Capítulo 75: Capítulo 75 Gastronomia e Beleza (3/4)

Já que Murphy vai vir, Yang Yi não tem mais vontade de abrir a loja, afinal, só aparecem alguns clientes por dia. Então, ele cedo tirou a placa, fechou a porta e subiu.

Yang Yi sabia que Murphy estava tão ocupada nos últimos dois meses que nem comia direito, e seu apetite não estava lá essas coisas. Por isso, ele não pretendia preparar qualquer prato só para cumprir tabela.

Quando Murphy chegou em casa com Xixi, Yang Yi já estava de avental, segurando uma espátula na cozinha, todo atarefado!

— Cadê a Xiaojuan? — perguntou Yang Yi, surpreso.

Murphy franziu os lábios e respondeu, meio irritada: — Só nós duas. Achou que todo mundo ia querer apreciar sua culinária? A Xiaojuan tem um encontro, não sei que galã arrebatou o coração dela!

Essa mulher, diante de Yang Yi, parecia estar aos poucos baixando a guarda. Cada sorriso, cada olhar, transbordava charme, nada mais daquela expressão fria de antes.

— Papai, que cheiro gostoso! — Xixi, impaciente, tirou as botinhas de couro, calçou os chinelos e foi na frente. Ao chegar ao segundo andar, fungou como um cachorrinho, os olhos brilhando. — Já vamos jantar?

Yang Yi pegou a bolsa de Murphy e veio por último, rindo: — Ainda não, tem que esperar mais um pouco. O sabor precisa de mais um tempinho!

Mas, mal Yang Yi entrou na cozinha por alguns minutos, já saiu com uma bandeja de morangos cobertos de gelo. Os morangos vermelhos e vivos deixaram Murphy e Xixi com água na boca, mas o miolo estava oco, com algo branco lá dentro, o que as deixou curiosas.

— O que é isso? — Murphy não resistiu a perguntar.

— Isso se chama morango gelado com leite condensado! — Yang Yi sorriu levemente. — Escolhi esses morangos grandes, cortei a ponta, tirei o miolo, coloquei leite condensado dentro e congelei na geladeira. É uma sobremesa pré-jantar totalmente natural e artesanal. Experimentem!

Yang Yi deixou a bandeja e voltou para a cozinha, mas atrás dele, os dois pares de olhos já brilhavam, e eles não se seguraram e começaram a comer.

— Ai, que gelado! — a voz saiu meio enrolada.

— Gostoso, muito gostoso! — Xixi fungava, mas gritava de alegria.

— Azedinho e docinho! — a voz de Murphy, feliz como a de uma criança que não cresceu.

Yang Yi, na cozinha, ouvia tudo meio abafado e não pôde deixar de sorrir.

...

Finalmente, chegou a hora da refeição. Enquanto Murphy e Xixi olhavam com desejo para a mesa cheia de pratos, Yang Yi serviu para elas o mingau que ele mesmo preparou com cuidado.

— O que é isso? — Murphy se deu conta, olhando para o mingau macio e desfeito, com ingredientes amarelos, pretos, rosados e coloridos, e perguntou confusa.

— É mingau de grãos variados — explicou Yang Yi. — Tem abóbora, feijão-preto, arroz glutinoso, arroz comum, milho-miúdo e amendoim, tudo cozido até desmanchar, derrete na boca, ótimo para o estômago!

Xixi já tinha pegado uma colherzinha escondida e dado uma provadinha, pegando justo o amendoim que ela adorava. A pequena piscou os olhos grandes e disse, radiante: — Gostoso!

— Xixi! Não pode ser tão mal-educada. Espere seu pai sentar, aí todo mundo começa! — Murphy, que valorizava muito a etiqueta, logo franziu a testa e a repreendeu.

Xixi teve que colocar as mãozinhas nos joelhos e se sentar direitinho. Mas seus olhos riam, e ela fez uma careta para o pai, mostrando a língua, como se estivesse reclamando da rigidez da mãe.

Yang Yi sorriu, sem se importar, e continuou explicando, mas de forma mais resumida, porque Xixi já estava morrendo de vontade de comer logo!

— O tema desta refeição é "comer com gosto". Para comer bem, primeiro tem que abrir o apetite. Então, não posso deixar de recomendar este prato de lula agridoce. É uma versão do porco agridoce, mas com lula, que é mais elástica e mastigável!

— Este é o tofu recheado vegetariano. Parece tofu comum, mas por dentro tem recheio de cenoura e cogumelo picados!

— Estas são as asinhas de frango com refrigerante que a Xixi mais gosta. Só fritei levemente no óleo, não faz mal para a saúde.

— Este é...

