Capítulo 654: Capítulo 654 A Chegada

Fronteira sudeste de Jagon.

Na pequena cidade já próxima de Deerport, o inverno chegou novamente.

Para os moradores costeiros que vivem da pesca o ano todo, isso não é uma boa notícia... Durante todo o inverno, os cardumes migram naturalmente para o sul. Se o tempo piorar a ponto de dificultar a saída para o mar, a renda de muitos dias pode ser afetada.

Os moradores comuns não têm economias suficientes para aguentar esse período. Talvez, por atrasar um ou dois dias, já fiquem um ou dois dias sem comida.

Essa sensação é terrível!

E o mais assustador é quando o tempo fica encoberto. Sair para o mar já vira um problema, quanto mais qualquer outra coisa.

Nessas horas, os pescadores também não têm jeito. Em vez de ficar em casa aturando as reclamações das esposas, é melhor passar o dia inteiro no bar, mesmo que seja para passar a noite. Pelo menos, voltando bêbado, não se ouve aquelas palavras...

A chuva fina começa a se espalhar pela linha da costa.

Para Soren, que passou metade da vida administrando o bar, tudo ali já é familiar. Ele consegue até prever, só de olhar o tempo, se vai ter movimento hoje. Vendo o clima de hoje, já sabe que muitos clientes vão ficar até tarde.

Ele olha para os copos arrumados atrás...

Provavelmente vai ter que pegar aqueles que não usa com frequência. Dá para usar todos eles agora!

Logo, o primeiro cliente aparece.

Soren levanta a cabeça...

Velho conhecido.

"O tempo está ruim hoje, espero que não tenha estragado seu humor." Soren sorri e coloca um copo na mesa primeiro.

Na cidadezinha à beira-mar, quem fica tempo suficiente acaba conhecendo todo mundo. Soren já sabe de cor o tipo de bebida que cada um prefere. Primeiro, serve meia taça para o homem, mas percebe que o semblante do sujeito à sua frente ainda não está nada bom.

"Já estragou faz tempo!" O homem toma um gole seco e bate na mesa com raiva.

Isso também já estava nos planos de Soren. Por isso, desde o início, ele usou copos de madeira!

"Parece que seu humor está realmente péssimo hoje, meu velho amigo." Serve mais meia taça.

O homem toma de novo de uma vez.

Só no quarto copo, quando o álcool começa a subir ao nariz, é que o homem desacelera.

Ele olha para o cenário à sua frente, tudo começa a ficar turvo...

"Escuta aqui, irmão Soren. Esse cheiro do teu bar continua horrível!" Depois de alguns copos, o homem finalmente se anima para falar de outros assuntos.

Ainda é cedo, e como o bar está vazio, os dois têm tempo para conversar devagar.

"Sempre foi assim, deixa eu adivinhar... Hoje você foi posto para fora de casa pela cunhada de novo, não foi?"

"Hum, aquela velha. Já devia ter ouvido minha irmã e posto ela para fora há muito tempo! Esses anos todos, come da minha comida, mora na minha casa, e ainda vive reclamando disso e daquilo... E ainda quer comprar uma casa na cidade para fazer negócio. Arre!" Ao ouvir Soren falar da esposa, o homem fica ainda mais furioso.

"A cunhada parece ser uma pessoa boa, não parece ser dessas que reclamam tanto."

Soren larga o copo que estava limpando e fica de olho na bebida na mão do outro.

Já deu...

Nesse ponto já está bom. O resto de um copo dá para ele ir bebendo devagar até a noite. Senão, vai acabar como da outra vez, devendo dinheiro da bebida sem conseguir pagar.

"Isso é só o que vocês veem. Essa criatura é especialista em se disfarçar, se vestindo como uma dama da alta sociedade. Andando assim... assim..."

O homem começa a imitar de forma cômica, contorcendo o corpo, até que no final não consegue segurar o riso.

"Ela não tem esse destino!"

"Ah é?"

