Capítulo 795: Capítulo 795: Qualquer um pode

Na cidade desconhecida de Beicheng, Feng Yuan não conhecia muitas pessoas, além da família Ning e da família Zhan. Ela tinha voltado secretamente do exterior e não ousava ir à casa dos Zhan procurar o tio, muito menos procurar Zhan Meng, especialmente depois do mal-entendido da noite anterior, em que acabou dormindo com Ning Bei. Deixando de lado quem estava certo ou errado, o fato de ela ter fugido de manhã ao acordar já era culpa dela.

Feng Yuan estava desesperada naquele momento. Por mais rápido que tivesse escapado, ao sair do hotel, lembrou-se de repente que, na pressa da noite anterior, não tinha encontrado o documento de identidade de Ning Bei e registrou o quarto em seu próprio nome. Então, quando Ning Bei acordasse, ele certamente descobriria o que aconteceu na noite passada, e ela tinha deixado escapar justamente a evidência mais importante.

Conseguir as informações dela no hotel não era difícil para Ning Bei; era algo fácil, sem qualquer desafio.

E agora? Ele já devia saber que era ela. Feng Yuan andava sem rumo pelas ruas, sem saber qual era o destino daquele caminho. Seu coração estava angustiado, cheio de medo. Por um lado, temia que Ning Bei a encontrasse e ela não tivesse uma desculpa razoável para explicar; por outro, temia que ele não a procurasse, o que significaria que ele realmente não se importava mais com ela.

— Ei, você não tem olhos? Não vê que bateu em alguém? — Uma voz abrupta soou de repente. Feng Yuan ergueu a cabeça, atordoada, e olhou para a figura estranha que apontava para seu nariz, com a boca se abrindo e fechando. Aos seus olhos, aquela pessoa era detestável. Ela piscou, virou-se e continuou andando com desenvoltura.

— Não, mas que tipo de pessoa você é? Bate em alguém e nem pede desculpas?

— Ah, deixa pra lá. Acho que ela pode ter passado por algo ruim, está tão abatida. Você podia parar de falar.

— Seu idiota! Será que você acha ela bonita e já se interessou?

— Besteira.

— É besteira minha ou você está com a consciência pesada? Estou avisando, se você ousar olhar para outra mulher, juro que arranco sua pele na hora.

A voz da mulher xingando o homem ecoava vagamente nos ouvidos de Feng Yuan, enquanto os suspiros impotentes e resignados do homem chegavam até ela de vez em quando. Ela hesitou, virou-se lentamente para olhar para trás. A mulher que estava xingando parou de repreender o homem ao lado e, com o rosto sombrio, apontou para ela e começou a gritar novamente:

— O que está olhando? Nunca viu alguém xingar?

Feng Yuan balançou a cabeça em silêncio. No fundo, sentiu apenas uma estranheza, como se o ar ao redor estivesse mudando silenciosamente. Essa sensação lhe era muito familiar, e ao mesmo tempo a fazia querer sair dali o mais rápido possível.

Justamente por ser tão familiar, ela queria fugir.

Antes que Feng Yuan pudesse fazer algum movimento para escapar, a mulher que a xingava, por algum motivo, soltou de repente a mão do homem que a segurava e veio direto em sua direção. Feng Yuan a encarou, atônita, ouvindo-a dizer:

— Estou dizendo, você é maluca? Fica encarando meu namorado o tempo todo? Quer dar em cima dele?

— ... Dar em cima? — Feng Yuan franziu a testa de repente. Ela, dar em cima do namorado dela?

— Não pense que não sei o que se passa na sua cabeça. Já vi muitas mulheres como você, que andam na rua e não conseguem tirar os olhos dos homens. Se está tão carente, vá procurar um, mas ficar espiando os outros? Só de olhar, já sei que você não se dá valor. Essa roupa que está vestindo é de homem, não é? Acabou de sair da cama de algum vagabundo?

A mulher falava de forma cruel. Feng Yuan estava distraída, pensando em outras coisas, e por isso deixou que ela ficasse zumbindo como uma mosca em seu ouvido. Mas sua indiferença foi interpretada como uma confissão tácita, e a mulher ainda começou a puxar sua roupa, algo que não dava mais para tolerar.

Quando a mulher tocou sua roupa, Feng Yuan instintivamente ergueu a mão e a empurrou. Naquele momento, esqueceu de controlar a força e a derrubou no chão de surpresa. A mulher ficou sentada no chão, atônita, encarando Feng Yuan com incredulidade, como se quisesse devorá-la viva.

— Não foi de propósito, mas você estava sendo tão agressiva que não vou me desculpar. — Essa foi a primeira frase que Feng Yuan disse depois de tanto silêncio. Se não falasse, seria tomada por muda.

— Sua vadia! Como ousa me empurrar! — A mulher no chão olhou para o homem ao lado, que ainda não tinha reagido, e gritou com ele: — Você é cego? Não vai me levantar logo? Fica aí olhando, é bonito? Não viu que sua namorada foi agredida? Se é homem, vai me ajudar a dar uma lição nela!

O homem obedeceu, ajudou a mulher a se levantar e disse:

— Ya Ya, deixa pra lá.

— Deixar pra lá? Você está brincando? Nunca ninguém ousou me tratar assim!

Feng Yuan cruzou os braços sobre o peito, olhando de cima para a mulher chamada Ya Ya, e disse friamente:

— Então agora você experimentou? Não deveria me agradecer por te proporcionar outras experiências na vida?

— Vadia, espera só! — Ya Ya, na frente de Feng Yuan, pegou o celular e ligou, claramente chamando reforços.

