— Irmão Coluna, o que você pretende fazer? — perguntou Er Gouzi, um pouco animado. Pelo tom de Liu Tiezhu, Er Gouzi sabia que aquilo não ia ficar por isso. — Pensei num jeito de melhorar rápido as técnicas de luta. Er Gouzi hesitou, como se tivesse entendido algo, e logo abriu um sorriso. Ao lado, Yang Hua ficou confuso. Liu Tiezhu estava com segundas intenções, claramente não o considerando como parte do grupo. — Irmão Coluna, me leva junto também. — Juro que vou obedecer suas ordens na hora. Yang Hua sabia que, para se aproximar de Liu Tiezhu, só sendo cara de pau. — Pretendo dar uma lição nesses caras de hoje. Você topa? — perguntou Liu Tiezhu. — Irmão Coluna, que história é essa? — Se você não tivesse me segurado, hoje eu realmente teria enfrentado esses desgraçados. — Todos têm uma cabeça nos ombros, nunca tive medo desses canalhas. Yang Hua bateu no peito, cheio de coragem. Liu Tiezhu disse: — Já que é assim, amanhã cedo nos encontramos na entrada da Vila Liu. — Lembra de trazer algo pra bater, mas nada de faca. — Se errar a mão, vira morte, não podemos fazer isso. — Irmão Coluna, vamos emboscar esses canalhas na entrada da Vila Liu? — O risco é grande demais — disse Yang Hua. — Fica tranquilo, não sou tão burro assim. — Lembra, amanhã por volta das seis da manhã, na entrada da Vila Liu. Liu Tiezhu terminou de falar e foi embora com Er Gouzi. — Irmão Coluna, a gente vai bater nesses filhos da puta, mas não pode ser na entrada da Vila Liu. — Se esses canalhas gritarem, quem vai se dar mal somos nós. Er Gouzi pensou a mesma coisa que Yang Hua e não resistiu a perguntar. — Gouzi, você acha que eu pareço um idiota? — retrucou Liu Tiezhu. — Se você é idiota, então eu sou um retardado? — murmurou Er Gouzi. Liu Tiezhu disse: — Pois é, então por que eu faria uma burrice dessas? — Então por que vamos ficar na entrada da Vila Liu? Er Gouzi ainda não entendia o plano de Liu Tiezhu. — Com esse clima mais quente, os caçadores de todas as vilas vão sair pra caçar. — Esses caras da Vila Liu vão perder essa época boa de caça? — Hoje eles pegaram centenas de quilos de carne nossa, não vamos cobrar essa conta deles? Ao ouvir isso, os olhos parados de Er Gouzi brilharam. Agora ele entendia o verdadeiro objetivo do irmão Coluna. — Irmão Coluna, sua cabeça é boa mesmo. Liu Tiezhu riu: — Vamos voltar, o de hoje não pode ser contado. Os dois chegaram em casa, a cunhada e Yulan já tinham preparado o jantar. O irmão mais velho e o tio ainda não tinham voltado. A cunhada disse que os dois foram para o Changlingpo, atrás da casa, pegar palha seca pra fazer um novo ninho pros cães de caça, como o Dafanshu. Liu Tiezhu lavou o rosto, chamou Er Gouzi pra pegar uma lanterna e foram para o Changlingpo. O escuro já estava chegando, e no Changlingpo não faltavam cobras. Sem lanterna pra iluminar o caminho, era muito perigoso. Os dois mal tinham saído da entrada da vila quando viram o tio e o irmão mais velho, cada um carregando um grande fardo de palha seca, voltando conversando e rindo. — Tio, irmão, deixa com a gente. Liu Tiezhu e Er Gouzi pegaram a palha dos dois e perguntaram sobre o que estavam conversando tão animados. — Tiezhu, adivinha o que eu e Shanshan encontramos no Changlingpo? O tio estava com um sorriso tão grande que os olhos quase fechavam. — Tio, não fica enrolando. Tem coisa boa no Changlingpo? O tio disse: — Tiezhu, pra ser sincero, no Changlingpo tem coisa boa mesmo. — Você conhece codorniz, né? Lá tem dezenas de ninhos. — Eu e Shanshan pegamos vários quilos de