— "Ouvi dizer que ultimamente os piratas aumentaram no mar..." — "Bem, eles sempre estão por aí. Logo chega a estação das chuvas, e poucos saem para o mar; eles vão aproveitar para caçar nesse período. Encontrá-los é uma encrenca." — "Ah..." Após aquele incidente, os outros na estalagem finalmente começaram a comer e descansar normalmente, e, quando não tinham o que fazer, conversavam sobre coisas de várias regiões. Assim como da primeira vez que Sean saiu da cidadezinha. Não importa a época, esse hábito passado de geração em geração não muda muito; lugares onde comerciantes se reúnem são os melhores para obter informações. Sean estava sentado num canto, ouvindo todas as notícias que traziam... Por causa do ocorrido, muitos perceberam que ele era alguém rico, e vários comerciantes de navios, caravanas e até mercenários tentaram se aproximar dele. Mas, ao perguntarem sobre sua origem, ele só dizia que vinha de Jaggon. — Jaggon? Dizem que aquela terra mudou muito nos últimos anos. — Mudou mesmo! — Ouvi dizer que, depois que a Rainha Ayla retomou o trono, ela fez uma série de reformas. Ela e o irmão dela, que passaram a infância vagando por aí, viram a situação de muitos países, e, ao voltar, implementaram mudanças em todo o reino — disse um mercenário curioso. Sean percebeu que, naquela época, havia muitos rumores sobre Jaggon, principalmente por causa de sua mãe... Nos governos históricos do deserto, raramente havia exemplos de mulheres no poder, por isso a rainha de Jaggon era sempre mencionada. Pelo que ele sabia, sua mãe e o posterior Rei Sol eram originalmente membros da realeza, expulsos do palácio devido a uma revolta interna em Jaggon, e os rebeldes governaram o país por muito tempo. Só quando a notícia de que a linhagem real ainda existia se espalhou, os generais oprimidos se levantaram e retomaram o poder. Naquela época, sua mãe tinha apenas uns dezesseis anos! Era uma lenda. Mesmo entre todas as histórias que Sean conhecia, exemplos assim eram raríssimos. Além das notícias de Jaggon, outra coisa que Sean queria saber era sobre seu alvo... Não podia perguntar diretamente se alguém conhecia Nyarlathotep; o nome de um deus antigo, ao ser dito, eles o saberiam. Ele estava num redemoinho temporal. Se a Sociedade dos Magos surgiria nos próximos vinte anos, naquele ponto ela deveria estar no início. Atacar pelos fundadores poderia ser mais fácil. Então, Sean começou a perguntar às pessoas que se aproximavam sobre assuntos relacionados a magos, especialmente lendas misteriosas... Sobre investigadores ou arqueólogos. Ele achava que só essas duas profissões estavam naturalmente ligadas aos deuses antigos. — Senhor Sean, se interessa por histórias de magos? Eu já ouvi algumas no mar... vindas de países do sul. Eles sempre falam de uma cidade antiga no fundo do oceano gelado, onde dormem deuses ancestrais, etc. — Vindas do sul? — Sean perguntou apressadamente. Não era a lenda da cidade submarina? Pessoas comuns não saberiam disso, e a tecnologia daquele mundo não conseguia explorar as profundezas do oceano. Quem falava assim provavelmente era a fonte da confusão. — É, do sul. No continente sul, antes havia muitas. Eu vi alguns deles há alguns meses. — Eles? — Uma organização chamada Irmandade do Faraó Negro. Não parece um grupo de magos, mas eles sempre espalham doutrinas parecidas. Como os alquimistas dominam o sul, eles gostam de ouvir essas histórias, então ninguém se importa. — É, tem muitos mesmo! — disse outro. Sul... Sean pensou. Parecia que ele teria que viajar para o continente sul. Depois de comer, Sean pegou um pouco de carne salgada e legumes para ver a garotinha que tinha resgatado. Talvez fosse melhor dar um dinheiro a ela e deixá-la se virar. Uma menina pequena, com um pouco de talento mágico... Ser vendida assim era uma pena. Mas, naquela região cheia de gente de todo tipo, dar dinheiro sozinho não adiantava! Quando a comprou, não pensou muito, mas agora, prestes a ir para o continente sul, Sean achava que ter uma garotinha por perto seria um estorvo. Parou na porta. Respirou fundo... — Você deve estar com fome. Abriu a porta. O quarto estava vazio. A janela aberta lembrava que a pestinha já tinha fugido! As roupas que estavam na cama também tinham sumido, e a pia no cômodo interno tinha marcas de uso, mas ninguém. Puta merda! A menina fugiu? Sean deu uma volta pelo quarto... Tudo que podia ser levado — roupas, os frascos de poção na mesa — tinha sumido, até os utensílios de chá um pouco valiosos da estalagem. Eu... Correu até a janela e olhou ao redor. Já estava escurecendo, não dava para ver nada. Maldita pestinha! Sean nunca imaginou que um dia seria enganado por uma criança... — Se tiver coragem, não me apareça de novo, senão te mato de porrada! — gritou para a escuridão. Acalmou-se e pensou com cuidado. As características que a menina mostrava — desconfiança de estranhos e preferência por agir sozinha — pareciam verdadeiras. O que a visão mostrava era mais real do que a aparência. Que desgraça. Meus 1500 moedas de ouro! Embora aquele dinheiro não significasse muito para Sean — ele podia tirar uma joia do pulso ou do anel e conseguir milhares de moedas, e antes de sair, Illya tinha lhe dado uma boa quantia, além das roupas que valiam algumas centenas — não dava para gastar assim à toa. Ficou remoendo a raiva... Mas, no dia seguinte, ele planejava ir ao cais encontrar um barco para partir. Quanto à menina, que se dane. Ah... A culpa era sua por não ter um mapa da região; senão, teria usado para procurá-la, mesmo que fosse de noite, só para dar uma surra na pestinha. .................. Na manhã seguinte, Sean ainda não viu a menina aparecer. Ao sair da estalagem, várias pessoas o cumprimentaram. — Ah, Senhor Sean, você não comprou uma menina ontem? Cadê ela? A generosidade do dia anterior tinha deixado uma forte impressão no dono da estalagem. — Heh — Sean só sorriu para ele, sem vontade de responder. — Como assim? Sumiu? O dono, que já tinha visto de tudo, pareceu adivinhar algo ao ver a expressão de Sean... Aproximou-se um pouco. — Senhor, na verdade, ontem eu queria avisar. Ouvi dizer que alguns malandros usam crianças para fazer teatro, enganando pessoas importantes como o senhor, que têm compaixão! Cuidado! Ainda tinha golpe da compaixão! — Muito obrigado — Sean olhou para ele com desprezo. Se houvesse problema, ele já teria percebido. Na verdade, a fuga da menina já estava dentro de suas expectativas. Por isso, ontem ele tinha avisado que aquela área era dominada pela gangue dos camelos. Só não esperava que uma garotinha de cinco ou seis anos tivesse tanta determinação, fugindo assim. Saiu da estalagem, encontrou um navio de carga que ia para o continente sul e negociou o preço. Antes de partir, virou-se para olhar aquela cidadezinha mencionada em tantas histórias. Levantou o dedo do meio. Lugar de merda.