Capítulo 764: Capítulo 764: Dê para os cachorros

A criança continuava balançando a cabeça, seu jeito desajeitado atraía os olhares dos transeuntes, mas Fiennes fingia não ver. Ele agarrou os ombros da criança, apertando sem controle, fazendo-a sentir dor e, de repente, soltar um choro alto.

Fiennes ficou perplexo. Ele olhou, atônito, para a criança que enxugava as lágrimas. O que ele tinha feito? Não a tocou, não a ameaçou, e mesmo assim ela chorava. Pensando nisso, ele soltou as mãos, lançou um olhar frio para a criança e disse, em tom calmo: "Se você não falar, vou te dar de comer aos cães."

Assim que ele falou, a criança não só chorou ainda mais alto, como também começou a tremer, soluçando: "Não quero ser dado de comer aos cães."

O rosto de Fiennes mudou drasticamente, porque as pessoas ao redor, que observavam a cena, o confundiram com um sequestrador de crianças. Alguns até queriam chamar a polícia. A criança chorava inconsolável, e ele, sem paciência para acalmá-la, levantou-se e olhou para ela de cima, com a voz grave e intimidadora: "Se você chorar mais, vou te dar aos cães agora mesmo."

Bem, o aviso foi eficaz. A criança parou de chorar na hora, embora os ombros ainda tremessem. E aqueles que tentavam chamar a polícia, ao sentir a aura cortante que Fiennes exalava, murcharam como balões vazios, calando-se e apenas murmurando baixinho.

Ele respirou fundo, apertou a mão e conseguiu adivinhar, vagamente, o que havia dentro do saquinho preto. Era justamente por isso que ele queria ainda mais ver aquela pessoa.

"Que tal assim: se você parar de chorar, vou te comprar um doce", disse Fiennes, de forma estranha, e logo percebeu a criança erguendo os olhos, desconfiada, olhando para ele. Ele ficou surpreso por um instante e disse, impaciente: "Se você me contar, vou comprar tudo o que você quiser."

A criança bateu os lábios, estendeu a mão suja e começou a contar nos dedos: "Quero comer doce, quero comer arroz, quero comer carne, quero roupa nova, quero sorvete..."

Várias linhas escuras surgiram na testa de Fiennes, e ele disse, de boca cheia: "Eu prometo. Vou mandar alguém te levar. Agora me diga: onde está essa pessoa?"

"Lá", disse a criança, sorrindo, apontando para o caminho de onde viera. "Aquela irmã estava na cafeteria ali."

Cafeteria! Ele tinha sido descuidado e não a notara. Será que ela também tinha chegado cedo? Por que não apareceu? Por que esse segredo todo?

Cheio de dúvidas, Fiennes contornou a criança e correu naquela direção. A criança, ao vê-lo correr, seguiu-o sem hesitar, gritando e chorando atrás: "Irmão mais velho, você prometeu me comprar comida!"

"..."

Fiennes chegou à porta da cafeteria e deu uma volta por toda a área, mas não encontrou quem procurava. Quando se virou, viu a criança, com o nariz escorrendo e ofegante, seguindo-o. Ele foi até ela, agarrou-a pela gola e disse, feroz: "Você está me enganando?"

"Ah... não me dê de comer aos cães, irmão mais velho, não estou mentindo, juro que não estou mentindo." A criança balançava as mãos, os olhos arregalados de medo, olhando para Fiennes. Não entendia por que o irmão que prometera comprar doce para ele de repente se transformara naquela figura devoradora. Estava com muito medo e já não queria mais o doce.

"Yuran! Sei que você está aqui. Se não aparecer, vou dar essa criança de comer aos cães." Fiennes disse, de repente, com frieza, para o ar. As pessoas que passavam por ele o olhavam com espanto e se afastavam rapidamente, como se ele fosse um louco.

O tempo parou por alguns segundos. Fiennes ficou imóvel, ainda segurando a criança. Naquele momento, Yuran estava escondida a menos de cinco metros dele. Ela se inclinou cuidadosamente para fora, os olhos fixos nele, cheios de saudade e desejo, mas não ousava sair.

Ela temia que Li Xiumin descobrisse. Se conseguira escapar escondida desta vez, não sabia quando poderia fazê-lo novamente. Se Li Xiumin descobrisse, as consequências seriam imprevisíveis.

Mas a criança era inocente. De repente, Yuran desviou o olhar bruscamente. Fiennes sentiu claramente que um olhar ardente o observara, mas desaparecera num instante. Com expressão impassível, ele levou a criança lentamente para outra direção. Faltavam três metros, dois metros...

O coração de Yuran se apertou de repente. Ela segurou firmemente a roupa sobre o peito, sentindo a aura de Fiennes se aproximar cada vez mais. Instintivamente, quis fugir, mas antes que pudesse dar um passo, Fiennes apareceu de repente e agarrou seu pulso, fazendo-a cair descontroladamente em seus braços.

O cheiro familiar, a pessoa familiar. Fiennes largou a criança e abraçou Yuran com força, apoiando o queixo no topo de sua cabeça, sentindo o cheiro familiar que parecia não ter mudado nada.

"Fiennes", Yuran o abraçou com força, desejando se fundir em seu corpo. Aquele abraço era o que ela sonhava dia e noite, até em seus sonhos.

Ela enterrou o rosto em seu peito, e as lágrimas começaram a escorrer incontrolavelmente, molhando a roupa de Fiennes. Como se um século tivesse passado, ela falou, com a voz abafada: "Se você não tivesse me visto, teria mesmo dado a criança de comer aos cães?"

