— Que porra você tá falando? Eu tô bem aqui na sua frente!
Sean só podia encarar aquele velho cuspindo essas merdas na cara dele, mas não tinha como rebater direito... Aos olhos dos outros, tudo que acontecia num feudo era culpa ou mérito do senhor feudal. E era verdade mesmo: sem as decisões do lorde local, os moradores não iam fazer nada tão fora do normal.
E agora Sean não tinha chance de perguntar ao antigo Barão de Weigel por que ele insistia em manter a vila independente, porque, pelos manuscritos e objetos que arrumou depois, ele percebeu que o tal "pai" dele queria, sim, se conectar com o mundo exterior. Senão, por que gostar tanto de pintura? Numa vila criada sob aquela educação, quem ia apreciar pintura? Claramente era uma tentativa de se comunicar com outros nobres... Mas, sei lá por quê, ele nunca conseguiu sair daquela vila de verdade, e até hoje a casa guardava um monte de quadros no depósito.
Talvez vendo a cara fechada de Sean, o velho cocheiro deu um jeito de aliviar o clima:
— O Barão de Weigel atual não tá ruim, não. Dizem que é um herdeiro jovem, com bom olho!
— Isso eu ouvi falar. Contam que, naquela nevasca em Tylermian, foi o próprio lorde Weigel que liderou o resgate e pediu ajuda a Cogar City. A história se espalhou toda, e ele ganhou uma boa fama em vários lugares. — O homem coçou a barba no queixo, falando.
Hã?
Sean não esperava que um lorde de uma vila tão isolada como ele pudesse ficar famoso por aí!
Que surpresa.
De repente, lembrou que o cara tinha usado a palavra "Vila na Floresta" quando falou da situação em Tylermian...
Ah, entendi!
Só então Sean entendeu a história toda por trás disso.
Não é à toa que o Conde Hamilton foi tão generoso, dando tudo aquilo de uma vez: não só suprimentos de resgate, mas também cem mil moedas de ouro, um monte de comida, etc. Tudo isso tinha um propósito.
Tylermian sempre foi conhecida por ser fechada entre os feudos nobres vizinhos. De repente, um desastre acontece e eles pedem ajuda a Cogar City — isso ia se espalhar rápido, então o Conde Hamilton com certeza ia ajudar.
E agora, isso não só trouxe uma boa reputação pra ele, mas o conde generoso também devia estar recebendo os mesmos elogios, né?
Na época, isso coincidiu com a seleção do herdeiro do condado, então Sean não tinha pensado nessa camada. Mais importante, se ele não saísse pra dar uma volta, nunca saberia que a vila era tão observada na região.
Provavelmente, a Alícia também não sabia dos planos da família na época, por isso ajudou sem hesitar, e ele não viu nenhum sinal diferente nela... Depois que voltou, deve ter sido orientada por alguém.
Então, o assunto morreu por aí.
Isso explicava por que, depois que ela voltou por um tempo, a rota comercial da vila ficou mais vazia.
Ela já tinha o apoio dele, e o conde já tinha alcançado o objetivo, não precisava mais bancar a vila de Tylermian.
Quanto à criação do sindicato dos mercenários e do mercado comercial, foi só cumprir a promessa de então, pra que ele não pudesse reclamar que os Hamilton tinham voltado atrás.
Hmm...
Cada um tirava o que queria.
Sean não tinha motivo pra reclamar deles, mas era grato por ter saído.
Senão, talvez nunca soubesse como era o mundo lá fora...
Sean seguiu a caravana e comeu uma refeição rápida na pousada. A carne ali era de um tipo de ave que ele nunca tinha provado na vila, com uma textura especial.
Enquanto comia, Sean observava as pessoas ao redor.
Quem falava estava em "Conversando!", quem sentava sozinho estava quase todo em "Ouvindo com atenção!", incluindo aquela mulher Edak forte.
Parece que o velho cocheiro tinha razão: esse lugar era ótimo pra trocar informações. Quase todos os condutores de caravanas trocavam notícias de várias regiões aqui, e depois essas informações se espalhavam com eles para todo lado, até chegar ao povo pela boca dos comerciantes...
