Capítulo 1167: O Paradoxo do Mundo
"Você me conhece?" A mulher estava maquiada, com o rosto pálido e coberta de "sangue" vermelho por todo o corpo; dava para sentir o cheiro de tinta nela mesmo de longe.
"Eu sou Chen Ge..." Chen Ge soltou quatro palavras sem pensar. Ele não disse "Meu nome é Chen Ge", mas sim "Eu sou Chen Ge", como se eles já devessem se conhecer.
Um paciente psiquiátrico de avental hospitalar e uma atriz de casa mal-assombrada coberta de sangue estavam assim, parados junto ao muro do hospital psiquiátrico.
Eles pertenciam a dois mundos diferentes, mas naquele momento, estavam frente a frente.
"Este é o seu gato?" Zhang Ya não se aproximou da grade, apenas apontou para o gato branco: "Foi ele quem me trouxe até aqui."
O gato branco estava agachado entre Chen Ge e Zhang Ya, balançando o rabo para um lado e para o outro, com uma expressão muito orgulhosa.
"É um gato de rua. Não sei por que ele é tão apegado a mim." Chen Ge olhou para o gato agachado entre os dois, e um sorriso amargo apareceu em seu rosto: "Minha cabeça não está muito boa, esqueci muitas memórias do passado. O médico está me ajudando com a reabilitação."
Embora Chen Ge estivesse vestindo um avental hospitalar, sua impressão era completamente diferente daqueles pacientes psiquiátricos dos filmes e séries. Ele era calmo e racional, sem nenhum sinal de anormalidade.
Um estranho poderia apenas achar que ele tinha um ar melancólico, com um toque de dor indescritível nos olhos.
Olhando para Chen Ge, que parecia um pouco frágil, Zhang Ya não conseguia sentir antipatia por ele: "Você deve ser o dono deste gato. Você ficou doente e foi hospitalizado, esqueceu dele, mas ele não esqueceu de você. Seu gato é tão dependente de você, você deve ser uma pessoa muito gentil e bondosa. Espero que você recupere suas memórias em breve."
Zhang Ya se agachou e acariciou a cabecinha do gato branco: "Um gato que atravessa uma cidade inteira para te encontrar, com certeza passou por muitas dificuldades no caminho. Não o perca de novo no futuro."
"Hum." Chen Ge também se agachou. Seu olhar se desviava, sem ousar encarar o rosto de Zhang Ya, apenas fixando-se silenciosamente na mão dela que acariciava o gato branco.
A mão de Zhang Ya era muito bonita, dedos longos, muito branca, sem nenhum traço de cor.
Parecendo perceber que Chen Ge estava olhando fixamente para sua mão, Zhang Ya tossiu levemente e recolheu a mão: "Este gato branco apareceu perto da minha casa mal-assombrada há alguns dias e se recusava a ir embora. Como ele é muito esperto, não o expulsei. Agora que ele encontrou o dono, não preciso mais cuidar dele."
"Espere." Zhang Ya se levantou para ir embora, mas Chen Ge a chamou.
"Tem algo errado?"
Olhando para o perfil de Zhang Ya, os olhos de Chen Ge estavam cheios de dúvida e dor: "Nós já nos vimos antes? Eu lembro do seu nome, não consigo esquecer de jeito nenhum. Minhas memórias passadas também estão cheias da sua figura, mas não consigo me lembrar do tempo que passamos juntos."
Se um estranho na rua dissesse isso a Zhang Ya, ela certamente iria embora na hora. Se ele insistisse, ela poderia até chamar a polícia.
Mas a situação agora era diferente. Chen Ge era um paciente de avental hospitalar, e não parecia estar fingindo. A dor e o desamparo que emanavam do fundo de seus olhos eram comoventes.
Zhang Ya parou e examinou o rosto de Chen Ge com atenção. Ela não tinha nenhuma impressão dele, apenas achava que aquele rosto, não muito bonito, parecia agradável quanto mais se olhava.
"Esta deve ser a primeira vez que nos vemos, certo? Estou curiosa para saber como você sabe meu nome."
