Capítulo 638: Capítulo 638: Fuga pelo Rio

"Chegamos." Liu Tiezhu suspirou aliviado.

Assim que entraram na boca do desfiladeiro, dois homens armados saltaram de repente da moita: "Pare! Quem é?"

"Fui indicado por Lin Hong." Liu Tiezhu mostrou o objeto de confiança que Lin Hong lhe dera.

Os homens examinaram e acenaram com a cabeça: "Siga-me."

Os dois foram levados a uma cabana de madeira no fundo do desfiladeiro.

Dentro, um homem de meia-idade estava sentado, o rosto marcado pelo tempo e os olhos afiados.

"Sou o Velho Zhao", apresentou-se. "Camarada de armas de Lin Hong."

Liu Tiezhu contou brevemente o que haviam passado. Após ouvir, o Velho Zhao franziu o cenho: "Os homens de Chen Jiu têm se movimentado muito ultimamente, várias aldeias foram perturbadas."

"Aqui é seguro?"

"Por enquanto, sim." O Velho Zhao acenou, "mas vocês não podem ficar muito tempo. Amanhã os levarei para um lugar mais escondido."

Depois de se instalarem, Liu Tiezhu finalmente relaxou.

Xiaoyu estava exausta e, após comer, adormeceu.

O Velho Zhao trouxe alguns remédios para ferimentos e ajudou Liu Tiezhu a tratar os arranhões.

"Lin Hong disse que vocês vão para o sul?", perguntou ele.

"Sim, procurar um lugar tranquilo."

"Por que não vão para nossa base?", sugeriu o Velho Zhao. "Tem escola, hospital, a criança pode viver normalmente."

Liu Tiezhu ficou tentado: "É longe?"

"Meio mês de viagem", o Velho Zhao baixou a voz, "mas é preciso atravessar a área ocupada pelo inimigo, há riscos."

"Vale a pena tentar", decidiu Liu Tiezhu. "Melhor do que viver se escondendo."

Na manhã seguinte, o Velho Zhao trouxe um jovem magro.

"Este é o Xiao Yang, ele os levará até a primeira parada."

Xiao Yang falava pouco, mas seus olhos eram vigilantes.

Ele verificou o disfarce de Liu Tiezhu e vestiu Xiaoyu com roupas de menino.

"Na estrada, me chame de irmão", instruiu Xiaoyu. "Não fale bobagens."

Os três se despediram do Velho Zhao e partiram para o sul.

Xiao Yang conhecia bem o terreno, escolhendo sempre trilhas escondidas.

À noite, se abrigavam na casa de montanheses e partiam antes do amanhecer.

Cinco dias depois, chegaram a um grande rio.

O rio era largo, com correnteza forte.

"Do outro lado do rio é a área ocupada", apontou Xiao Yang para a balsa ao longe. "Tem posto de controle."

"Como atravessar?"

"À noite, há barcos de pesca", disse Xiao Yang. "Temos que esperar."

Os três se esconderam entre os juncos à beira do rio, esperando.

Ao entardecer, ouviu-se o som de um motor ao longe: era uma lancha de patrulha!

"Abaixem-se!", sussurrou Xiao Yang.

A lancha passou lentamente, o holofote varrendo a superfície do rio.

Liu Tiezhu prendeu a respiração, protegendo Xiaoyu imóvel.

Após a lancha se afastar, Xiao Yang suspirou: "Mais duas horas de espera."

A noite caiu, e uma névoa fina subiu sobre o rio.

Ao longe, alguns coaxos de sapo ecoaram; Xiao Yang respondeu com dois sons.

Em pouco tempo, um pequeno barco de pesca surgiu silenciosamente.

"Entrem rápido." O barqueiro, mudo, fez gestos apressados.

Assim que os três subiram, uma luz brilhou ao longe.

A lancha de patrulha estava voltando!

"Droga!", exclamou Xiao Yang, pálido. "Fomos descobertos!"

A lancha acelerou em direção a eles, o holofote apontado diretamente para o barco.

O barqueiro remava desesperadamente.

Mas o pequeno barco não podia competir com o motor.

"Pulem!", gritou Xiao Yang. "Mergulhem e vão!"

Liu Tiezhu pegou Xiaoyu no colo e saltou nas águas geladas do rio.

Balas assobiavam, penetrando na água e levantando bolhas.

Ele mergulhou o mais fundo que pôde, nadando com a correnteza.

Não sabia quanto tempo passou, mas quando não aguentou mais prender a respiração, emergiu para tomar ar.

Atrás, as luzes da lancha já estavam distantes.

A margem do rio estava escura, sem saber onde estavam.

"Xiao Yang?", chamou baixinho, sem resposta.

Xiaoyu tinha engolido água e tossia sem parar.

Liu Tiezhu a arrastou enquanto nadava para a margem, exausto, subindo em um banco de areia raso.

"Tudo bem?", verificou a condição de Xiaoyu.

Xiaoyu balançou a cabeça, tremendo: "Frio..."

Liu Tiezhu tirou o casaco, torceu-o e o colocou sobre ela.

Os dois caminharam ao longo da margem, procurando um abrigo contra o vento.

Ao longe, algumas luzes indicavam uma vila de pescadores.

Liu Tiezhu hesitou em pedir ajuda, quando ouviu um barulho atrás.

Virou-se rapidamente e viu Xiao Yang, encharcado, parado não muito longe.

"Você está bem!", exclamou Liu Tiezhu, surpreso.

Mas Xiao Yang não falou, com um olhar estranho.

Então, das sombras atrás dele, surgiram três homens armados.

