Capítulo 552: Capítulo 552 Cadáver Vivo no Fundo do Rio

A mão pálida como uma tenaz de ferro apertou firmemente o ombro de Liu Tiezhu. O rosto inchado do "cadáver" se contorcia na água turva, a boca abrindo e fechando, soltando bolhas. Por instinto, Liu Tiezhu desferiu um soco na garganta do oponente; o punho encontrou resistência na água, mas acertou precisamente o pomo de Adão. O "cadáver" se encolheu de dor, soltando a mão. Aproveitando essa brecha, Liu Tiezhu deu um forte impulso na água e mergulhou em direção à escuridão mais profunda do fundo do rio. Acima, a hélice do barco de patrulha criava um enorme redemoinho, e o feixe do holofote, como um bastão sólido, varria a superfície da água. O ar em seus pulmões estava quase no fim. O efeito da ampola vermelha tornava seu corpo muito superior ao de um homem comum, mas ele não era um peixe; precisava sair da água o mais rápido possível. As algas no fundo do rio, como mãos fantasmagóricas, enroscavam-se em suas pernas. Liu Tiezhu puxou uma faca curta e cortou as algas que prendiam seu tornozelo. Foi então que viu o "cadáver vivo" novamente. O outro se aproximava rapidamente com uma postura estranha, quase como a de um peixe nadando. A visão subaquática era turva, mas seus movimentos não eram de alguém se afogando, e sim de um mergulho treinado. Mais assustador ainda, conforme a distância diminuía, Liu Tiezhu reconheceu o rosto: era Rouxinol. Não, não completamente. O rosto estava mais inchado que o de Rouxinol, os olhos congestionados e saltados, mas um sorriso sinistro nos lábios. O mais arrepiante era que, atrás da orelha, havia uma cicatriz redonda idêntica à que vira em Rouxinol. Mais uma amostra injetada com a droga. O "cadáver vivo" já estava ao alcance. Liu Tiezhu apertou a faca, preparando-se para o combate. Mas o outro fez de repente um gesto estranho: o indicador direito traçou três riscos no pulso esquerdo e apontou para uma direção no fundo do rio. Era um sinal da Guarda de Segurança! Significava "siga-me, há uma emboscada". O coração de Liu Tiezhu tremeu. Esse homem conhecia os sinais da Guarda? Inimigo ou aliado? Não havia tempo para pensar. O barco de patrulha acima já havia lançado um bote; sombras se moviam na superfície, claramente se preparando para descer e caçar. Liu Tiezhu hesitou por um instante e seguiu o "cadáver vivo" para as profundezas do rio. O leito do rio formava uma inclinação íngreme, no fim da qual havia um buraco escuro, como a saída de um cano de drenagem. O "cadáver vivo" entrou com agilidade e virou-se para acenar para Liu Tiezhu. Dentro do cano, a escuridão era total e a correnteza violenta. Liu Tiezhu foi jogado de um lado para o outro, batendo várias vezes nas paredes. O ferimento nas costelas, recém-enfaixado, abriu-se novamente, e fios de sangue formavam uma névoa avermelhada atrás dele. Não sabia quanto tempo foi arrastado, até que uma luz fraca apareceu à frente. A correnteza o empurrou para fora do cano, jogando-o em uma plataforma meio submersa. O "cadáver vivo" já estava na plataforma, segurando uma lamparina à prova d'água. Sob a luz, seu rosto era ainda mais horripilante: a pele pálida deixava veias visíveis, num tom anormal de azul-arroxeado. Os olhos estavam tão congestionados que quase não se via a esclera. "Comandante Liu", o "cadáver vivo" falou, a voz rouca como lixa, "Sou Zhao Xiaoliu da 3ª Companhia da Guarda de Segurança. No ano passado, na Batalha do Rio Hun, entreguei munição para o senhor." Liu Tiezhu segurou a faca com cautela: "Zhao Xiaoliu está morto. Eu vi com meus próprios olhos ele ser despedaçado por um obus." "Morri, e revivi." O "cadáver vivo", ou melhor, Zhao Xiaoliu, puxou a gola da camisa, revelando uma cicatriz do tamanho de uma tigela no peito: "Os japoneses me tiraram da pilha de mortos, injetaram algo. Escapei há seis meses e vivo nos esgotos desde então." Liu Tiezhu fixou o olhar na cicatriz atrás de sua orelha: "O que injetaram em você?" "Não sei o nome." Zhao Xiaoliu balançou a cabeça. "No começo, o corpo inteiro doía; depois, conseguia prender a respiração debaixo d'água por meia hora, fiquei mais forte, mas a mente foi ficando confusa, sempre com vontade de morder." Ele esboçou um sorriso mais feio que choro: "Já mordi meu próprio braço. A carne é amarga." Liu Tiezhu sentiu o estômago revirar. Era esse o futuro de Rouxinol? "Como me reconheceu?" "Pelo cheiro." Zhao Xiaoliu apontou para o nariz. "Depois da injeção, o olfato ficou muito