar do apartamento.
Lá, tudo estava cheio de marcas de queimadura. O chão estava coberto de móveis danificados e lixo carbonizado.
O som da conversa e da serra vinha do fundo do corredor. Chen Ge avançou devagar, e um leve cheiro de sangue passou pelo seu nariz. O mundo à sua frente foi gradualmente sendo tomado pelo vermelho.
As paredes enegrecidas estavam manchadas de sangue. No corredor escuro, algumas silhuetas se moviam.
Chen Ge estava com a atenção redobrada. Havia muitos detritos no chão, e o menor descuido poderia fazer barulho.
“O que estão fazendo?” Chen Ge se aproximou lentamente. Quando chegou ao meio do corredor, viu a parede no fundo.
Suas pupilas se contraíram instantaneamente. Ele viu um médico de jaleco branco pregado na parede no fundo do corredor.
O jaleco do médico estava manchado de sangue. A seus pés, um paciente deitado com os membros torcidos.
“Zhang Jingjiu?”
A respiração ficou ofegante. Chen Ge nunca imaginou que encontraria ali o médico do hospital e Zhang Jingjiu.
“Foram as pessoas do apartamento que os sequestraram? Impossível!”
O cérebro de Chen Ge trabalhava a toda velocidade. Antes que pudesse chegar a uma conclusão, ouviu um leve som atrás de si.
Virou-se bruscamente e viu uma criança parada atrás dele.
O menino era baixo, de corpo franzino, mas seu rosto carregava uma astúcia e maturidade incompatíveis com a idade.
“Meu nome é Men Nan. E você, irmão mais velho, qual é o seu nome?”