"Corram!", gritou Xiao Yang de repente. "Eles são..."

Antes que terminasse, um tiro ecoou!

O peito de Xiao Yang explodiu em sangue, e ele caiu lentamente.

"Peguem eles!", ordenou o líder.

Liu Tiezhu pegou Xiaoyu no colo e correu desesperadamente para os juncos à beira do rio.

Balas assobiavam atrás, os juncos sendo partidos.

Na escuridão, ele corria tropeçando, até não ouvir mais os perseguidores e parar.

Xiaoyu estava muda de medo, agarrada firmemente à gola de sua camisa.

Liu Tiezhu ofegava, examinando o entorno.

Era uma praia deserta, com um moinho abandonado ao longe.

Decidiu se abrigar ali primeiro.

O moinho estava em ruínas, mas ao menos protegia do vento e da chuva.

Liu Tiezhu encontrou um canto e fez Xiaoyu descansar.

"O irmão Xiao Yang... morreu?", perguntou Xiaoyu, tremendo.

Liu Tiezhu acenou com a cabeça, pesaroso: "Ele era um bom homem."

"Por que... aquelas pessoas..."

"Traidores", rangeu os dentes Liu Tiezhu. "Xiao Yang foi enganado por eles."

Xiaoyu se encolheu em seus braços, chorando silenciosamente.

Liu Tiezhu deu tapinhas leves em suas costas, pensando nos próximos passos.

Xiao Yang estava morto, a linha de contato rompida.

À frente, a área ocupada; atrás, perseguidores. Sozinhos e sem ajuda.

Enquanto se preocupava, passos soaram do lado de fora do moinho.

Liu Tiezhu ficou alerta, pegando um pedaço de madeira.

A porta foi empurrada suavemente, e uma sombra entrou silenciosamente.

A porta de madeira do moinho rangeu.

Liu Tiezhu apertou o pedaço de madeira, prendendo a respiração, olhando fixo para a entrada.

A sombra se aproximou cautelosamente, e sob o luar revelou um rosto jovem.

"Quem é?", perguntou Liu Tiezhu em voz baixa.

"Não faça barulho!", o recém-chegado era um adolescente de uns quinze ou dezesseis anos, vestindo trapos, com olhos vigilantes. "Há gente procurando lá fora!"

Liu Tiezhu ficou desconfiado: "Quem é você?"

"Me chamo A Shui, sou sobrinho do barqueiro mudo", falou o jovem rapidamente. "Meu tio me mandou para ajudar vocês."

Liu Tiezhu ainda não relaxou: "O que seu tio disse?"

"Ele disse: 'Dois peixes pularam na água'", respondeu A Shui. "Mandou eu esperar rio abaixo."

Era o sinal que o barqueiro mudo fizera antes de pularem.

Liu Tiezhu se acalmou um pouco: "Onde estão os perseguidores?"

"Na margem do rio, uns doze", A Shui se aproximou da janela e apontou uma direção. "Eles suspeitam que vocês nadaram até a margem e estão revistando casa por casa."

Xiaoyu agarrou a barra da camisa de Liu Tiezhu, nervosa: "Tio Liu..."

"Não tenha medo", Liu Tiezhu a tranquilizou e se virou para A Shui: "Tem um lugar seguro?"

"Tem", A Shui acenou. "Minha casa fica no meio dos juncos, eles não vão encontrar."

Os três saíram do moinho em silêncio e, sob o luar, entraram em um denso canavial.

A Shui liderava o caminho com familiaridade, parando de vez em quando para observar.

Após cerca de meia hora, uma cabana escondida apareceu à frente, semioculta entre os juncos, quase invisível de longe.

"Chegamos", A Shui afastou os juncos. "Minha mãe está esperando."

Dentro da cabana, uma lamparina a óleo estava acesa. Uma mulher magra cozinhava mingau; ao vê-los entrar, serviu duas tigelas quentes.

"Bebam rápido para se aquecer", disse a mulher com voz rouca. "A Shui, fique de olho lá fora."

Liu Tiezhu agradeceu e, com Xiaoyu, pegou as tigelas. O mingau quente aqueceu seus corpos gelados.

"Meu marido disse que vocês são boas pessoas", murmurou a mulher. "Pediu para ajudarmos."

"Muito obrigado", Liu Tiezhu deixou a tigela. "Seu marido..."

"Foi preso", os olhos da mulher se encheram de lágrimas. "Os soldados da lancha o levaram."

O coração de Liu Tiezhu pesou: "Fomos nós que os prejudicamos."

"Não é culpa de vocês", a mulher balançou a cabeça. "Esses animais sempre prendem gente."

Enquanto falavam, A Shui entrou correndo: "Mãe! Eles estão vindo revistar aqui!"

Ao longe, ouviam-se latidos de cães e gritos; as tochas se aproximavam cada vez mais. A mulher apagou a lamparina imediatamente: "Venham comigo!"

Ela levantou uma esteira de palha no canto, revelando um buraco no chão: "Desçam e se escondam, não façam barulho!"

Os três entraram no buraco, e a mulher cobriu com a esteira, colocando alguns objetos por cima.

O buraco era pequeno e úmido, mas suficientemente escondido.

Em pouco tempo, ouviram chutes violentos na porta e gritos de interrogatório.

A mulher fingiu ter sido acordada, respondendo à revista.

"Não vi estranhos..."

"Meu marido? Foi pescar..."

"Por favor, senhor, tenha piedade, a criança é pequena..."

A revista durou cerca de meia hora e finalmente terminou.