Er Gouzi ficou pálido, sem saber o que dizer por um momento.
— Mano, é nós, da mesma turma.
Liu Tiezhu, mais calmo, falou para o líder dos milicianos.
O líder, Tan Guohui, respondeu com descontentamento:
— Porra, quem é da mesma turma que você?
— Eu sou soldado, e você, o que é? Fica aí puxando saco, seu merda.
— Mano, sou da equipe de segurança, sigo o Zhang Mingtao.
Enquanto falava, Liu Tiezhu tirou um documento do bolso.
Já que o pai do Zhang Mingtao era um figurão no condado, os milicianos da vila deviam ter ouvido falar dele.
Naquela hora, ele só podia usar o nome de Zhang Mingtao e torcer para dar certo.
Se esses caras partissem pra briga, ele teria que se virar.
— Zhang Mingtao? — Tan Guohui hesitou, e sua expressão suavizou.
Embora não fosse do grupo dos Zhang, ele já tinha ouvido falar do poder da família.
Se não fosse necessário, eles também não queriam se indispor com os Zhang.
— Já que é da equipe de segurança dos Zhang, pode passar.
Tan Guohui nem conferiu o documento de Liu Tiezhu, acenou a mão e deixou passar.
— Mano, vocês tão trabalhando duro, um agradinho.
Liu Tiezhu, sabendo como agir, tirou do bolso umas dez notas de um e dois reais e enfiou na mão de Tan Guohui.
Como diz o ditado, dinheiro faz o diabo girar.
Alimentar a amizade com Tan Guohui e seus homens facilitaria muito a entrada e saída dali.
Tan Guohui hesitou, enfiou o dinheiro no bolso rapidamente, e puxou um cigarro para oferecer a Liu Tiezhu e Er Gouzi.
Acenderam os cigarros, deram umas tragadas, e Tan Guohui tirou um caderno e entregou a Liu Tiezhu.
— Mano, isso é o passe de entrada e saída da vila.
— Com esse passe, não precisa mais de revista.
— Então agradeço ao irmão.
Agradecendo, Liu Tiezhu não ficou mais, puxou a mula e entrou na cidade.
Depois que Liu Tiezhu foi embora, Tan Guohui tirou o dinheiro do bolso.
Caramba, eram vinte e seis reais, o equivalente a dois meses de soldo deles.
— A família Zhang é rica mesmo, um membro da equipe de segurança consegue tirar tanta grana assim.
Olhando para Liu Tiezhu se afastando, Tan Guohui e seus homens ficaram com inveja.
— Irmão Zhu, a gente não precisava ter dado tanto dinheiro.
Depois de entrar na cidade, Er Gouzi falou.
Liu Tiezhu respondeu:
— Uns vinte e poucos reais, não faz diferença.
— Vamos nos separar: você compra arroz, eu vou atrás das peças.
Meia hora depois, eles se reencontraram.
Er Gouzi comprou 500 jin de arroz por 400 reais, e xingou a mãe de raiva.
Arroz a oitenta centavos o jin, um preço absurdo.
Liu Tiezhu entendia.
Em qualquer época, não faltam aproveitadores.
Na situação atual, se eles não aumentassem o preço na hora, é que seria estranho.
Carregaram o arroz e as peças na carroça da mula e não ficaram mais.
A vila ficava longe demais da caverna, quatro horas de viagem.
Precisavam voltar cedo, senão, com a noite, seria um problema.
Saindo da vila, os dois guiaram a mula em direção à Aldeia Yang.
Dessa vez, planejavam levar Yang Haitian junto para a caverna.
Quando chegaram na Aldeia Yang, já estava escuro.
Vendo que era Liu Tiezhu, Yang Haitian foi logo para a cozinha e preparou uma mesa farta de comida e bebida.
Os três se sentaram ao redor do fogão, bebendo e conversando.
A Aldeia Yang ainda estava segura, mas nos últimos dias, alguns rostos estranhos entravam e saíam.
Yang Haitian achava que esses caras eram espiões de bandidos ou cavaleiros.
Liu Tiezhu disse:
— Irmão Haitian, viemos te levar para a montanha.
— Do jeito que as coisas estão, a Aldeia Yang também vai ser saqueada logo.
— Ficar sozinho em casa não é seguro, a Yulan está muito preocupada com você.
— Por enquanto, a Aldeia Yang ainda está segura. Se eu for com vocês agora, o que faço com essas centenas de jin de carne?