apurado. O senhor tem o cheiro daquela droga, e também de sangue." De repente, uma explosão abafada veio do alto, fazendo todo o espaço subterrâneo tremer levemente. Pedaços de pedra e poeira caíam do teto. "Estão explodindo os canos rio abaixo." Zhao Xiaoliu mudou de expressão. "Estão procurando o senhor. Venha comigo, não podemos ficar aqui." Ele se virou e entrou num corredor estreito no outro lado da plataforma. Liu Tiezhu hesitou, depois o seguiu. O corredor serpenteava para cima, cada vez mais seco. Nas paredes, viam-se marcas de setas gravadas, algumas ainda recentes. "Você vive aqui embaixo?" perguntou Liu Tiezhu. "Sim." Zhao Xiaoliu não virou a cabeça. "Embaixo é mais seguro que em cima. Os japoneses não conhecem o traçado desses canos antigos. De vez em quando, subo para pegar comida, roubar remédios." "Remédios?" Liu Tiezhu franziu a testa. "Os que clareiam minha mente." Zhao Xiaoliu parou de repente, apontando para uma grade de ferro no fim do corredor. "Chegamos." Atrás da grade, havia uma câmara semicircular, com cobertores rasgados e algumas latas vazias num canto. Na parede, estava pregado um mapa amarelado da rede de esgotos de Fengtian, coberto de marcas a carvão. Zhao Xiaoliu tirou uma caixinha de ferro debaixo do cobertor, derramou dois comprimidos brancos e engoliu: "Como o senhor irritou Yamamoto? Ele raramente age pessoalmente." "Conhece Yamamoto?" Liu Tiezhu apertou os olhos. "Quem em Fengtian não conhece?" Zhao Xiaoliu riu amargamente. "O chefe do Departamento de Água e Suprimentos Sanitários, cuida dos experimentos com cobaias vivas. Ele tem mais amostras como eu, todos monstros de força descomunal." Liu Tiezhu lembrou da mutação de Yamamoto após injetar a ampola vermelha: "Ele também faz experimentos em si mesmo?" "Só começou recentemente." Zhao Xiaoliu assentiu. "Dizem que está procurando uma amostra perfeita." De repente, ele tossiu violentamente, cuspindo sangue preto: "Meu tempo está acabando. O efeito do remédio está passando." Liu Tiezhu segurou seu corpo cambaleante: "Você disse que rouba remédios. De onde?" "No segundo subsolo do Hospital do Exército, há um depósito refrigerado..." A respiração de Zhao Xiaoliu ficou ofegante. "Rótulo azul... suprime temporariamente... mas cada vez menos eficaz..." Ele tirou de junto ao corpo um vidrinho com alguns mililitros de líquido azul-claro: "O último... para o senhor..." Liu Tiezhu pegou o frasco, idêntico às ampolas azuis que pegara no laboratório. O corpo de Zhao Xiaoliu começou a tremer violentamente, os olhos revirando, mostrando a esclera. Um grunhido inumano saiu de sua garganta, os dedos se curvando como garras. "Está começando... vá rápido..." Zhao Xiaoliu forçou algumas palavras, apontando com a última sanidade para um ponto no mapa na parede: "Este... leva para fora da cidade... rápido..." Liu Tiezhu gravou a rota rapidamente e recuou alguns passos. Zhao Xiaoliu já estava completamente transformado, apoiado nas quatro patas, grunhindo como uma fera, com saliva misturada a sangue escorrendo dos lábios. Do fundo do corredor, vieram passos confusos e gritos em japonês. Os perseguidores já tinham encontrado o lugar! Liu Tiezhu deu um último olhar para Zhao Xiaoliu, que se transformava, e correu para o corredor marcado no mapa. Atrás dele, ouviu-se um uivo dilacerante e o som de luta violenta, seguido de alguns tiros. O corredor era estreito e íngreme, quase ficou preso várias vezes. Liu Tiezhu, suportando a dor lancinante nas costelas, rastejou com todas as forças. O efeito da ampola vermelha estava passando, e a dor da perna quebrada voltava. Depois de cerca de meia hora rastejando, uma luz fraca apareceu à frente. No fim do corredor, havia uma saída de drenagem semioculta por arbustos. Liu Tiezhu afastou os arbustos e saiu cambaleando. Lá fora, o dia já estava claro. Ao longe, o contorno de Fengtian surgia na névoa matinal. Ele se orientou: dali até a olaria, menos de três li. Liu Tiezhu, arrastando a perna quebrada, mancou em direção à olaria. Cada passo era como pisar em pontas de faca. O pacote de ervas e o líquido azul no peito batiam suavemente com o movimento, sua única esperança. Ao longe, ouviu-se o rugido de motores. Liu Tiezhu se escondeu rapidamente numa vala à beira da estrada. Dois caminhões lotados de soldados japoneses passaram zunindo, levantando uma nuvem de poeira. Quando os caminhões sumiram, ele continuou. O sol subia cada vez mais alto, deixando-o tonto. A perda de sangue e o