"Não me lembro. O médico disse que eu visitei sua casa mal-assombrada antes, então sei seu nome, mas talvez não seja bem assim." Chen Ge segurou a grade enferrujada: "Sinto que você é muito importante para mim."
Palavras extremamente comuns, mas quando Chen Ge as dizia, pareciam muito sinceras. A impressão que ele passava era a de uma folha de papel em branco, com o nome de Zhang Ya escrito por toda parte.
Zhang Ya já tinha ouvido palavras semelhantes antes, mas só quando Chen Ge as disse, ela sentiu algo especial.
O batimento cardíaco acelerou lentamente. Zhang Ya hesitou, olhou para trás, para a casa mal-assombrada do parque, e então voltou a se aproximar de Chen Ge: "Geralmente, tenho impressão dos visitantes que passaram pela minha casa mal-assombrada, mas parece que é realmente a primeira vez que vejo você. Será que seu médico se enganou?"
Chen Ge balançou a cabeça: "Eu me lembro vagamente das cenas da sua casa mal-assombrada: A Noite dos Zumbis Ressuscitados, ***, A Caçada Noturna, e também uma escola de ensino médio..."
"A Noite dos Zumbis Ressuscitados e ** são realmente cenas da minha casa mal-assombrada, mas as outras que você mencionou não são daqui." Zhang Ya disse com um sorriso resignado: "Minha casa mal-assombrada não tem muitos visitantes agora. Aguentar duas cenas já é o limite. Se eu abrir mais, não tenho pessoal suficiente."
"Quantos funcionários você tem na sua casa mal-assombrada agora?"
"Três: eu e meus pais." Zhang Ya ficou um pouco envergonhada: "Eu cuido dos panfletos e da venda de ingressos, meu pai interpreta o zumbi, e minha mãe cuida da cena de **. Não ganhamos muito dinheiro, mas nos divertimos todos os dias."
A memória estava distorcida. A cabeça de Chen Ge começou a doer de novo. Ele se lembrava vagamente de que os pais do dono da casa mal-assombrada não deveriam estar lá.
"Você está suando muito, seu corpo está tremendo. Ei! Precisa que eu chame um médico?" Zhang Ya viu o rosto de Chen Ge ficar pálido e veias pretas e azuis aparecerem na superfície da pele. Ela ficou um pouco assustada, pensando que tinha dito algo errado sem querer: "Fique aqui! Vou chamar um médico para você!"
Zhang Ya se preparou para correr em direção à entrada principal do hospital, mas antes que pudesse dar um passo, seu pulso foi segurado por Chen Ge.
"Não vá chamá-los..."
As mãos de ambos estavam frias. Zhang Ya se assustou. Enquanto ela estava sem saber o que fazer, grandes hematomas no braço de Chen Ge começaram a sangrar.
Nas minúsculas gotas de sangue, pareciam estar escondidas pequenas palavras de sangue. As gotas se juntaram formando uma gota de sangue vermelho vivo, e as palavras formaram um diário incompleto.
Aquela gota de sangue escorreu pelo braço de Chen Ge e caiu no pulso de Zhang Ya. Naquele instante, o coração perturbado de Zhang Ya se acalmou.
Olhando para seu pulso sendo segurado, ela ficou um pouco atordoada, levou alguns segundos para se soltar.
"Desculpe. Espero que possa manter segredo. Não quero que o médico saiba que te encontrei."
A dor chegou. Chen Ge não pensou profundamente no passado, nem tocou nos fragmentos de memória anteriores, mas a dor veio como uma maré, como se a barragem que antes bloqueava a onda de dor tivesse desaparecido, e agora ele tivesse que suportar sozinho a dor sem fim.
O braço tremia. Chen Ge achava que já estava acostumado com a dor, mas só então percebeu que a dor que sentia no início era apenas um décimo da atual.
"Por quê?"
Sem conseguir se manter em pé, Chen Ge caiu no chão. O gato branco andava em círculos, desesperado, e Zhang Ya não parava de dizer algo para Chen Ge, mas ele já não conseguia ouvir.
