As estradas do planalto sempre fazem as montanhas parecerem desoladas, e à noite a temperatura cai vários graus de uma vez.
Lucille estava andando, mas, quando o frio apertou, não conseguiu evitar se aproximar um pouco mais de Shawn.
— Com frio? — Shawn perguntou a ela.
— Um pouco...
— O clima aqui é diferente do deserto, e ainda mais diferente do litoral. Se não se acostumar, use magia para manter a temperatura corporal — disse Shawn em voz baixa.
Na verdade, para os magos, muitas coisas podem se tornar simples, até mesmo na vida cotidiana fica muito mais fácil: se estiver frio, cria-se uma magia para manter a temperatura; se estiver calor, uma para reduzi-la.
Enfim, magos de alto nível são como seres superiores diante de qualquer um!
— Irmã Lucille, não está acostumada com o clima daqui? — Thor pareceu notar que Lucille não parava de se esfregar em Shawn e perguntou, quase sem pensar.
E Lucille assentiu com seriedade.
— Nunca estive no planalto, não estou acostumada com o clima daqui...
— Ha ha... Ninguém se acostuma ao chegar aqui, mas, com o tempo, você vai gostar deste lugar. Comparado ao litoral ou às planícies, aqui tem um ritmo de vida único, e a comida é bem variada.
Os lugares que fazem as pessoas quererem ficar geralmente oferecem prazeres simples, e a boa comida é uma parte importante disso.
Se a comida de um lugar é deliciosa, realmente pode ficar na memória por muito tempo.
— Senhor Thor, vocês costumam voltar ao planalto no dia a dia? — O céu escureceu, a temperatura começou a cair de novo, e, sem assunto durante o caminho, Shawn puxou conversa.
O outro franziu a testa ao ouvir, pensando.
Com uma expressão de lembrança...
— Na verdade, raramente. Não posso negar que os países ricos ao pé do planalto são muito atraentes. Comparado a eles, a região de Amasha é bem mais atrasada. Quem se acostuma a viver em grandes cidades geralmente não quer voltar, mas este é nosso lar, e voltamos uma vez por ano.
Durante a conversa, Shawn foi formando uma imagem dos dois irmãos em sua mente.
Eles nasceram no país de Shata e, por vários motivos, saíram de casa para batalhar, aprenderam algumas técnicas de combate básicas e gradualmente se tornaram usuários de habilidades, seguindo o caminho de caçadores de recompensas.
Depois, deixaram Shata e foram para países como Zantubar para aceitar missões...
Como mercenários, essa era a principal fonte de sustento: ou morriam em combate durante as missões, ou, enquanto não morressem, continuariam vivendo assim.
A maioria dos chamados contratados neste mundo vive dessa forma.
E por isso eles insistem em vir todos os anos em busca do dragão: encontrar a criatura é uma missão do governante de Shata. Se conseguirem, não só ganhariam uma recompensa alta, mas também poderiam mudar de status.
Sabemos como o status é importante para uma pessoa, especialmente para os comuns.
Se Shawn não tivesse tido a sorte de renascer em uma família nobre, sua vida inteira poderia ter sido diferente. Talvez ele tivesse se infiltrado em um grupo mercenário e brilhado, mas no fim seria alvo da alta cúpula do império. Lembro que, mesmo sendo conde, não escapei das acusações do Império de Bashalan, quanto mais da vida de um plebeu.
Se, após completar a missão do dragão, conseguisse um cargo ou ao menos o título de barão, já seria o suficiente para viver sem preocupações pelo resto da vida.
Os dois irmãos insistiam em vir todos os anos por esse sonho...
Os quatro desceram a montanha ao entardecer, e agora, quase anoitecendo, ainda caminhavam pela floresta.
As florestas do planalto são peculiares: subir ou descer a montanha significa apenas andar de um lado para o outro entre diferentes picos. Você vai de um ponto a outro, e o caminho é todo nu, sem nada para ver; há poucas florestas, a maioria é de grama e pedras.
— Já está tarde. Podemos acampar na campina perto do rio à frente. Se não me engano, há um bom lugar lá — disse Soren, que ia na frente.
— Está muito longe?
— Não muito. Depois de passar daqui, já dá para ver.
Nesse momento, os quatro acabavam de sair da floresta, como se estivessem em colinas irregulares. De repente, ao longe, no horizonte escuro, apareceram muitos pontos de luz.
— Olhem, é ali! — Soren apontou para a planície distante.
Era como uma clareira aberta no meio de um vale.
No planalto, há muitas montanhas nevadas; calcula-se que a maior parte dos rios do continente norte nasce daqui. Sempre que há um espaço que possa acumular água, quase sempre se encontra um rio.
Mas, na clareira à frente, não havia só rios, mas também muitas barracas.
— Parece que nossa suposição estava certa. Este ano também veio muita gente! — disse Soren.
— Será que todos estão indo atrás do dragão?
— É bem possível.
Os dois irmãos, afinal, só voltam a este lugar uma ou duas vezes por ano, e não conhecem bem a rotina local. Só sabem que este é um bom ponto para viajantes acamparem, porque, depois daqui, o caminho é todo de montanha, e só este lugar é ideal.
— Claro, também podem ser comerciantes viajantes. Mas, seja o que for, só precisamos cuidar da nossa parte.
O tempo era curto, e já estava escuro. Vendo que ainda havia uma distância a percorrer, os quatro apressaram o passo para descer.
Precisavam montar as barracas antes que escurecesse completamente.
Shawn e Lucille, sem conhecer a região, só podiam seguir os dois irmãos...
Descendo do morro, no centro do vale, uma área plana mostrava cerca de vinte pontos de luz, o que significava que pelo menos vinte grupos haviam escolhido acampar ali.
E todos tinham algo em comum: tentavam ficar o mais longe possível uns dos outros.
Dava para ver a luz das barracas alheias, mas não se aproximavam, nem ouviam o que os outros diziam...
Provavelmente, era uma forma de se proteger.
Os quatro escolheram um lugar e montaram as barracas às pressas.
— Parece que hoje vamos ter que fazer vigília em turnos. Com tanta gente, ninguém confia em ninguém!
— Sim.
— Então, eu e Thor ficamos na segunda metade da noite. Senhor Shawn, aguente a primeira parte. Quanto à irmã Lucille, pode descansar a noite toda.
Sendo a única mulher do grupo, e ainda jovem, até os irmãos Soren estavam dispostos a ceder.
— Como assim? Já que entrei no grupo, sou uma integrante. Eu e meu mentor ficamos na primeira metade da noite... — Lucille não cedeu.
— Confio na minha aluna. Vocês dois não precisam ser tão modestos, senão parece que não nos respeitam — disse Shawn.
Já que ele falou assim, os dois irmãos só puderam concordar com um aceno de cabeça.