Essa pessoa não é um assistente de Fiennes, então, para ele, pode ficar tranquilo. Com esse alguém de origem desconhecida que o tem como alvo, ele tem todo o tempo do mundo para brincar devagar. Quanto a Fiennes, esse sim é o objetivo final que ele quer destruir.
— Patrão, ele parece estar investigando seus passos. — Parece? Quero ver se ele realmente consegue descobrir meus passos. — Patrão, o velho senhor ligou de novo.
Dedos longos batiam levemente na mesa, produzindo um som nítido. A voz grave do secretário soava calma e pausada, com um toque de resignação. O homem sentado ergueu levemente os olhos, encarou o secretário por um instante e então falou: — É? O que ele disse?
— O velho senhor disse que quer que o patrão atenda o telefone.
Ao ouvir isso, o homem franziu levemente as sobrancelhas, pegou o celular que o secretário lhe estendia com desagrado, colocou-o no ouvido e disse com frieza: — Pai, o que foi?
— Seu moleque! Largou a empresa de novo pra mim! Já entreguei a empresa pra você há quatro anos, e você, hein, vai quando quer, larga quando quer. Quer me matar de raiva, é? — A voz estrondosa fez o corpo tremer, e pelo telefone só se ouvia ele falando sem parar.
Rong Bai segurou o celular com força e disse, mal-humorado: — Pai, se tem algo a dizer, diga. Se não, vou desligar.
— Moleque, estou mandando você voltar pra cuidar da empresa. Vai voltar ou não? — Tenho assuntos importantes para resolver. — Rong Bai disse com frieza, e, como se percebesse que a pessoa do outro lado ia explodir de novo, pensou um pouco e acrescentou: — Vou resolver isso aqui o mais rápido possível e tentar voltar logo. A empresa, por favor, fique a cargo do senhor por enquanto.
Largar a empresa de novo! Da última vez foi para correr atrás da esposa, e desta vez, o que é? Aliás, parecia que ele não via a nora há muito tempo. Quando Rong Bai ia desligar, ouviu de novo: — Ah, e minha nora?
Rong Bai hesitou por um instante, o olhar ficou vazio. Ele ergueu os olhos e fixou o olhar no céu cinzento do lado de fora da janela. O tempo parecia anunciar a chegada de uma chuva de outono. Lembrava que Wen Wan não gostava de dias chuvosos, mas ultimamente o tempo parecia sempre nublado e chuvoso. A cidade inteira parecia envolta por um redemoinho gigante, e as nuvens escuras que não se dissipavam no horizonte continuavam a se acumular sobre a cidade.
— Estou te perguntando, cadê minha nora? — Ela está dormindo. — Rong Bai desligou o telefone de uma vez. O secretário o viu levantar-se lentamente, caminhar até a janela panorâmica e olhar para baixo, para a cidade que carregava mais de vinte anos de memórias de Wen Wan. A tristeza em seus olhos era ainda mais opressiva do que a chuva de outono que chegava de repente.
Rong Bai também não lembrava mais quantos dias ele e Wen Wan estavam em Beicheng. Todos os dias, ele só queria não sair do hotel, nem se afastar de Wen Wan. Todas as tarefas eram feitas pelo secretário, e seu principal objetivo era acompanhar Wen Wan. Ele desviou o olhar, virou-se para o secretário e disse com frieza: — As ligações do meu pai, não precisa mais me avisar.
Assim que terminou de falar, voltou para o quarto. Viu Wen Wan deitada na cama, sonolenta, e seus olhos se encheram de compaixão. Ele se aproximou dela com cuidado, afastou suavemente o cabelo que cobria seu rosto, revelando uma face delicada e pálida.
— Rong Bai, estou tão cansada. — Wen Wan abriu os olhos lentamente, sabendo que quem a observava era Rong Bai, e sentiu uma paz interior. Nas duas últimas noites, ela sonhara com a cena em que fora procurar Li Xiumin, e todas as noites acordava sobressaltada, sem conseguir dormir pelo resto da noite.
E o sono de Rong Bai era muito leve. Sempre que percebia qualquer movimento de Wen Wan, acordava na hora e ficava com ela até que ela adormecesse. Por isso, nos últimos dias, ele também estava com um déficit grave de sono. Wen Wan tirou a mão de debaixo das cobertas e acariciou o rosto de Rong Bai. Até mesmo esse gesto simples parecia exigir muito esforço.
— Rong Bai, quero voltar para casa e dar uma olhada. — Wen Wan disse em voz baixa. Queria voltar à casa da família Wen, para ver o avô que já havia falecido quando ela se fechou para o mundo, e sua mãe, que morrera de doença.
— Está bem. — Rong Bai assentiu com ternura. — Quando você estiver melhor, eu a levo para dar uma olhada. — Não, quero ir hoje, posso? — Hoje não. Está chovendo lá fora, e seu corpo ainda não se recuperou. — Rong Bai relutava muito em deixar Wen Wan voltar à casa da família Wen naquele estado.