"O que eu fiz? Por que essa dor surgiu de repente?!"
O corpo parecia estar sendo rasgado. Com o último resquício de razão, Chen Ge gritou para Zhang Ya e o gato branco: "Leve o gato embora. Todas as manhãs, eu venho aqui."
Depois de dizer isso de forma entrecortada, Chen Ge imediatamente se virou e correu para dentro do hospital. Usando suas últimas forças, ele atravessou o jardim e finalmente caiu no caminho do pátio.
Dessa vez, ele desmaiou de tanta dor.
...
"Que dor! Que dor! Que dor!"
Em meio à escuridão total, Chen Ge podia ouvir sua própria voz ecoando repetidamente. Ele seguiu o som e viu, no fundo da escuridão, um jovem melancólico segurando um coração pulsante, de costas para Chen Ge.
Aquela figura era muito parecida com ele, e a voz que saía dela também era a sua, mas a intuição dizia a Chen Ge que aquele jovem não era ele.
"Xu Yin?" Um nome surgiu silenciosamente. Chen Ge avançou em meio às ondas negras, mas foi levado cada vez mais para longe pela escuridão.
O jovem que estava suportando a dor sem fim em seu lugar pareceu ouvir sua voz. Quando Chen Ge estava sendo levado pela escuridão, ele olhou para trás.
A parte frontal de seu corpo estava coberta por todo tipo de maldição. Essas maldições, como pregos, perfuravam seu corpo, mas ele parecia ter grande resistência a maldições e à dor. As maldições não conseguiam atravessar seu corpo, nem ferir o coração pulsante em seus braços, nem Chen Ge, que já estava sendo levado pelas ondas escuras atrás dele.
Chen Ge abriu os olhos de repente. Sua expressão era feroz e aterrorizante. Suas mãos instintivamente tentaram agarrar algo para cima, mas ele logo percebeu que estavam amarradas.
Aos poucos, recuperando a calma, Chen Ge olhou ao redor e viu a janela quebrada, a cama torta e o armário tombado.
"Agora entendo por que o médico te dá dois comprimidos." A voz de Zuo Han veio do canto do quarto. Ele tinha movido sua cama para o lugar mais distante de Chen Ge: "Passei dois dias no mesmo quarto que um paciente tão perigoso quanto você. Obrigado, irmão Xie, por não me matar."
"Fui eu que baguncei o quarto?"
"Isso não é bagunçar, é destruir tudo." Zuo Han agora estava quieto como um gato de estimação, encolhido no canto, sem ousar se aproximar de Chen Ge nem um passo.
"Lembro que desmaiei. Minha cabeça parecia que ia explodir, meu corpo todo doía. Não me lembro de mais nada."
"Você acordou uma vez durante o desmaio. Aquele você era completamente diferente do de agora. Olhos vermelhos, cheios de vasos sanguíneos, arrastando uma perna quebrada, rugindo como uma fera, não deixando ninguém se aproximar." Zuo Han ainda sentia medo ao se lembrar.
"Pum! Pum! Pum!"
A porta do quarto foi batida de repente. O Dr. Gao e dois enfermeiros entraram.
Ao verem Chen Ge acordado, todos suspiraram aliviados.
Os dois enfermeiros ainda estavam com medo, apenas o Dr. Gao se aproximou de Chen Ge: "Por que você desmaiou no jardim esta manhã? Algum outro paciente te provocou?"
"De repente, lembrei de algumas coisas do passado. Quanto mais pensava, mais não conseguia me controlar, e no final desmaiei de tanta dor." Chen Ge estava basicamente dizendo a verdade.
"Nos últimos dias, sua condição estava se estabilizando. Não deveria ter recaído tão rápido. Será que o remédio perdeu o efeito?" O Dr. Gao pegou o frasco de remédio e, desta vez, colocou três comprimidos diretamente: "Tome o remédio, descanse bem. Vou conversar com outros médicos sobre seu caso."
"Dr. Gao, minha condição piorou de novo?"