"Finalmente nos encontramos, não vamos falar dessas coisas sem importância."

"Fiennes, sem mim ao seu lado, você parece ter voltado a ser como antes." Yuran se afastou de seu abraço, ergueu a mão e acariciou suavemente seu rosto, suas sobrancelhas.

Ao lado, a criança, de olhos brilhantes, olhava confusa para os dois que se abraçavam e disse, com voz suave: "Irmão mais velho, você prometeu me levar para comprar doce."

Fiennes tirou uma nota de cem e disse, generoso: "Compre você mesmo. Se não for suficiente, ligue para este número." E entregou o número de Félix.

Vendo que a criança não entendia, Yuran se agachou com paciência, explicou-lhe com voz doce e deu algumas instruções cuidadosas antes de deixá-la ir. Agora, sozinhos, de repente parecia que não havia mais o que dizer, e o clima ficou estranho.

Quando a relação deles se tornara assim? Yuran pensou em algo e, de repente, clareou. Olhou profundamente para Fiennes e disse, com voz suave: "Ela está na França. Você vai à França para salvá-la, não é?"

As palavras de Yuran surpreenderam Fiennes. Ele hesitou por um instante, rapidamente disfarçou o espanto e disse: "Yuran, ela acabou assim, em parte por minha causa. Não posso deixá-la..."

Yuran franziu os lábios, virou-se de costas para Fiennes, sorriu levemente e o interrompeu: "Eu sei. Você nunca quis que uma mulher sofresse por sua causa. Então acha que tudo o que ela passou foi por sua culpa. Você quer salvá-la, eu entendo."

Mas... Yuran não terminou a frase. As coisas nunca são tão perfeitas quanto se imagina. Fiennes sempre reluta em envolver quem está ao seu redor, mas não percebe que essas pessoas têm laços profundos com ele. Ficar de fora, provavelmente, nenhuma delas conseguiria.

Wen Wan era assim, ela também, e até aquela mulher também.

Talvez todas as mulheres que o amam sejam assim.

Yuran sorriu, virou-se para olhá-lo, pensou por um momento e disse: "Sei que ela está na França porque ouvi de Li Xiumin. Só imaginei que você não ficaria de braços cruzados. Na verdade, pensei que, se te entregasse aquilo, você adiaria essa ideia. Mas, pelo visto, não adiantou."

"Ranran."

"Não precisa me explicar. Vá. Sempre vou te apoiar. Mas espero que você volte em segurança, ok?" Yuran segurou a mão de Fiennes. "Sei que não posso te impedir, mas já pensou que isso pode ser uma armadilha?"

Yuran queria ter dito isso antes, mas não tinha provas. Naquele dia, ouviu apenas um pouco antes de ser descoberta. Depois disso, Li Xiumin raramente falava desses assuntos em casa, e Cheng Yu também não aparecia. Ela não tinha como obter informações.

Fiennes respondeu, firme: "Mesmo que seja uma armadilha, vou tirá-la de lá."

Yuran assentiu, sem dizer mais nada. Não sabia o que mais podia dizer para impedir Fiennes. Aquela mulher traíra Cheng Yu por ele, até arriscara a vida por ele. Que direito tinha ela de impedi-lo de salvá-la? Yuran baixou a cabeça. A única coisa que podia fazer era ajudar Fiennes com suas próprias forças.

"Preciso ir. Se Li Xiumin descobrir que sumi, vai ser um problema", disse Yuran, baixinho. Fiennes, porém, segurou sua mão, levou-a aos lábios e beijou-a, com o rosto cheio de culpa.

"Desculpa."

"Desculpa."

Os dois disseram ao mesmo tempo. Assim que falaram, ambos sorriram, compreendendo o que o outro pensava. Yuran sabia que não podia ficar mais ali. Olhou para Fiennes com relutância, soltou-se de suas mãos, virou-se e correu para a multidão, desaparecendo no mar de pessoas.

Fiennes de repente apertou o peito, sentindo uma pontada no coração, como se fosse perder algo precioso.

Ele desviou o olhar em silêncio, virou-se e foi para o outro lado. No coração, disse inúmeras vezes "desculpa" para Yuran. Salvá-la era algo que precisava fazer.

Ele dirigiu sozinho pelas ruas da cidade, o fluxo de carros e pessoas passando diante de seus olhos. Com uma mão no volante e a outra segurando o pingente que Yuran lhe dera, ele o fitava sem piscar.

Aquela era a chave guardada pela família Fei. Fiennes voltou para casa distraidamente e, ao ver uma criança pequena e delicada sentada no sofá, ficou surpreso. Naquele momento, Félix, de avental, saiu da cozinha segurando um bolo fumegante. Ao ver o patrão, perguntou: "Patrão, quer um pouco?"

"Não." Fiennes olhou para a criança e perguntou: "Quem é essa criança?"

"Patrão, é a criança que o senhor me entregou ainda agora", respondeu Félix, também confuso. Não entendia por que o patrão lhe dera uma criança para cuidar.

Assim que a criança viu Fiennes, sorriu e, sem se conter, pulou do sofá, correu até ele e abraçou sua perna, dizendo, sorridente: "Irmão mais velho, cadê a irmã?"

O olhar de Fiennes mudou. Félix, rápido, pegou a criança e a colocou de volta no sofá, perguntando, com voz grave: "Patrão, o senhor viu a senhora?"