Soren propositalmente coloca a bebida para trás. Só vai servir de novo se o homem pagar. O consumo normal de uma pessoa são esses três ou quatro copos. Mais que isso, já fica bêbado, e aí não tem quem tire.

"Irmão Soren, por que não está servindo mais?" O homem apressa.

"O tempo está ruim ultimamente, as estradas estão todas interditadas. O comerciante que trazia bebida da cidade não vem há muito tempo. As que eu mesmo fiz também estão quase no fim." Soren arranja uma desculpa qualquer.

Nesse momento, outra pessoa entra pela porta do bar!

Outro velho conhecido.

"Há quanto tempo, irmão Soren."

"Há quanto tempo, mesmo."

Os dois se cumprimentam. Até o homem já bêbado sentado no balcão cumprimenta o recém-chegado...

A cidade é realmente pequena, fazendo com que muitos se conheçam.

"O que tem feito ultimamente?"

"Ainda naquela de pescar mariscos. Não entra nada... Esse tempo infernal está enlouquecendo a gente!" O homem recém-chegado senta e diz.

Primeiro, paga.

Essa é a regra para a maioria dos clientes: só paga quem bebe. Normalmente, só o primeiro cliente é exceção. Por isso, muitos gostam de chegar cedo, mas sempre tem alguém mais cedo ainda!

"Esse tempo realmente não é amigável. Que o deus Sol nos proteja e garanta uma colheita farta neste inverno difícil." Soren também imita o gesto de oração do outro.

"Falando nisso, vocês ouviram falar das coisas do lado leste ultimamente?"

O homem recém-chegado muda de assunto de repente.

Nessa cidade isolada, com estradas ruins, a maioria das pessoas passa a vida inteira presa nos arredores, em algumas vilas. Muitas notícias só chegam através de comerciantes de passagem ou mercenários que aparecem.

"Que coisas?"

Soren e o homem bêbado se aproximam.

"É sobre o aparecimento de fantasmas na costa leste. Muito estranho!"

"Fantasmas?"

"Isso mesmo, fantasmas. Aquelas criaturas malignas que os bardos vivem cantando por aí." O homem fala de forma misteriosa, deixando os dois ainda mais curiosos.

"No leste?"

"No leste, sim. Dizem que muita gente viu seus parentes que morreram no mar voltando. Foram atrás, mas não tinha nada. Eles se afundaram no mar e desapareceram completamente."

"Que estranho!"

"E não é só isso. O que ouvi é bem mais grave. Dizem que em muitos lugares estão acontecendo coisas parecidas. Quando há neblina e chuva, aparecem fantasmas por todo o mar."

Os três se aproximam...

Com esse tempo chuvoso e escuro, ouvir isso dá até um arrepio na espinha.

Falando nisso...

Agora mesmo está com neblina e chuva.

"Ha ha ha... Apesar de ser verdade, acontece no leste. Não precisa se preocupar tanto." Vendo a expressão dos dois, o homem não consegue segurar o riso.

A cidade sempre foi pacífica. Especialmente as cidades costeiras de Jagon, ninguém ousa mexer com elas. A vida aqui é tranquila e despreocupada. Qualquer coisa de fora é só para ouvir como história. De qualquer forma, não vai chegar até aqui!

Os dois continuam bebendo, e Soren ajuda a servir mais...

Aos poucos, o bar vai enchendo.

Afinal, é dia de chuva. Não dá para ir ao mar. Muitos pescadores escolhem vir aqui para passar o tempo.

Só que, depois de ouvir a história, Soren sente uma inquietação no fundo do coração...

À noite, no horizonte da costa, aparece sempre uma luz verde brilhante, que incomoda.

Da noite até a madrugada,

Muita gente entra e sai do bar. Soren, na correria, acaba esquecendo essas preocupações.

Mas, nesse momento, um grito vindo da cidade chega de longe.

"Piorou! Na praia... Na praia, alguém desapareceu!!!"