"Sua condição melhorou, mas sua segunda personalidade está cada vez mais agitada. Talvez ele também sinta que você está sendo curado aos poucos, por isso está ficando mais violento." O Dr. Gao analisou.
"Por que minha cura faz minha segunda personalidade enlouquecer?"
"Se você se recuperar completamente, isso significa que ele vai desaparecer." O Dr. Gao disse com seriedade: "Sua segunda personalidade é formada por suas emoções negativas e todos os seus lados sombrios: egoísmo, melancolia, crueldade, violência. Ele não vai desaparecer de bom grado. Se chegar a esse ponto, ele vai fazer de tudo para te destruir junto."
"Minha segunda personalidade vai me destruir?"
"Você deve ser capaz de perceber o perigo que ele representa. Você é normal, ele é anormal. Nunca se deixe influenciar por essa personalidade que só sabe destruir."
Vendo Chen Ge engolir os três comprimidos, o Dr. Gao deu algumas instruções aos enfermeiros e saiu diretamente.
Os dois enfermeiros ficaram no quarto, limparam o ambiente, trocaram o vidro da janela e só saíram à tarde.
"Chen Ge?" Zuo Han se aproximou de Chen Ge com coragem. Ele balançou suavemente o ombro de Chen Ge e se assustou ao ver que ele estava de olhos abertos: "Você não dormiu!"
"Tem algo errado?"
"Você tomou os três comprimidos?" Zuo Han alertou com boa intenção: "O medicamento branco do hospital pode aliviar a dor, deixar seu pensamento mais lento e ajudar a controlar os sintomas, mas ao mesmo tempo, esse remédio vai te fazer perder a si mesmo aos poucos. Se tomar em excesso, você vai virar um boneco vivo que só sabe sorrir."
"Boneco vivo?"
"É uma marionete viva. Você só pode ser manipulado. Embora não sinta dor, também nunca vai sentir felicidade ou alegria. Ele vai destruir tudo em você." Zuo Han, que era legista, parecia conhecer muito bem esse tipo de medicamento.
"Esse remédio é tão terrível assim?" Chen Ge virou a cabeça ligeiramente, revelando os comprimidos escondidos debaixo do travesseiro.
"Você não tomou?"
"Minhas mãos estão amarradas. Me ajude a transformar esses três comprimidos em pó, sem deixar ninguém descobrir."
"Tá bom." Zuo Han assentiu instintivamente. Ele percebeu que o tom de Chen Ge estava um pouco diferente do anterior, parecia mais calmo: "Ah, Chen Ge, tem uma coisa que quero te contar."
"O quê?"
"Antes, o Dr. Gao disse que sua segunda personalidade só sabe destruir, que é formada inteiramente por emoções negativas e lados sombrios. Na verdade, ele está mentindo para você." Zuo Han disse o ponto mais crucial: "Quando você enlouqueceu no quarto, eu estava ao lado. Você queria destruir tudo no quarto, atacar os enfermeiros e pacientes que via, mas não me machucou de jeito nenhum!"
As palavras de Zuo Han despertaram o interesse de Chen Ge: "Continue."
"Sua segunda personalidade parece me conhecer! Nós já nos conhecíamos antes de entrar no hospital!" Zuo Han falou bem baixo, mas Chen Ge podia sentir sua empolgação: "Se for verdade, isso explica por que sinto que o mundo inteiro está contra mim, mas você é uma exceção! Ao mesmo tempo, isso prova que nossas memórias foram realmente adulteradas!"
Zuo Han era muito perspicaz e acertou em cheio o ponto crucial: "Nós somos a prova um do outro! Suas memórias passadas também não devem ser falsas; na verdade, o que o médico te disse é que é inventado."
Falando rápido, Zuo Han sabia que, se Chen Ge pensasse demais, sua cabeça doeria. Antes que Chen Ge desmaiasse de tanta dor, ele soltou tudo de uma vez: "Voltando ao problema fundamental: o médico disse que você ficou doente porque seus pais morreram. Mas você já pensou que talvez seus pais não tenham falecido? Eles ainda podem estar em algum lugar desta cidade!"