Capítulo 823: Capítulo 823 O Misterioso Assento do Motorista 2

Quanto à questão da face, Wumei não iria discutir com Cheng Yu, afinal, os fatos estavam diante dos olhos, quem insistisse ficaria constrangido. Ele estava sentado no banco de trás, com as mãos abertas sobre as coxas, e de vez em quando lançava olhares de soslaio para o homem que dirigia sem expressão, soltando um suspiro inevitável. O passageiro no banco da frente, Cheng Yu, virou-se imediatamente para olhá-lo.

— Wumei, quando você volta para Beicheng? — O caso só tinha começado a ter alguns contornos; nas palavras de Wumei, Baixiang só lhe dera três dias para encontrá-la, então só lhe restavam três dias. No entanto, ele já tinha pensado no caminho mais curto, embora fosse um pouco arriscado.

Wumei piscou os olhos, ouviu o som e, lentamente, fechou os olhos, indicando que estava muito cansado e não queria responder à pergunta.

O lugar para onde iam agora era a residência da família Rong. Sim, quem estava ao volante era o filho mais velho dos Rong, Rong Bai. Provavelmente ninguém imaginaria que Cheng Yu, Wumei e Rong Bai eram amigos.

Na época do tesouro, Cheng Yu tinha vido especialmente pedir ajuda a Rong Bai, mas Rong Bai só queria ficar com Wen Wan e não se interessava pelo tesouro. Naquela época, Wen Wan realmente morreu nas mãos de Li Xiumin, e agora Li Xiumin colhia o que plantou, recebendo o castigo merecido. Não se pode negar que Cheng Yu também teve parte da responsabilidade nisso.

Depois de saber, Cheng Yu fez o possível para compensar Rong Bai, e o destino de Li Xiumin já estava selado há muito tempo.

Rong Bai mantinha o olhar focado na estrada à frente. Wumei abriu os olhos novamente, olhou para Rong Bai e perguntou:

— Ela está bem?

— Não está muito bem, estes dias tem insistido em se encontrar. — Rong Bai exalava uma aura ameaçadora por todo o corpo. Após alguns segundos de silêncio, ele falou novamente: — Ela soube naquele dia.

— Soube? — Wumei ainda não tinha entendido o que Rong Bai queria dizer com aquilo, quando já tinham chegado ao destino. Ele desceu do carro, foi na frente, entrou rapidamente no pátio e viu uma mulher sentada nos degraus, olhando para o céu, distraída. Ele hesitou; a tez dela parecia ainda pior do que da última vez.

Wumei aproximou-se com passos leves, parou diante dela e a observou por um longo tempo, mas ela não reagiu.

Cheng Yu ficou ao lado de Rong Bai e disse em voz baixa:

— Se eu não tivesse voltado para a França há alguns dias, não saberia que ela estava nas suas mãos. — Vendo que Rong Bai não lhe dava atenção, Cheng Yu respirou fundo e continuou: — Já devia ter imaginado que foi você e Wumei agindo juntos para tirá-la das mãos da minha mãe.

— Você fala demais. — Rong Bai disse com indiferença.

Cheng Yu segurou a mão dele e perguntou, inconformado:

— Wumei gosta tanto dela assim? E, antes, eu estava ocupado com outras coisas e esqueci de perguntar, ela é…

— Quem é? — You Ran de repente falou, com expressão de pânico, abaixando a cabeça rapidamente para tatear o chão ao redor, levantando-se apressadamente, mas seu olhar não sabia para onde se dirigir.

Cheng Yu hesitou, olhou para Rong Bai, apontou silenciosamente para os próprios olhos e formou com os lábios: — Ela não enxerga.

Rong Bai nem olhou para Cheng Yu, e disse com voz grave:

— Sou eu, e o Wumei.

— Ele também veio? — Ao ouvir a voz de Rong Bai, You Ran relaxou lentamente os nervos tensos. Piscou os olhos, estendeu a mão para tocar à frente, e de repente a palma encontrou um peito quente. Ela suspirou aliviada e disse com suavidade: — Há quanto tempo você está aí parado? Nem percebi.

