Capítulo 1186: Tomando uma Decisão
"Basta duvidar do mundo para que o infortúnio caia?" Chen Ge balançou a cabeça levemente: "As memórias fragmentadas que ainda restam na minha mente me dizem que, mesmo apenas vivendo, a pessoa sofre com o infortúnio e o desespero."
"Não é a mesma coisa." Zuo Han tocou a ferida em seu olho esquerdo, parecia que a carne nova estava crescendo, então coçava um pouco: "Suas memórias anteriores podem vir da realidade, e a realidade sempre foi cruel. O que você está vivendo agora é mais como um sonho, um sonho do qual não se pode acordar."
"Desde que acordei no hospital, não tenho mais sonhado à noite. Se for por esse lado, seu palpite tem algum fundamento." Chen Ge serviu um copo d'água para Zuo Han, mas ele nem tocou, sendo extremamente cauteloso.
"Você se recupera muito rápido, e seus olhos se tornaram gentis. Eu sei que você entende muitas coisas, mas agora se recusa a admitir, porque conquistou algo belo, provou o sabor da felicidade, e não quer destruí-lo com as próprias mãos." Zuo Han não era apenas inteligente, mas também tinha uma percepção aguçada. Ele percebeu muitas coisas pelas expressões e pelo tom de voz de Chen Ge.
Ao ouvir as palavras de Zuo Han, Chen Ge não respondeu. Ele também sempre se questionava, mas nunca encontrava resposta.
"Se isso é apenas um sonho, a dúvida trará o infortúnio, despedaçando toda a beleza. Mas, no final, mesmo que o sonho acabe, não teremos que voltar a uma realidade ainda mais cruel?"
"A beleza aqui é falsa." Zuo Han se levantou e olhou seriamente para Chen Ge: "Em pouco mais de um mês, o que exatamente você passou? Você no quarto do hospital não era assim. Naquela época, você me dava a sensação de um fantasma maligno escondendo um desejo de vingança."
"Não passei por nada muito especial, apenas vivi a vida mais simples. Se tiver que destacar algo, foi ter conhecido Zhang Ya." Chen Ge sentou na cadeira, com emoções extremamente complexas nos olhos: "Ela é diferente para mim. Fico muito tranquilo quando estou com ela."
"Eu pensei que seria tranquilo, mas parece que hoje posso ter vindo à toa." Zuo Han tirou as luvas e pegou um papel amassado do bolso: "Todo sonho tem um dia para acabar. Se você mudar de ideia, pode vir me procurar neste lugar."
Quando Chen Ge foi pegar o papel, percebeu que todas as impressões digitais nos dedos de Zuo Han haviam sido removidas.
"Sou um fugitivo agora. Esta é a última vez que venho até você por iniciativa própria." Zuo Han, vendo que Chen Ge guardou o papel, se preparou para sair: "Esta cidade parece bonita na superfície, mas por baixo de sua pele brilhante, está cheia de feridas purulentas. Quando você não quiser sair por vontade própria, ela vai te engolir lentamente."
"Vou pensar bem."
"Hum, e mais uma coisa: eu roubei um celular branco do hospital. Quando liguei, estava cheio de textos de maldição e vários joguinhos relacionados a maldições. No começo, achei que fosse um caso isolado, mas depois que espiei os celulares de outros enfermeiros e médicos do hospital, descobri que todos os celulares brancos de lá tinham muitos jogos e aplicativos de maldição. Se um dia você vir alguém usando um celular branco, lembre-se de não chegar perto." Zuo Han disse isso e não ficou mais, saindo pela janela do banheiro da casa mal-assombrada.
Fechando a janela, o rosto de Chen Ge escureceu. Ele encostou na porta do cubículo do banheiro, com o cérebro funcionando a toda velocidade.
"Minha mente tinha muitos fragmentos de memória, que eram de uma vida completamente diferente. O médico do hospital me disse que essas memórias eram todas fruto da minha imaginação, mas depois de ver os sete potes de vidro no escritório do diretor, pude afirmar que aquela experiência realmente existiu." Chen Ge sabia muito bem que, se aqueles fragmentos de memória fossem reais, a cidade onde ele vivia agora provavelmente era falsa.
"O hospital só me deixou sair depois que descobriu que todos os fragmentos de memória na minha mente haviam desaparecido. Mas o problema é que o Dr. Sun me alertou na saída, dizendo que o tratamento estava apenas começando."
"Apagar minhas memórias passadas foi apenas o primeiro passo do tratamento. Depois, eles devem começar a remodelar minhas memórias, para que eu nunca mais duvide do hospital e deste mundo, tornando-me um boneco que vive nesta cidade."
"Eles me entorpecem com felicidade e beleza falsas, me dão tudo o que desejo, fazendo com que eu não queira abrir mão, e até me transformam em um mantenedor das regras."