fim do efeito da droga turvavam sua visão. Finalmente, a olaria em ruínas apareceu. Liu Tiezhu, com as últimas forças, rastejou pelo último trecho de terra até a entrada do forno. "Rouxinol!" gritou roucamente. "Voltei!" O forno estava silencioso, sem resposta. Um pressentimento ruim tomou conta dele. Liu Tiezhu rastejou para dentro e, à luz da entrada, viu que Rouxinol não estava mais lá. A palha onde o colocara estava revirada, com marcas de luta e sangue fresco. No chão, algumas cápsulas de balas e uma faca curta quebrada, de Erhu. Liu Tiezhu caiu sentado, a cabeça zumbindo. Rouxinol foi levado? Por quem? Japoneses? Ou... Seu olhar caiu sobre uma pedra no fundo do forno, sob a qual estava meio pedaço de papel queimado. Liu Tiezhu rastejou até lá, pegou o papel. Nele, a caligrafia torta de Rouxinol: "Tiezhu... estou lúcido... vá... Heigou Gou... Armazém Sete... a chave está em..." A escrita parava ali, como se tivesse sido interrompida às pressas. As bordas do papel estavam queimadas, como se Rouxinol tentasse queimá-lo, mas não completamente. Liu Tiezhu lembrou da caixinha de metal no escritório de Yamamoto, a ampola vermelha chamada de Chave de Sangue. A chave que Rouxinol mencionava era essa? Mais importante, Rouxinol disse que estava lúcido. Liu Tiezhu lembrou de repente do pacote de ervas do Velho Qu. Ele abriu o pano com mãos trêmulas: as ervas e a ampola vermelha estavam lá. Mas, contando com cuidado, o líquido na ampola havia diminuído cerca de um terço. Rouxinol usou a Chave de Sangue em si mesmo? Liu Tiezhu sentiu um arrepio na nuca. O Velho Qu dissera que usar a Chave de Sangue sozinha transformava a pessoa num monstro. Rouxinol sabia disso e a usou deliberadamente? De repente, do lado de fora do forno, veio o som de freios de carro, seguido do estalar de botas em cascalho. Liu Tiezhu escondeu rapidamente o papel e o pacote de ervas, apertou a faca e se arrastou para o canto mais escuro do forno. "Revistem! Cada canto, não deixem passar!" Uma voz áspera soou do lado de fora, em chinês, mas com forte sotaque do nordeste. Não eram japoneses? Liu Tiezhu prendeu a respiração. Vários homens em jaquetas pretas de botões laterais entraram no forno com rifles. O líder era um brutamontes de cara cheia de cicatrizes, com um apito de cobre pendurado no pescoço. "Não tem ninguém, Irmão Biao." Um dos subordinados chutou a palha. "Merda!" O chamado Irmão Biao apontou para as marcas no chão. "O sangue ainda não secou. Saíram há pouco!" Liu Tiezhu se encolheu na sombra, sem ousar respirar. Quem eram esses? Por que procuravam Rouxinol? Irmão Biao de repente fungou: "Tem cheiro de sangue fresco." Ele se virou bruscamente, apontando o rifle para o canto onde Liu Tiezhu se escondia: "Sai, ou atiro." Liu Tiezhu sabia que não podia mais se esconder. Respirou fundo, forçou-se a ficar de pé, a faca cruzada na frente do peito: "Irmãos, de que lado são?" Irmão Biao o examinou de cima a baixo e de repente sorriu: "Ora, não é o Comandante Liu? Como está mancando?" Ele fez um gesto, e os subordinados se espalharam, formando um cerco. "Somos do Bando do Tigre Negro. Recebemos ordens para procurar alguém. O senhor viu? Um louco, muito forte." Bando do Tigre Negro? O coração de Liu Tiezhu tremeu. Não era o mesmo Heigou Gou mencionado no bilhete de Rouxinol? "Não vi." Liu Tiezhu manteve a calma. "Estou só descansando aqui de passagem." "Vai pro caralho!" Irmão Biao mudou de expressão de repente. "Esses ferimentos no senhor são claramente de bala. O alvoroço de ontem à noite no Hospital do Exército, o fugitivo procurado pela cidade inteira é o senhor, não?" Ele riu com maldade, erguendo o rifle: "Perfeito. Pegando o senhor, o Coronel Yamamoto vai dar uma boa recompensa." Liu Tiezhu sabia que não haveria acordo. Ele tocou de leve a ampola vermelha no peito. Só restavam dois terços, mas era o suficiente para mais uma tentativa. No momento em que Irmão Biao ia puxar o gatilho, uma explosão ensurdecedora veio de fora do forno, arrancando metade do teto, e pedras e poeira caíram como chuva. "Porra! Quem jogou a granada?" Irmão Biao rugiu, jogando-se no chão. Na fumaça, uma figura alta, como um fantasma, apareceu na entrada do forno. Contra a luz, Liu Tiezhu só conseguia ver que a pessoa usava um uniforme rasgado da Guarda de Segurança e segurava uma pistola ainda fumegante. "Roux... Rouxinol?" Liu Tiezhu chamou incerto. A pessoa não respondeu, apenas ergueu a arma, apontando para Irmão Biao no chão.