— Acabei de chegar, vou te ajudar a entrar para descansar. — Wumei segurou a mão de You Ran com cuidado, apoiando-a, andando muito devagar, atento a cada passo dela.

Cheng Yu seguiu silenciosamente atrás de Rong Bai. Parecia que os olhos de You Ran estavam mesmo cegos, e o culpado não era difícil de adivinhar, devia ser a mãe dele. Ele ainda estava surpreso que Wumei tivesse feito aquilo por uma mulher contra a mãe, quando ouviu You Ran segurar a mão de Wumei e sussurrar:

— Irmão, ouvi do Rong Bai que você vai matar o Fiennes?

Irmão, irmão… Cheng Yu ficou boquiaberto, olhando para Rong Bai, que mantinha a calma, claramente já sabendo de tudo. Seus olhos se encheram de fúria, e ele puxou novamente a manga de Rong Bai, irritado:

— Eu não ouvi errado, né? Desde quando Wumei tem uma irmã? Como é que eu não sei de nada?

Rong Bai revirou os olhos:

— Para que você quer saber tanta coisa?

— Rong Bai, isso que você disse é muito ofensivo. Eu sou amigo de vocês, e vocês escondem uma coisa tão importante de mim!

You Ran apertou de repente o dedo de Wumei e perguntou baixinho:

— O senhor Cheng também está aqui?

Wumei olhou para trás, para Cheng Yu. Rong Bai franziu a testa e, antes que ele pudesse reagir, puxou-o pelo braço para o escritório. Cheng Yu se sentiu muito frustrado, mas não era hora de discutir essas coisas com eles; ele ainda tinha algo importante a fazer.

No escritório, Cheng Yu não conseguia se conter, andando de um lado para o outro, até que Rong Bai franziu a testa, impaciente:

— Quantas voltas você ainda vai dar?

— Não consigo entender por que vocês escondem tudo de mim. — O que Cheng Yu dizia não se referia apenas ao caso de Rong Bai e Wumei, mas também ao da mãe. Ele sabia que Wumei devia saber mais do que ele, mas não havia jeito, Wumei nunca contaria nada, mesmo que o matassem. O que ele podia fazer? Só isso mesmo.

Rong Bai esfregou as têmporas e disse:

— Você está me deixando tonto de tanto andar na minha frente. Espera o Wumei subir e aí a gente conversa. Fica quieto sentado esperando, está bem?

— Não consigo ficar quieto. Só de pensar que vocês estão escondendo tudo de mim, fico com raiva.

— Cheng Yu, você é infantil ou o quê?

— P*ta merda, isso não tem nada a ver com infantilidade! — Cheng Yu andou mais algumas voltas. Rong Bai fechou os olhos e se recostou no sofá, descansando, sem paciência para falar com aquele teimoso. Essas coisas, ele também só tinha descoberto há pouco tempo. Quando Wumei pediu ajuda, ele ficou chocado, achando que Wumei realmente tinha se apaixonado.

Quem diria que não era amor, era puro laço de sangue.

Depois de muito tempo, Wumei subiu com despreocupação. Ele abriu a porta do escritório e, ao levantar a cabeça, viu Cheng Yu olhando fixamente para ele. Sem querer, franziu a testa, fechou a porta e, sem expressão, foi sentar ao lado de Rong Bai.

— Você não tem nada a dizer para mim, para nós?

— You Ran é minha irmã de sangue. Fui adotado pela minha mãe desde pequeno, vocês sabem disso. Há dez anos, quando ajudei minha mãe a investigar um caso em Jiangcheng, descobri que tinha uma irmã. Depois, investiguei em segredo e descobri que ela vivia bem debaixo do meu nariz, só que eu não sabia.

— E depois? — Cheng Yu continuou, perguntando.