Finalmente, Yang Yi terminou de falar, e a rainha deu um aceno satisfeito, balançou os hashis e ordenou com elegância: — Podem comer!

Xixi já estava babando de vontade, e ao ouvir isso, começou a pegar a colherzinha com alegria, saboreando o mingau.

— Gostoso! Doce, a Xixi adora! — Xixi, provavelmente por ter pegado abóbora, falou meio enrolada. — Muito melhor do que o da tia!

Murphy disse, séria: — Não se fala enquanto come, Yang Xiaoxi, quantas vezes a mamãe precisa falar?

Yang Yi serviu uma asinha de frango com refrigerante para a filha, colocando no pratinho na frente dela, e aconselhou: — Não tem problema, é só uma refeição, que mal tem conversar?

— Claro que tem. Xixi é menina, não pode ficar falando com a boca cheia igual a esses homens por aí! — Murphy não gostou, largou os hashis e rebateu séria.

Pronto, se fosse para brigar, nem dava para comer. Yang Yi calou a boca na hora, só ficou servindo comida para elas. Xixi era pequena e não conseguia se levantar para pegar, então Yang Yi fez o que Murphy faria, e de quebra, serviu para Murphy o tofu macio e a lula agridoce...

Murphy, na verdade, não estava acostumada a que outros lhe servissem comida. Criada para ser independente desde pequena, ela até resistia a gentilezas alheias.

Mas desta vez era diferente, era Yang Yi servindo para ela.

Não sei por quê, uma sensação muito estranha a envolvia.

Era aconchego? Era felicidade? Ou o quê? Murphy não sabia explicar.

Então, hesitou, mas não recusou.

"Na verdade... é porque a comida dele é muito gostosa!" Murphy arranjou uma desculpa para si mesma. "Senão, não ia dar essa moral para ele!"

A comida de Yang Yi, claro, era perfeita em cor, aroma e sabor. Murphy e Xixi comeram tanto que ficaram empanturradas, sentadas na cadeira sem querer se mexer. No fim, Yang Yi lavou a louça e sugeriu: — Vamos dar uma volta no dique?

— Não, não vou — Murphy balançou a cabeça.

— Que tem? Agora é noite, no dique não tem ninguém, e o vento é gostoso — insistiu Yang Yi. — Sai para espairecer, depois eu te levo de carro para casa.

Xixi se animou, levantou os braços bem alto para chamar a atenção do pai e gritou: — Eu também vou, eu também vou!

— Então tá... — Murphy hesitou, mas concordou.

A brisa noturna soprava do Grande Canal, e no dique escuro apareceram três vultos: dois grandes e um pequeno. Yang Yi ia atrás, cuidando das duas na frente. Xixi pulava na frente, mas a mãozinha estava segura por Murphy.

O dique era bem largo e tinha uma grade de proteção mais alta, mas Murphy ainda assim não ficava tranquila.

Na verdade, era a primeira vez que Yang Yi e Murphy saíam para caminhar juntos. Se não fosse pela Xixi, a palhacinha que não parava de rir, o clima poderia ter sido meio estranho.

Mesmo assim, Murphy e Yang Yi não sabiam como conversar. Silêncio, e mais silêncio.

Foi Yang Yi quem quebrou o silêncio: — Gosto muito da sua música "Amantes como Estranhos".

Na escuridão, a água do Grande Canal batia suavemente no dique, num som que acalmava. Murphy virou o rosto e, na penumbra, viu os olhos brilhantes de Yang Yi.

Como se houvesse uma conexão, a voz de Murphy também saiu suave: — Quer que eu cante para você agora?

— Mas não tem acompanhamento — lamentou Yang Yi.

— "Noite fria de tinta... não molha meu coração / Como este velho caminho... espero em vão quem virá / Nunca se apaga, a marca profunda do amor..." — a voz etérea de Murphy, com sua própria melodia, já começava a cantar baixinho.

Yang Yi calou a boca e ouviu em silêncio.

Xixi, que adorava ouvir a mãe cantar, também parou de fazer travessuras, seguindo o passo da mãe, como se acompanhasse o ritmo.

"... Este caminho, você disse, é meio escuro / Mas não quer me dar companhia / O cuidado virou indiferença / Só posso carregar a tristeza sozinha..."

A voz de Murphy, triste e cansada, era como um vinho tinto que embriaga sem intoxicar. Yang Yi se deixou levar.

Ele olhava fixamente para a silhueta de Murphy na escuridão. Aquela mulher serena e bela, como uma orquídea no vale vazio, despertava compaixão. Ele não pôde evitar divagar...

Amantes como estranhos. Então, que caminho os dois estavam trilhando agora?