Feche os olhos e deixe a mente esvaziar. Um breve instante parece durar uma eternidade... "Yog-Sothoth!" Sean chamou pelo nome do outro. Uma vez, duas vezes... E até mais. Chamou pelo nome do outro repetidamente. Desde o último encontro, Sean tomava cuidado com a odiosa habilidade de Yog-Sothoth, pois não importava o que fizesse, o outro já sabia, até mesmo o resultado e o processo. E, justamente, pela boca de Shub-Niggurath, a luta entre eles se intensificava, a ponto de, naquele instante, incontáveis conhecimentos e fragmentos serem novamente injetados em sua mente! "Sei que pode ouvir meu chamado. Apareça. Não precisamos nos esconder, não é?" Disse Sean. Mesmo com seus gritos, o outro não respondeu. Mas a cena diante dele já havia mudado! Na escuridão vazia, parecia surgir um feixe de luz, iluminando a poeira da nebulosa ao lado, como se estivesse em pé no chão olhando para o céu... E na luz, uma enorme sombra negra começou a se materializar. "Ha~ Precisa ser tão extravagante toda vez que aparece?" Zombou Sean. Mas sua visão começou a se aproximar rapidamente, como se estrelas e o universo se aproximassem sem parar, até que uma porta imponente se ergueu diante dele... Sua altura colossal fazia Sean parecer um grão de poeira diante dela, mas, por alguma razão, quando ele estendeu a mão para tocar a porta, ela se abriu. O abismo profundo do cosmos, um enorme pedestal de pedra onde estava sentado alguém idêntico a ele. Desta vez, o encontro não era mais através de sombras de luz e espadas, mas uma entidade real, e ainda por cima com sua própria aparência! "Desde quando você gosta de usar minha forma para se manifestar?" "É você mesmo se vendo!" Disse Yog. "Chega, não gosto dos seus enigmas... Me diga, o que foi aquilo? Por que aqueles fragmentos e cenas apareceram?" Perguntou Sean. Ele havia invocado Yog-Sothoth novamente durante o sono justamente para entender o que aconteceu. Toda vez que sabia de algo, o outro estava presente, e agora a informação veio diretamente, quase o enlouquecendo. Felizmente, o [Dom da Cabra Negra] permitiu que seu corpo se corrompesse a ponto de suportar aquela informação. "Não foi o fim que você viveu?" As palavras de Yog deixaram Sean sem resposta. Na verdade, desde a última vez que voltou à linha do tempo, ele refletira sobre todo o desenrolar dos eventos, especialmente sua relação com Lucille. Já que ele era o mentor dela, e a treinara desde pequena, e Lucille dissera mais de uma vez que o 'Sean' de antigamente a deixara quando ela era adolescente, por volta dos quinze ou dezesseis anos... E desde então, nunca mais teve notícias. E ele próprio havia partido do palácio de Kesselk na última vez. Ou seja, na linha do tempo, ainda havia ele viajando com Lucille, e as memórias posteriores estavam sendo transmitidas agora em fragmentos. "Isso não faz sentido. Eu não..." "Você não participou?" Yog interrompeu Sean. Olhar para um indivíduo idêntico a si mesmo falando era uma sensação indescritível, como falar diante de um espelho. Mas o outro era um ser independente... "O tempo é contínuo. O que você fez, não importa quantos anos passem, aparecerá em suas memórias..." "Mas." Sean não sabia como rebater. Esse conhecimento novamente ultrapassava sua compreensão, e era por isso que ele sempre evitava ao máximo os Deuses Antigos. Seu mundo já não era algo que um humano comum pudesse alcançar; tudo neles era um milagre diante dos humanos. Inexplicável, incompreensível. "Mas por que eu?" Dessa vez, a pergunta parecia já ter sido feita antes, mas Sean queria ouvir a resposta da própria boca do outro. "Você deveria me ver, Shub-Niggurath, o irmão que habita o espaço desordenado. Foi ela quem te remodelou, por isso você está mais próximo de nós." "Então tudo isso foi arranjado por você?" "Foi você quem se arranjou! Mesmo eu, que conheço o fim, não posso controlá-lo, especialmente o seu." Finalmente, Yog disse o que Sean sempre questionara ao longo dos anos. "Quem sou eu?" Ele perguntou novamente. "Um indivíduo de vida que se desprendeu deste universo." "E o que é o Grande Criador?" As palavras do outro fizeram Sean lembrar do que Shub mencionara antes sobre o Grande Criador. Será que sua travessia tinha algo a ver com aquilo? "Ninguém pode conhecer sua existência ou tudo sobre ele." "Quando ele retornará?" Yog não respondeu. Para Sean, o outro era relativamente sincero. Embora não soubesse se era verdade ou mentira, para um ser como Yog, não havia necessidade de enganá-lo, pois não faria sentido. Talvez o universo também tivesse pouco significado para ele... Quanto ao Criador, Sean queria ainda mais conhecê-lo. "Quero voltar." "Para onde?" "Para a linha do tempo que posso compreender... Com seu poder, você deve conseguir, afinal, tudo isso é você mesmo." "Saber tudo não significa necessariamente compreender. Às vezes, a verdade é algo que não se pode encarar." Parecia que ele estava falando consigo mesmo; a aparência do outro era a sua, e quando ele falava, Sean sentia um certo desconforto. "Mas já não tenho mais medo!" Estendeu a mão. Agora, com o poder do [Dom da Cabra Negra], Sean podia até usar essa força para se salvar em momentos críticos. "Vá encontrar os Antigos. Eles possuem o conhecimento que você deseja!" Yog nunca escondia nada de Sean. Talvez, como ele mesmo dissera, nem o tempo nem o espaço tinham significado para ele. Suas lutas eram em infinitos espaços-temporais, algo em que Sean jamais poderia interferir. Portanto, sua presença ou ausência afetava apenas aquela região, sendo uma gota no oceano do universo. "Os Antigos?" Sean lembrou dos dados que vira antes. "Onde estão agora?" "Já desapareceram nas eras, mas o conhecimento que deixaram ainda permanece." Assim que Yog terminou, Sean sentiu a cena diante dele tremer novamente. Como antes... Como um sonho, mas um sonho muito real. Seu corpo apareceu em um novo cenário... Um convés, brisa do mar... E ondas violentas do oceano. "Mestre, no que está pensando? Por que não fala mais comigo?" Uma voz familiar soava jovem. Quando Sean virou a cabeça para olhar ao lado, uma garota de uns quatorze ou quinze anos, esbelta, com duas longas tranças duplas, segurava sua mão e falava. Lucille nessa idade? O cabelo branco e o rosto ainda mais jovem... Não precisava adivinhar quem era!