— Assim: hoje à noite, vocês levam um pouco de carne, e depois eu vou com vocês para a montanha. — Disse Yang Haitian.
Liu Tiezhu pensou um pouco e não falou mais nada.
Afinal, a Aldeia Yang ainda estava segura, não fazia diferença esperar dois ou três dias.
Os três beberam até umas sete da noite.
Yang Haitian viu que era tarde e mandou Liu Tiezhu e o outro voltarem logo.
Na saída da aldeia, Yang Haitian ainda alertou os dois para tomarem cuidado, que havia bandidos rondando perto.
Saindo da Aldeia Yang, Liu Tiezhu e Er Gouzi puxaram a mula para o oeste, por um caminho estreito no meio dos campos.
A carroça mal tinha partido, e um pequeno grupo veio a galope em direção à Aldeia Yang.
Eram seis homens, todos fortes, com um ar feroz.
Eram cavaleiros da Montanha Tongling, que tinham colocado a Aldeia Yang sob seu domínio e começavam a cultivar uma força visível.
O chefe da aldeia, Yang Jingming, era o informante deles.
Assim que Liu Tiezhu entrou na Aldeia Yang, a carroça cheia de arroz chamou a atenção de Yang Jingming.
Assim que Liu Tiezhu entrou, ele mandou o filho avisar os cavaleiros.
Centenas de jin de arroz, uma fortuna e tanto.
Quem podia comprar tanto arroz de uma vez devia ter uma boa grana.
Se os cavaleiros pegassem o arroz e os homens, ele teria um grande mérito.
Os cavaleiros se encontraram com Yang Jingming e viraram na direção do caminho a oeste, a galope.
Em poucos minutos, Liu Tiezhu e Er Gouzi, no caminho no meio dos campos, empalideceram.
Vendo a luz de lanternas atrás deles, Liu Tiezhu agiu rápido.
— Porra, esses filhos da puta vieram atrás de nós.
— Er Gou, desce, vamos dar a volta por trás.
Er Gouzi desceu rápido e seguiu Liu Tiezhu.
Sem ninguém para guiar, a mula parou na beira do caminho.
Depois de descer, os dois foram cinco metros para a direita e correram na direção da luz das lanternas.
Por mais espertos que fossem os cavaleiros, não iam imaginar que os dois teriam tanta coragem de não fugir e ainda ir na direção da luz para pegar eles por trás.
Em alguns segundos, os cavaleiros chegaram na carroça.
Sem ver ninguém, acenderam as lanternas e revistaram os arredores por uns dez metros.
Não achando Liu Tiezhu e Er Gouzi, o líder mandou dois homens a cavalo irem na frente.
Quem podia comprar tanto arroz devia estar nadando em dinheiro.
Se pegassem eles, ainda dava para extrair uma boa grana.
Depois de pegar duas ovelhas gordas, ele não ia soltar fácil.
— Porra, tão nos tratando como ovelhas gordas mesmo.
A uns dez metros atrás dos cavaleiros, na beira do campo, Er Gouzi xingou baixinho.
— Er Gou, para de falar merda. Você cuida do da esquerda, os outros dois são comigo.
— Esses filhos da puta querem o que é nosso, vou mostrar que pra pegar o que é meu, tem que pagar com a vida.
Liu Tiezhu falou, se abaixou e agiu primeiro.
Er Gouzi colocou uma flecha de bambu na besta composta e foi pela esquerda.
Quando chegaram a cinco metros dos cavaleiros, eles ainda não tinham percebido nada.
Estavam todos de olho na carroça, pensando em como pegar as duas ovelhas e arrancar uma grana.
Xiu...
Um som cortou o ar, e o líder dos cavaleiros sentiu uma dor no pescoço, e o sangue jorrou.
Os outros dois cavaleiros se assustaram e levantaram as armas.
Xiu, xiu, xiu...
Mal começaram a se mexer, e foram crivados de flechas.
Depois de matar os três cavaleiros, Liu Tiezhu e Er Gouzi não se apressaram em sair.
Juntos, jogaram os três corpos na carroça, sentaram eles e fingiram que estavam ali.
Feito isso, os dois se esconderam atrás dos corpos, com as bestas prontas, esperando os dois cavaleiros que foram na frente voltarem.
Uns vinte minutos depois, ouviram o som de cascos, e viram os dois cavaleiros voltando a galope.