O olhar de Chen Ge ficou frio: "A ideia deles é boa, mas muitos imprevistos aconteceram no meio: a fuga do paciente Zhang Wenyu, a dúvida de Zuo Han sobre o mundo, a ajuda do Dr. Sun, e o mais importante, algo parece ter mudado em Zhang Ya."
Ele se lembrava bem: quando viu Zhang Ya no hospital, gotas de sangue formadas por caracteres vermelhos penetraram no corpo dela.
"No começo, o propósito da existência de Zhang Ya deveria ser preencher meus arrependimentos e realizar minhas obsessões. Mas, sob a influência daqueles textos vermelhos, Zhang Ya começou a ter sonhos terríveis todas as noites."
"Aqueles sonhos podem ser a realidade. Eles sempre me lembram, a mim e a Zhang Ya, que por baixo dessa bolha de beleza, há rostos ensanguentados."
"Este é um mundo belo que me faz afundar, mas minha vida não é só minha." Na mente de Chen Ge, surgiram figuras borradas: "A segunda personalidade que arrancou o próprio coração no labirinto cerebral, os pacientes que ainda sofrem no hospital, a criança dividida e colocada em potes de vidro, o Dr. Sun com o rosto cheio de cicatrizes, e até mesmo Zhang Ya."
Lembrando-se do dia em que saiu para passear, quando Chen Ge estava fazendo bonecos, suas mãos instintivamente criaram a Zhang Ya em seu coração.
Chen Ge, especialista em fazer bonecos, já havia percebido o problema naquela época. O boneco de Zhang Ya que ele fez estava coberto de roupas ensanguentadas e cheio de emoções negativas gravadas. Não era a Zhang Ya maquiada de fantasma, mas uma divindade maligna de terror extremo.
A Zhang Ya feita por instinto era diferente das pessoas ao redor, ou melhor, a Zhang Ya na casa mal-assombrada era apenas uma parte da Zhang Ya real.
Pensando nisso, Chen Ge olhou para o papel em sua palma. Na frente, estava escrito "Apartamento Ping'an", e no verso, aproximadamente marcada a localização do apartamento.
"O Dr. Sun me ajudou a fugir do hospital, o que significa que a maneira de acordar do sonho não está no hospital, mas nesta cidade."
As informações deixadas pelo escritor e por Zuo Han eram as mesmas. Depois de pensar um pouco, ele se virou e entrou na sala de descanso dos funcionários, saindo com uma mochila velha.
O gato branco o seguiu, mas quando estava quase saindo da casa mal-assombrada, Chen Ge o colocou de volta: "Vou a um lugar muito perigoso. Fique aqui cuidando da casa."
O gato de olhos heterocromáticos olhou para Chen Ge sem entender, quase se sentindo lisonjeado. Depois de um momento, ele correu para fora novamente, como se temesse que Chen Ge o abandonasse.
"Desta vez não é para brincar. Cuide bem da casa. Volto antes do amanhecer."
No final, Chen Ge não levou o gato. Seguindo as instruções no papel, ele pegou um táxi até um restaurante especial perto do Apartamento Ping'an.
Os taxistas de Xinhai pareciam raramente ir a lugares tão remotos. Quando Chen Ge desceu, o motorista ainda insistiu para que ele não fosse sozinho para os subúrbios à noite.
Chen Ge foi ao restaurante principalmente para evitar ser seguido. Depois, planejava ir a pé até o apartamento.
Mas como não tinha comido o dia todo e estava com fome, ele entrou no restaurante.
O Apartamento Ping'an ficava no subúrbio oeste de Xinhai, um lugar muito desolado. Chen Ge não esperava encontrar um restaurante tão famoso em Xinhai por ali.
O pequeno restaurante era conhecido por "ensopado" e "caça". Depois que a cidade proibiu o comércio de caça, o dono rapidamente esclareceu que toda a carne do restaurante era de criação, mas que o tempero único dava um sabor extremamente delicioso.
O lugar era pequeno, sem salas privadas. Na sala principal, havia apenas cinco ou seis mesas baixas de madeira.
"Desculpe, já fechamos." No balcão, estava um homem gordo, com um avental sujo e uma cicatriz bem visível no rosto.
"Vim do centro da cidade especialmente para comer aqui. O que ainda tem, pode me servir qualquer coisa." Chen Ge sentiu mais fome ao sentir o cheiro de carne no ar. Ele encontrou um lugar e sentou, folheando o cardápio.
"Ainda tem alguns pratos, mas a carne acabou. Vende muito rápido." O cozinheiro gordo, terminando o trabalho, pegou o cardápio e foi até Chen Ge: "Ainda tem alguns bolinhos na geladeira. Quer uns de carne de javali?"
"Não gosto muito de caça. Pode me servir qualquer prato." Chen Ge levantou a cabeça e olhou para o cozinheiro, que também olhou para ele.
No instante em que se viram, algo estranho aconteceu.
A cicatriz no rosto do cozinheiro gordo começou a se contorcer. Seu corpo parecia paralisado, e o suor escorria pela testa.
"Você me conhece?" Chen Ge estreitou os olhos.