— Depois, minha mãe parece que descobriu e mandou You Ran para Beicheng. — Então, o resto eles mais ou menos sabiam. Não era difícil explicar por que Wumei tratava You Ran de forma tão diferente.

Cheng Yu piscou os olhos, pensou por alguns segundos e pensou consigo mesmo: que sorte que ele tinha dito que Wumei estava apaixonado por You Ran. Naquela época, se Wumei não tivesse interferido, You Ran já teria sido sacrificada para enfrentar Fiennes, e não estaria viva aqui como agora.

Depois de uma pausa, Cheng Yu lembrou-se do que viu quando entrou e perguntou:

— O que aconteceu com os olhos de You Ran?

— Ela não enxerga mais.

— Por quê? — Assim que Cheng Yu perguntou, se arrependeu. You Ran tinha estado nas mãos de Baixiang, e a cegueira era obra dela. Como ele ainda tinha coragem de perguntar por quê? Naquele momento, ele queria dar um tapa na própria boca, por falar no que não devia.

Wumei não pareceu se importar, como se já estivesse acostumado. A história de You Ran foi explicada em poucas palavras por Wumei, e o ambiente caiu num silêncio estranho. Cheng Yu franziu a testa, olhou para os dois e disse com voz grave:

— Vocês sabem tudo sobre o meu caso, então pretendo ir para casa esta noite.

— Não tem medo de uma emboscada? — Wumei perguntou sério.

— Mesmo que tenha, tenho que ir. Preciso perguntar algumas coisas ao meu pai pessoalmente. — Esse era o método arriscado de Cheng Yu. O pai dele devia saber muito sobre a mãe, e algumas coisas já faziam tanto tempo que não havia provas úteis, a precisão não era grande. Mas já que ele tinha decidido esclarecer tudo, precisava encontrar as respostas.

Rong Bai nunca gostava de dar opiniões, então usou o silêncio para mostrar apoio. Já Wumei considerava se haveria pessoas de Baixiang à espreita, mas Cheng Yu já tinha tomado a decisão, e nem dez bois o fariam voltar atrás.

À noite, com tudo preparado, Cheng Yu e Wumei foram juntos para a Mansão Defei.

— Como eu esperava, minha mãe já tinha armado uma emboscada aqui, esperando você cair na armadilha. — Wumei examinou o ambiente com seriedade, e de repente notou uma câmera escondida na vegetação. Sacou a arma do coldre e, com um estalo, a câmera soltou fumaça preta.

— Grosseiro.

Wumei franziu a testa, olhou feio para Cheng Yu e disse friamente:

— Vá logo ver o pai.

Cheng Yu piscou os olhos e disse devagar:

— Estou preocupado que meu pai já esteja sob controle da minha mãe.

— Não está. — Wumei disse com convicção. Antes de sair da França, ele tinha deixado um plano, mantendo alguns homens de confiança na mansão para proteger o pai.

Cheng Yu virou-se para olhar Wumei, com um sorriso irônico:

— Parece que você já previa que isso ia acontecer hoje?

Wumei apertou os lábios, não respondeu, e continuou andando sem fazer alarde. Ele era alguém que se movia na escuridão, e a noite era sua melhor camuflagem. Cheng Yu o seguiu em silêncio, desviando dos olheiros de Baixiang, até encontrar o quarto do pai. Wumei parou e disse de repente:

— Você entra, eu espero aqui fora.

— Está bem. — Cheng Yu não hesitou, abriu a porta rapidamente e entrou.

O quarto estava escuro, as cortinas ligeiramente abertas, a luz fria da lua entrava pela janela. O pai de Cheng estava sentado numa cadeira de balanço perto da janela, com uma xícara de café na mão. Seus movimentos eram elegantes, a xícara tocava levemente seus lábios, ele pareceu sentir o aroma e deu um pequeno gole.

— Finalmente você veio. — A voz do pai de Cheng era muito grave, sua reação era calma, como se estivesse esperando por aquele dia. Ele colocou a xícara devagar e se virou para olhar a figura oculta na escuridão.