Esse devia ser o jeito mais comum de espalhar fofoca nesse mundo, né?
Depois de comer, Sean pegou um quarto só pra ele descansar...
Originalmente, a caravana ia dividir quartos pra economizar, mas Sean, esse nobre capitalista do mal, não aceitou e escolheu um quarto só.
Assim era mais silencioso, sem ninguém incomodando!
E o principal: dava pra estudar o grimório que Lucille tinha dado a ele.
Antes, em casa, Sean nunca tinha aberto pra estudar... É que de dia ele tava ocupado, e de noite, depois de praticar um pouco de magia, já tava com muito sono.
Sempre adiava, pensando "amanhã eu leio", e até agora não tinha aberto!
Mas o que aconteceu hoje fez Sean reconsiderar o propósito da viagem. Embora existam acordos entre nobres, esses acordos também dependem da força de cada um.
No momento, ele não tinha capacidade de negociar com o Conde de Cogar City.
Por enquanto, Alícia Hamilton ainda cumpria as obrigações de então; pelo menos até ela conseguir a herança, Sean achava que a vila dele ainda receberia alguns benefícios.
Mas se ela vencesse ou perdesse, era difícil dizer se esse apoio continuaria.
Então, ele precisava aumentar o "peso" do lado dele.
Deixar o desenvolvimento com Luke, e ele mesmo precisava ter força pra enfrentar os desafios que podiam vir da Sociedade dos Magos.
Desde o dia em que enterrou Bachler, Sean nunca esqueceu disso...
Acendeu as velas no quarto,
Abriu o grimório.
Era um manuscrito, com a letra meio bagunçada, mas nas curvas das palavras tinha um charme, parecia coisa de mulher, ou talvez da própria Lucille.
O grimório dela dividia as magias em várias categorias: combate, suporte, poções, invocação e outras magias raras.
Magias raras eram coisas especiais, como feitiçaria, necromancia, etc.
Algumas eram só um feitiço com anotações extras, então tudo que não se encaixava ia pra essa categoria.
Depois de folhear algumas páginas, Sean achou que essas magias não ajudavam muito ele... Tirando as receitas de poções e os desenhos de círculos mágicos, que podiam ser úteis, o resto parecia inútil.
Porque, no entendimento dele, lançar magia dependia de imaginação e prática; se a proficiência dele aumentasse, essas magias deviam sair naturalmente.
Mas Sean decidiu tentar mesmo assim...
Pra ver qual era a diferença entre a magia que ele entendia e a comum desse mundo.
Ele abriu a parte de invocação, que tinha poucas magias, fáceis de ler.
Encontrou uma chamada "Visão Mental".
Não era a mesma que Lucille usava nos corvos dela?!
Até agora, ele tinha visto poucas magias, mas "Visão Mental" era uma que marcou muito.
Ele abriu a janela. A estrada já tava escura como breu.
A única luz era da pousada onde ele tava e das casas ao redor. Na estrada, a mais de dez metros, não dava pra ver nada, mas dava pra ouvir grilos e bichos.
Sean achou que deviam ser corujas ou aves noturnas.
Escuro demais, nem dava pra ver a vida dos bichos, mas o alvo do feitiço dava pra localizar pelo som...
Apontou pra aquela página, meio sem jeito, e leu as palavras em voz alta.
Se uma pessoa comum lesse esses encantamentos, não ia dar em nada, mas ele já tinha aberto o talento mágico, tinha proficiência, então sentiu o efeito ao lançar.
De repente, Sean notou que, na parte de baixo da visão dele, um pouco acima do livro, apareceu uma barra verde.
Barra de carregamento~
Ele também começou a ter barra de carregamento!
Na magia, aparecia "Visão Mental~" e depois um tempo de liberação de uns cinco segundos. Como a barra já tinha enchido, Sean achou que tinha funcionado.
Mas ele não sentiu nada de especial.
Será que tava tão escuro que ele não viu a mensagem de "magia sem efeito"?
No entanto, quando Sean fechou os olhos e tentou abrir de novo, a visão dele mudou completamente.
Era como se ele estivesse em pé no tronco de uma árvore do outro lado...
E de frente pra ele mesmo, a dezenas de metros de distância, parado na janela!!