"Não conheço!" O cozinheiro respondeu rapidamente e, como se estivesse fugindo, foi para a cozinha, mas Chen Ge segurou seu ombro.
"Tem certeza? Então por que está indo embora? Qual é o seu nome?" Chen Ge, embora não tivesse muita carne, tinha uma força enorme nas mãos. Seus dedos, como garras de aço, seguraram firmemente o ombro do cozinheiro: "Seu corpo está tremendo. Você está com medo de mim?"
"Não estou com medo. Só me confundi. Você se parece muito com um policial. Achei que tinha vindo verificar a caça." O cozinheiro não ousou virar o rosto, falando bem baixo.
"Você está mentindo." ChenGe apertou mais o braço: "Diga, qual é o seu nome?"
"Meu nome é Chi Longtou. Sou só um cozinheiro. Me solte, por favor." O cozinheiro implorou.
"Chi Longtou? Restaurante de ensopado?" Chen Ge sentiu uma familiaridade vaga. Ele empurrou o cozinheiro contra a parede e tocou a cicatriz em seu rosto.
Pelo porte físico, o cozinheiro era muito maior que Chen Ge, mas na prática, ele nem pensava em resistir.
"Sua ferida ainda não cicatrizou. Não é profunda, parece que foi feita com algo arranhando aos poucos. É algum tipo de punição?" Os dedos de Chen Ge tocaram a borda da ferida, fazendo o cozinheiro gemer de dor: "A borda é muito irregular, como se, toda vez que estivesse quase cicatrizando, fosse cortada de novo. Deve doer muito, não?"
Ao ouvir isso, as pernas do cozinheiro fraquejaram. Ele caiu de joelhos, com o rosto pálido: "Chen Ge, vamos agir como se não tivéssemos nos visto, ok? Eu nunca te vi, e você nunca entrou no meu restaurante."
"Você ainda sabe meu nome?" Chen Ge apertou ainda mais a mão. Ele tinha certeza de que era a primeira vez que via Chi Longtou, mas o outro o conhecia. Isso significava que havia algum contato anterior entre eles, e esse contato era uma prova das memórias passadas.
O cozinheiro queria dar um tapa na própria boca. Com o rosto amargurado, ele nem ousava falar.
"Responda algumas perguntas direito. Se me satisfizer, não vou mais te incomodar. Vamos agir como se nunca tivéssemos nos visto." Na verdade, Chen Ge era o mais ansioso, mas não demonstrava.
"Pergunte. O que eu souber, vou contar." O cozinheiro, como se tivesse se resignado, levantou-se do chão e correu para fechar a porta do restaurante.
"Primeira pergunta: onde você me conheceu?" Era o que mais intrigava Chen Ge. Ele planejava perguntar a Zhang Wenyu naquela noite sobre seu passado, mas acabou encontrando esse cozinheiro estranho.
"Foi no Restaurante de Ensopado de Xinhai, não o de trás da porta..." Enquanto falava, o mundo diante de seus olhos ficou coberto de sangue. Ele sentiu como se seu cérebro estivesse sendo rasgado.
"Ei!" Chen Ge se assustou. Viu a cicatriz no rosto do cozinheiro se rasgar misteriosamente, e o sangue escorria por todo o rosto.
Segurando o rosto, o cozinheiro rolava no chão, suportando a dor, mas sem ousar fazer muito barulho. Ele mordia um pano de prato na mesa.
O chão estava cheio de sangue. Chen Ge olhou para o vermelho que coagulava lentamente, sem sentir repulsa ou nojo. Era como se já estivesse acostumado com aquela cor.
Tocando o sangue no chão, a sensação pegajosa e quente era extremamente familiar para Chen Ge. Um pensamento surgiu do fundo de sua mente: "Isso é sangue de verdade."
Dez minutos depois, o cozinheiro recuperou a consciência.
Ele estendeu a mão ensanguentada e segurou o sapato de Chen Ge: "Não posso falar. Vou morrer."
"Na verdade, do jeito que você está, acho que viver é pior que morrer. Talvez você tenha algo que o prenda." Chen Ge ajudou o cozinheiro a se levantar: "Se um dia eu puder acabar com esse sofrimento, vou tentar te ajudar. Não precisa se forçar. Só me diga o que pode."
O corpo do cozinheiro tremia de dor. Ele pegou o pano de prato, molhou no próprio sangue e escreveu no chão, apagando cada palavra imediatamente: "Aqui é o lugar atrás da porta para punir os pacientes."
"Lugar para punir os pacientes?"
Os dedos tremeram, e o cozinheiro escreveu outra linha: "Quem não foge, nem morrendo escapa. Me salve."
Ele apagou todo o sangue do chão e, segurando o rosto, voltou para a cozinha.
Desde que viu as palavras de sangue no chão, Chen Ge começou a ter um pressentimento muito ruim.
Buscar a verdade traz o infortúnio. Agora, o infortúnio parecia ter chegado.