Capítulo 790: Capítulo 790 Confronto com o Velho Qian

A família Qian é extremamente discreta na China; a maioria deles fica em casa, saindo apenas quando necessário. Qi Ruyan, sob a vigilância dos Qian, não difere do que era antes no anexo da família Fei. Aqui, ela continua a mesma: come vegetariano, recita sutras e mantém seu coração sereno como água parada.

O velho Qian a visitou algumas vezes, e ela sempre manteve a mesma atitude: calma, indiferente aos assuntos da família Fei, repetindo apenas que não sabia de nada. Depois disso, o velho Qian raramente a visitava, e Qi Ruyan aproveitava a tranquilidade.

Este dia não seria pacífico. Quando Qi Ruyan se levantou cedo para recitar os sutras, sentiu-se inquieta. O rosário que segurava se quebrou acidentalmente, e as contas se espalharam pelo chão, assustando-a profundamente.

— Senhorita, o chefe da família Fei chegou. — Uma voz grave veio de fora do quarto. Ela, ajoelhada diante do Buda, hesitou por um instante, levantou-se rapidamente, com um lampejo de pânico nos olhos, e perguntou de repente: — Onde ele está agora?

— Na sala de estar, o velho senhor também está lá.

— Levem-me até ele. — Qi Ruyan foi até a porta e puxou-a com força, mas descobriu que estava trancada. Impossibilitada de sair, ela, normalmente serena, começou a bater na porta desesperadamente. Do lado de fora, ninguém reagiu, então ela usou mãos e pés: — Levem-me para ver Xiaosi!

— Senhorita, sem a ordem do velho senhor, ninguém ousaria libertá-la.

Essas palavras caíram como uma pedra de mil quilos sobre o peito de Qi Ruyan, quase a sufocando. Ela apertou o peito com força, a roupa amassada, mas não conseguia se acalmar. Queria sair, sentia o coração inquieto, temendo que o velho Qian fizesse algo contra Xiaosi.

— Senhorita, não perca seu tempo. Sozinha, você não conseguirá sair.

Qi Ruyan sabia disso, e por isso estava tão angustiada. Temia que Fei Ensi realmente usasse o colar para trocá-la, e também que o velho Qian, após obter o colar, quebrasse o acordo e não a deixasse sair em segurança.

Ela conhecia o temperamento do velho Qian. Quando decidiu trair a família sem hesitar, já sabia o que poderia acontecer. Ainda estar viva, vendo o filho crescer, já era suficiente para ela.

— Ajude-me, e juro que não contarei a ninguém.

Quem a informava do lado de fora era seu antigo servo de infância. Eles haviam perdido contato quando ela deixou o Japão, e, após três ou quatro décadas, ao se reencontrarem, Qi Ruyan sentia apenas gratidão por ele, como um parente, sem perceber o amor profundo que ele guardava em segredo.

Diante dos apelos desesperados de Qi Ruyan, ele não conseguiu ser duro e a libertou em segredo. Assim que Qi Ruyan saiu do quarto, desviou-se dele e correu em disparada para a sala de estar.

Na sala de estar, Fei Ensi estava no centro, ladeado por duas fileiras de seguranças de terno preto, de expressão impassível, enquanto o velho Qian, apoiado em sua bengala, estava sentado no sofá.

O ambiente estava em silêncio absoluto. Fei Ensi olhou calmamente para os seguranças ao redor, soltou uma risada fria e fixou o olhar no velho Qian, notando as rugas em seus olhos, marcas do tempo. O que antes era um ancião bondoso e afável agora o observava com um olhar penetrante.

Percebendo o escrutínio do velho Qian, Fei Ensi não se apressou. Diante de todos, virou-se e sentou-se ao lado do velho Qian, com expressão impassível. Achou que, por ter ficado em pé desde que entrou, suas pernas estavam cansadas e precisava descansar um pouco.

— Fei Ensi, você não parece nem um pouco preocupado se vai sair daqui vivo. — A voz envelhecida do velho Qian transmitia uma energia vigorosa, incomum para alguém de seus oitenta ou noventa anos.

Na verdade, pela aparência, o velho Qian também não parecia ter essa idade.

Fei Ensi varreu o espaço vazio à sua frente e disse, com um sorriso irônico, algo sem nexo: — Estou aqui há tanto tempo e ninguém ofereceu um chá ao visitante. Então é assim que a família Qian recebe os hóspedes? Hoje aprendi algo novo.

— Hah, ainda tem humor para chá? Parece que já fez sua escolha.

— Você quer o que deseja, então me mostre o que eu quero. — Fei Ensi riu com desdém.

— Naturalmente. Sua mãe é a senhorita da família Qian, então será tratada como tal. Mandarei alguém trazer Ruyan. — O velho Qian sabia que Fei Ensi concordara em trocar o colar por Qi Ruyan, e seu rosto se iluminou, os olhos brilhando com um brilho ganancioso.

O homem que recebeu a ordem ainda não havia saído da sala quando voltou. Qi Ruyan já aparecera cambaleando, com o rosto pálido e o corpo frágil. Ao ver o filho, que não via há dias, seus olhos se encheram de lágrimas.

— Mãe. — Fei Ensi correu para segurar o corpo inclinado de Qi Ruyan, perguntando com preocupação: — Mãe, eles a maltrataram? Por que está tão pálida?

