Depois de levar duas pauladas e um chute, Liu Changhai perdeu toda a arrogância na hora. Mas os que estavam atrás dele, nenhum ousou avançar para ajudar. Ninguém esperava que Liu Tiezhu tivesse coragem de atacar. E ainda por cima com tanta força, como se quisesse tirar a vida de Liu Changhai. "Cachorro, bate nele! Hoje eu não tô nem aí pra minha vida, vou acabar com esses filhos da puta todos!" Liu Tiezhu gritou e deu mais um chute na barriga de Liu Changhai. Er Gouzi também não se acovardou, avançou na multidão e começou a girar o bastão de madeira. A multidão se dispersou em pânico, e em poucos minutos sumiu sem deixar vestígios. O objetivo deles ao vir era só extorquir um pouco de carne da casa de Liu Tiezhu. Fazer eles enfrentarem dois loucos como Liu Tiezhu e Er Gouzi de frente, isso eles não tinham coragem. Liu Changhai ficou verde de raiva, não esperava que esses caras tivessem pau mas não tivesse coragem. Mal começou, e já sumiram sem rastro, deixando só ele, um velho osso. "P... para, para de bater, se continuar vou morrer." Liu Changhai segurou a barriga, implorando com dor. Liu Tiezhu puxou Liu Changhai para cima. "Qual filho da puta te disse que eu tenho milhares de quilos de carne em casa?" "Se você não falar hoje, vai ver se eu não corto seu pau fora." "Foi... foi Liu Haifeng..." Liu Changhai revirou os olhos e logo jogou a culpa em Liu Haifeng. "Porra, então era esse filho da puta mesmo." Er Gouzi xingou alto, pegou o bastão e virou para sair. "Er Gouzi, volta." Liu Tiezhu parou Er Gouzi e jogou Liu Changhai para longe. "Cai fora daqui, se aparecer de novo enchendo o saco, da próxima vez não vai ser só paulada." Liu Changhai ficou com o pau mole de medo, saiu rastejando e correndo, ligeiro que só. "Irmão Tiezhu, vamos deixar esse filho da puta do Liu Haifeng assim?" Er Gouzi disse com raiva. "Deixar ele?" Liu Tiezhu ficou com o olhar frio: "Esse filho da puta trouxe essa encrenca enorme pra nossa casa, não dá pra deixar ele assim." "Então por que você me segurou? Vamos agora acabar com esse desgraçado." Liu Tiezhu disse: "Qual é a pressa? Tem que usar a cabeça." "Ainda não é hora de mexer com aquele filho da puta, vamos hoje à noite." "Agora guarda sua força pra cavar terra." O tio disse: "Er Gouzi, obedece o Tiezhu, capricha no novo porão." "Agora que esses vizinhos sabem que a gente tem carne, eles não vão deixar barato." De dia esses caras não ousam roubar na cara dura, mas à noite é outra história. Além disso, se o boato da carne vazar, vai atrair a cobiça de outras vilas. "Esse filho da puta do Liu Haifeng, ontem à noite eu devia ter quebrado a perna daquele desgraçado." O tio ficou mais irritado quanto mais pensava, e no fim não segurou o xingamento. Liu Tiezhu disse: "Tio, não esquenta, a notícia da nossa carne ia vazar mais cedo ou mais tarde." "Agora que vazou antes, não é de todo ruim, pelo menos temos tempo pra nos preparar." "Se esses caras ousarem entrar pra roubar, vou fazer eles aprenderem que a carne da nossa casa não é fácil de pegar." O tio ficou surpreso e perguntou: "Tiezhu, o que você tá pensando?" Liu Tiezhu disse: "Vou armar umas armadilhas ao redor do muro do pátio." "Se esses filhos da puta ousarem pular o muro, vou fazer eles se arrependerem." O tio pensou um pouco e disse: "Tiezhu, pode armar armadilhas, mas não pode matar ninguém." "Fica tranquilo, é só pra dar uma lição." Liu Tiezhu disse. Armar armadilhas que machucam era moleza pra ele. Os bambus do bosque eram a matéria-prima perfeita para as armadilhas, e ainda sem muito esforço. Decidido, Liu Tiezhu pegou o facão e foi para o bosque de bambu. O tio e os outros ficaram para começar a cavar o novo porão. Ao meio-dia, Liu Tiezhu voltou carregando um feixe de bambus. Esses bambus tinham dois