Vendo isso, Feng Yuan não pôde deixar de rir. Baixou as mãos para os lados e olhou para a garota, que parecia ter menos de vinte anos. Não tinha paciência para se envolver em discussões tolas com uma menina. Ajeitou o cabelo e disse calmamente:

— Vá chamar seus ajudantes, pode ir devagar. Tenho coisas a fazer, não vou brincar com você.

— Pare! Acha que sou tão fácil de intimidar? Já que me bateu, vai ter que pagar por isso, senão não vai sair tão facilmente.

— Engraçado. Quando eu te bati? Só te empurrei de leve, e você caiu. Quem diria que você é tão frágil. E ainda me culpa por isso?

Havia muitas pessoas irracionais por aí, e não dava para lidar com todas com paciência. Feng Yuan pensou um pouco, jogou o cabelo para trás do pescoço, revelando o colo fino, olhou para a garota que falava ao telefone chorando, deu um sorriso resignado e se virou para ir embora.

Atrás dela, ouviam-se os xingamentos da garota e os suspiros impotentes do homem. Ela não pôde evitar um leve sorriso no canto da boca. Aquele pequeno incidente parecia ter distraído sua atenção, e seu coração se sentia um pouco mais leve.

Mas a leveza durou apenas um instante, porque, na esquina à frente, as pernas de Feng Yuan pareciam presas por um martelo de mil quilos, incapazes de dar um passo. Ela ficou parada, imóvel, com seus olhos límpidos fixos à frente, no homem que não sabia quando tinha aparecido nem há quanto tempo a observava.

Um passo, dois passos, três passos. A distância entre eles estava ficando cada vez menor. Naqueles poucos segundos em que a distância se encurtava, o humor de Feng Yuan mudou drasticamente. Sua expressão estava rígida, sem saber se devia sorrir ou chorar, ou simplesmente ficar inexpressiva.

O olhar de Ning Bei passou por Feng Yuan e pousou em outra mulher. Ela hesitou.

— Quarto irmão, o que você está fazendo aqui?

— Passando por aqui. Ya Ya, o que você está fazendo aqui? Por que sua roupa está tão suja? — Ning Bei olhou para a garota um pouco irritada e perguntou calmamente. Em seguida, a garota agarrou o braço de Ning Bei, fazendo manha, e contou tudo o que tinha acontecido em detalhes.

Claro, na versão dela, a única culpada era Feng Yuan.

Ning Bei acariciou a cabeça de Ya Ya e disse em tom grave:

— Entendi.

— Quarto irmão, você tem que dar uma lição nessa mulher sem noção.

Ning Bei resmungou um "hum" impaciente:

— Vou dar uma lição nela. Agora vá trocar de roupa, senão, se continuar aqui, vai passar ainda mais vergonha.

Depois de mandar Ya Ya embora, Ning Bei hesitou por um momento, virou-se e foi até Feng Yuan. Estendeu a mão, ergueu o queixo dela e disse friamente:

— Não estava cheia de coragem ontem à noite? E agora nem ousa me olhar?

— Não sei do que você está falando.

— Essa roupa que você está vestindo, vai me dizer que é de outro homem? — Ning Bei levantou a barra da roupa, com um sorriso malicioso. — Pensei que teria que me esforçar um pouco para te encontrar, mas veio parar bem na minha frente. Devo dizer que temos muito destino, ou que você está destinada a não escapar das minhas mãos?

— Ning Bei, acha que falando assim vai mudar alguma coisa entre nós?

— Não vai?

— Claro que não. Mesmo que a mulher de ontem à noite fosse eu, o que isso significa? Foi só que você estava bêbado a ponto de não se lembrar de nada, e eu estava por perto. Seja por amizade ou porque você é irmão do meu cunhado, eu não te deixaria largado na rua para se virar sozinho, entendeu?

— Sério? — Ning Bei franziu a testa, retrucando.

Feng Yuan assentiu seriamente:

— Sim. Mesmo que fosse um gato ou um cachorro, eu o levaria comigo. — Quanto mais você. Claro, essa frase ela não disse, apenas pensou em silêncio.

— Gato ou cachorro? Você está me comparando a gatos e cachorros?! — Ning Bei, furioso, andava de um lado para o outro ao redor de Feng Yuan. Na mente dela, ele tinha o mesmo valor que um gato ou cachorro, algo dispensável e sem importância.

Feng Yuan revirou os olhos e disse, entre o riso e o choro:

— Foi só uma metáfora.

— Nem metáfora pode! Para você, o que aconteceu ontem à noite não tem importância alguma?

— Foi só uma noite de prazer entre homem e mulher, algo consensual. Por que você precisa se prender a isso? Além do mais, já fizemos isso muitas vezes antes, e você nunca se importou ou ficou remoendo. — A atitude indiferente de Feng Yuan deixou Ning Bei ainda mais irritado. Ele nunca tinha tratado algo tão sagrado como algo sem importância.

Para ele, só com a pessoa amada é que se podia ter aquela sensação de união entre corpo e alma.

As palavras de Feng Yuan fizeram Ning Bei vê-la sob uma nova luz. Ele pensava que ela compartilhava da mesma opinião, mas descobriu que tudo não passava de algo consensual. Seu rosto escureceu gradualmente. De repente, agarrou a mão de Feng Yuan e perguntou, com frieza:

— Então, para você, qualquer homem serve? Não importa com quem você se deita?

— Sim ou não, o que isso tem a ver com você? Ning Bei, já terminamos.