— Não, é só que senti muito sua falta. — Qi Ruyan não queria criar mais conflitos entre Fei Ensi e os Qian. Na verdade, sua saúde já vinha piorando dia após dia, e, com a preocupação constante, estava ainda mais fraca. Isso não tinha nada a ver com os Qian.

Ela respirou fundo, colocou a mão na palma de Fei Ensi e disse suavemente: — Mãe está bem, Xiaosi. Você se esqueceu do que eu disse da última vez? Não pedi para você não voltar mais?

Qi Ruyan realmente dissera isso a Fei Ensi. Não queria que ele usasse o colar para trocá-la, nem que os pertences da família Fei caíssem em mãos alheias. Fei Ze havia se esforçado tanto para proteger aquele colar; mesmo que não fosse pela família Fei, ela queria, por Fei Ze, entregá-lo a Fei Ensi.

Agora, o colar estava com Fei Ensi, mas ele queria usá-lo para trocá-la.

— Mãe, que absurdo é esse? Como eu poderia deixá-los levá-la de volta ao Japão?

— Criança tola, você acha que, se entregar o colar a eles, eles vão me deixar em paz? — Qi Ruyan sorriu levemente, apoiando-se em Fei Ensi, e falou com dificuldade, em voz baixa.

— Mãe, sua palidez está piorando. Não fale mais. Vou chamar alguém para examiná-la.

— Não precisa. Conheço meu próprio corpo. Não preciso de exames. — Qi Ruyan recusou a oferta de Fei Ensi, ergueu os olhos, respirou fundo e olhou firmemente para o velho Qian. Seus dedos, apoiados na palma dele, se moveram levemente, indicando que Fei Ensi a levasse até ele.

Fei Ensi hesitou, mas acabou ajudando Qi Ruyan a se aproximar. Antes que pudesse reagir, ela se ajoelhou diante do velho Qian, curvou-se e tocou o chão com a testa, as mãos também apoiadas no chão, numa postura de reverência. Fei Ensi tentou fazê-la levantar, mas ela permaneceu imóvel.

O velho Qian permaneceu sentado, impassível. Olhou para Qi Ruyan no chão e disse friamente: — Ruyan, o que está fazendo? Está se desculpando pelos erros do passado?

Falar assim era não conhecer Qi Ruyan. Na verdade, ninguém ali a conhecia de verdade. Fei Ensi não crescera ao lado dela; o vínculo entre eles só se fortaleceu mais tarde. Quanto aos outros na sala, exceto o homem que a libertara, eram todos irrelevantes.

Aqueles seguranças eram as armas assassinas dos Qian. Qi Ruyan já os vira treinar — aquela luta sem piedade, aquele desejo de ser o último sobrevivente a assustava. Até hoje, não conseguia esquecer a expressão dos que sobreviviam, o sangue correndo ao redor, os corpos empilhados.

— Avô, só peço que não dificulte a vida do meu filho. Ele não sabe de nada. Fei Ze partiu cedo; ele era apenas uma criança. Mesmo que Fei Ze lhe tivesse contado sobre o tesouro, ele não se lembraria agora.

— Absurdo! Esse é o segredo da família Fei. Como chefe da família e herdeiro reconhecido, ele não saberia do tesouro? Ruyan, o avô já foi muito tolerante com você. Não seja ingrata. — A voz do velho Qian era pesada e forçada; ao terminar, tossiu algumas vezes.

— Avô, as crianças são inocentes. Deixe-o ir embora, e eu contarei tudo o que sei, ponto por ponto. Mas meu filho precisa sair daqui em segurança!

— Você acha que tem o direito de escolher? Já que sabe, vou lhe dar uma opção: se contar tudo, posso garantir que ele saia daqui em segurança. Mas preciso confirmar se o que diz é verdade. Caso contrário, nem você nem seu filho sairão daqui.

— Não.

— Você não tem o direito de recusar. Ruyan, você cresceu com o avô e conhece meu temperamento. Essa chance é única. Quer que ele saia vivo ou carregado daqui, depende de você.

Fei Ensi, que ficara de lado por um tempo, interveio friamente, interrompendo o diálogo: — Mãe, por que se rebaixar assim?

— Xiaosi, você não entenderia. — Ele não entenderia, e ela não teria mais chance de explicar.

— Velho Qian, quem não tem escolha aqui é você. Se fizer algo contra minha mãe, nunca conseguirá este colar. — Fei Ensi tirou uma caixa e a abriu lentamente, revelando um colar de diamantes que emitia um brilho azulado.

O velho Qian hesitou por um momento, franziu a testa e perguntou: — Então, o que você quer?

— Primeiro, nos liberte. Depois, entregarei o colar em suas mãos. — Fei Ensi abraçou Qi Ruyan, sentindo que ela apertava seu pulso com força. Ele olhou discretamente para baixo e ouviu Qi Ruyan sussurrar: — O colar foi dado a mim por seu pai. Não o entregue a outros por minha causa.

Fei Ensi apertou o colar discretamente. O velho Qian pareceu perceber algo e fez um sinal para os homens ao lado. Se Fei Ensi não cedesse à ameaça, usariam a força. Matá-los, se necessário, não importava.

Na vasta sala de estar, uma aura assassina densa pairava. Fei Ensi protegeu Qi Ruyan com cuidado e, de repente, olhou para o velho Qian, perguntando com calma: — Você acha que eu vim sozinho?