metros de comprimento, todos velhos e bem flexíveis. Huang Xiumei e Yang Yulan nessa hora já tinham preparado o almoço. As duas chamaram os homens para parar o trabalho e comer. Depois do almoço, o tio e os outros continuaram cavando. Liu Tiezhu pegou os bambus e foi até o muro. Primeiro, pregou pregos na parede para servir de suporte das armadilhas. Depois, usou corda de tendão de boi branca para amarrar uma ponta do bambu, curvando a outra ponta de volta, e no meio conectou um mecanismo de trava. Esse tipo de armadilha funcionava como uma armadilha de pesca automática, mas Liu Tiezhu mudou o princípio vertical para horizontal. Se um ladrão pulasse do muro e tocasse na corda de tendão, a trava soltava e o bambu fixado batia com força. Claro, só esses bambus não bastavam. Liu Tiezhu também pregou pregos em tábuas de madeira e as espalhou ao redor do muro, só esperando qual azarado ia pisar. Depois de montar uma dúzia de armadilhas, o escureceu. O tio mandou Yang Haitian não voltar para casa, para não ter que vir cedo de novo no dia seguinte. Afinal, ainda tinha vários quartos vazios em casa, não faltava lugar pra dormir. Yang Haitian pensou um pouco e não recusou o tio. Depois do jantar, todos foram até o muro ver as armadilhas de Liu Tiezhu. "Tiezhu, esses bambus vão funcionar?" O tio viu os bambus curvados e presos ao redor do muro, e perguntou com dúvida. Liu Tiezhu disse: "Tio, não subestime essas armadilhas." "Se esses desgraçados pisarem na corda de tendão, esses bambus vão bater neles, e eles vão se ferrar." "Olha essas tábuas no chão, cada uma tem cinco pregos, se pisarem também vão se dar mal." Er Gouzi ouviu e já abriu um sorriso. "Irmão Tiezhu, falando sério, agora eu até tô na expectativa de ver esses filhos da puta vindo roubar." Liu Tiezhu riu: "Pois é, eu também." "Se não der uma lição pesada nesses desgraçados, eles vão achar que a gente é mole." O tio dessa vez não falou mais nada, virou-se e puxou Yang Haitian, dizendo que queria beber mais uns copos. Depois que os dois foram, Liu Tiezhu disse: "Er Gouzi, vai preparar dois bastões." Er Gouzi ficou animado e perguntou: "Vamos acertar as contas com o Liu Haifeng?" Liu Tiezhu disse: "Se não for acertar contas com esse filho da puta, é pra convidar ele pra jantar?" "Ele espalhou de propósito o boato da nossa carne, querendo acabar com a gente." "Esse desgraçado de coração podre, tem que levar uma lição dura." "Vou preparar agora, precisa de mais alguma coisa?" Er Gouzi perguntou. Liu Tiezhu disse: "Não, nós dois com dois bastões já basta pra ferrar esse filho da puta." Er Gouzi concordou e foi preparar os bastões. Oito e pouco da noite, a vila inteira mergulhou numa escuridão de não ver um palmo na frente. A neve parou, mas o vento ficou mais forte. Liu Tiezhu e Er Gouzi, cada um com um bastão, saíram do pátio e foram em direção à casa de Liu Haifeng. O tio viu os dois mas não impediu, só suspirou resignado. Uns dez minutos depois, os dois chegaram ao muro do pátio de Liu Haifeng. Liu Haifeng morava sozinho, o irmão mais velho e a cunhada já tinham se mudado para a entrada da vila, longe desse vagabundo. Liu Tiezhu observou um pouco, confirmou que Liu Haifeng estava em casa, e pulou o muro. Er Gouzi, depois de treinar, também tinha boa habilidade, e pulou logo atrás. "Irmão Tiezhu, olha o que aquele desgraçado tá fazendo?" Os dois pararam, e Er Gouzi apontou para a janela. Lá, uma sombra segurava um sutiã de mulher, e a outra mão fazia movimentos indescritíveis. Vendo aquela cena de dar nojo, Liu Tiezhu não segurou o xingamento. "Porra, esse animal não presta mesmo." "Esse filho da puta, com certeza roubou o sutiã de alguma mulher casada e tá fantasiando." Er Gouzi sorriu de canto, com uma ideia maligna passando pela cabeça.