ovos. Liu Tiezhu conhecia codorniz; quando adultas, chegam a cerca de 150 gramas, com valor nutricional maior que o de pombos. Ovos de codorniz selvagem têm mais nutrientes que ovos de galinha. Essas aves botam um ovo por dia; se criadas em grande escala, daria pra ter ovos à vontade. — Pai, isso fica gostoso salgado. Er Gouzi quase babava, falando feliz. O tio levantou a mão e deu um tapa na cabeça de Er Gouzi. — Sai pra lá, esses ovos são pra chocar. — Se conseguirmos criar todas essas codornizes, você vai poder comer quantos ovos quiser. — Depois do jantar, vamos de novo ao Changlingpo, com certeza vamos pegar codornizes — disse Liu Tiezhu. Liu Tieshan completou: — Cada um leva uma rede, pra ver se pegamos uns filhotes de codorniz. — Esses filhotes não recusam comida, dá pra criar. — Ainda temos gaiolas de bambu vazias em casa, vamos ver se enchemos elas. Em casa, o tio pegou os ovos de codorniz que estavam na palha. Yaoyao ficou super feliz, pedindo ao tio pra chocar as codornizes, fazendo a família toda rir sem parar. Depois do jantar, já estava escuro. Liu Tieshan pegou as redes e lanternas preparadas. Liu Tiezhu mandou Er Gouzi levar a besta composta, por precaução. Tudo pronto, os quatro calçaram botas de borracha e, com lanternas, partiram para o Changlingpo. Meia hora depois, mal tinham entrado no mato seco, quando ouviram um barulho de asas. Quem fosse medroso, morreria de susto com o som repentino. O tio apontou a lanterna na direção do barulho e viu que eram cinco codornizes fazendo aquele auê, pousadas a cinco metros deles, num monte de palha seca. Cocoricó... Quando iam se aproximar, ouviram outro canto de pássaro. Apontaram a lanterna e viram seis pássaros de pernas longas e cara branca. Eles estavam em fila, andando na frente de todos com toda a calma. Galinha-d'água-de-cara-branca. Eles se entreolharam, todos paralisados. Essa ave é corajosa e não tem medo de luz. Geralmente vive em pântanos ou lugares com água, se alimentando de peixes e camarões. Elas vivem em bandos. Se tem um ninho, com certeza há mais da mesma espécie por perto. Encontrar galinhas-d'água num lugar seco assim era raro. — Irmão Coluna, será que tô vendo coisas? — Que diabo, como é que tem galinha-d'água aqui? Er Gouzi ficou de boca aberta, ainda sem acreditar no que via. Liu Tiezhu disse: — Para de falar besteira, dá uma redeada e descobre se é assombração. Er Gouzi se aproximou devagar e, com uma rede, cobriu todas as seis galinhas-d'água. Elas se assustaram e começaram a se debater. O mato seco ao redor estalava, e dezenas de codornizes, galinhas-d'água, andorinhas-do-campo e garças-de-pernas-longas levantaram voo. Caramba, o mato seco escondia tanta coisa. Essas aves não eram grandes, umas 300 gramas cada, mas a quantidade compensava. E essa caça selvagem tinha um valor nutricional altíssimo. — Cada um vai pro seu lado, cuidado com o chão. Liu Tiezhu avisou e, com a rede, correu atrás de um bando de galinhas-d'água. Elas pousaram a uns sete metros dele. Quando a lanterna iluminou, elas nem se mexeram, balançando a cabeça e vindo devagar na direção da luz. Esse bando tinha nove galinhas-d'água, cada uma com cerca de 300 gramas. Elas se aproximavam lentamente de Liu Tiezhu. Com a rede na mão, o coração dele batia mais forte à medida que elas chegavam perto. Quando estavam a três metros, Liu Tiezhu se preparou para agir. De repente, ele viu algo no chão pelo canto do olho e o coração subiu à garganta. Olhando para a sombra enorme atrás de si, ele engoliu a saliva sem querer.