Wen Wan virou-se com dificuldade para olhar pela janela. As gotas de chuva deixavam marcas no vidro. Ela disse, muito baixinho: — Lembro que no outono em Beicheng chovia pouco. Parece que desde que voltamos, essa chuva de outono não parou mais, não é?
Ao ouvir isso, Rong Bai não soube o que responder. Naquele período, chovia sempre, e Wen Wan ficava o tempo todo no quarto, sem poder sair. Ele pensou que hoje seria como antes: enquanto chovesse, Wen Wan não pediria para sair. Mas não esperava que ela apenas baixasse os olhos, piscasse e dissesse: — Rong Bai, me leva para sair.
Rong Bai não conseguiu recusar. O secretário, com bom senso, virou-se e saiu do quarto. Ele ajudou Wen Wan a se levantar da cama com cuidado e a vestiu. Seu olhar caiu sobre as cicatrizes nas mãos de Wen Wan, e ele ficou paralisado por um instante. Wen Wan lentamente cobriu as cicatrizes com as mangas, franziu os lábios num sorriso e disse: — Rong Bai, já não dói mais.
A cicatriz na mão direita era de quando ela tentara tirar a própria vida, desesperada com o mundo após a partida de Fiennes. A da mão esquerda era de quando não suportava mais a dor e não conseguia enfrentar Li Xiumin, e quisera acabar com a própria vida. Essas duas cicatrizes fizeram Wen Wan passar duas vezes pela porta da morte.
Na primeira vez, foi salva por um homem chamado Zhang Yuan; na segunda, por um chamado Rong Bai. Zhang Yuan morrera torturado para salvá-la, e agora só Rong Bai estava ao lado dela, intacto. Que sorte a dela, em meio a um destino tão adverso, ainda poder encontrá-los. Wen Wan não conteve as lágrimas; gotas quentes caíram nas costas da mão de Rong Bai. Ela respirou fundo às pressas.
— Wan Wan, você é muito travessa. Sabe que quando chora, não consigo lidar com você. Você está segurando meu ponto fraco. Além da casa da família Wen, tem mais algum lugar que queira ir? — Rong Bai experimentou pela primeira vez o que era sorrir por obrigação. Era como se uma faca estivesse cravada em seu peito, mas ele só podia suportar a dor aguda, porque não queria que Wen Wan se preocupasse.
Residência Wen. Wen Wan pediu diretamente a Rong Bai que a levasse de volta à antiga casa da família Wen. A maioria das pessoas que moravam ali já havia partido. Quando ela entrou na casa e viu o mordomo saindo devagar, ficou completamente atônita. A decoração da casa não havia mudado nada; ainda era como na infância, exatamente igual.
Wen Wan se apoiou em Rong Bai, ergueu a cabeça com dificuldade para olhá-lo e disse em voz baixa: — Rong Bai, obrigada. — Ela já não era mais a garotinha que não entendia nada, nem aquela que só chorava escondida, nem a pessoa arrogante de antes.
Ela entendia que tinha grande responsabilidade pelo que acontecera à família Wen, e sabia também que Li Xiumin precisava se fortalecer; enfrentar a família Wen era apenas uma questão de tempo, e ela apenas acelerara o processo. Metade dos empregados da casa já havia ido embora; provavelmente só o mordomo ficara de bom grado para guardar a antiga residência.
Wen Wan levou Rong Bai até seu quarto. Ela caminhou lentamente até a cama, pegou uma moldura na mesa de cabeceira e olhou para a pessoa sorridente na foto e para o menino de rosto gelado ao lado dela. Não conseguiu conter o choro. As lágrimas caíram na moldura, e ela só então se deu conta: — Rong Bai, eu… — Tudo bem, eu entendo. — Rong Bai, com delicadeza, não a pressionou. Em vez disso, olhou com ela para as pessoas na foto. Quem ria alegremente era Wen Rou, e o de rosto gelado devia ser Fiennes. Wen Wan devia amar muito aquele homem. Ele já se arrependera inúmeras vezes de ter saído de Beicheng naquela época, em vez de ficar ao lado de Wen Wan.
Se não tivesse partido, talvez as coisas não tivessem acontecido, e quem sabe Wen Wan teria se apaixonado por ele.
Mas a vida não dá uma segunda chance. O que se perde, perde-se para sempre. Ele estava destinado a nunca ter Wen Wan.
— Rong Bai, na verdade, depois que voltei de Licheng, lembrei de quem você é. — Wen Wan falava enquanto caminhava até o guarda-roupa. Abriu a porta e, em seguida, um compartimento interno, de onde tirou um álbum de recordações. Fez sinal para Rong Bai pegá-lo e abri-lo. As fotos no álbum eram quase todas de Wen Wan e Rong Bai quando crianças.
Rong Bai examinou cada uma com muita atenção. Wen Wan olhava para o perfil de Rong Bai e disse lentamente: — Quero muito ir aos lugares onde brincávamos juntos. Você lembra onde ficam?
Ele lembrava. Lembrava de tudo que tinha a ver com Wen Wan. Assentiu e fechou o álbum. Ficaram pouco tempo na residência Wen, e Rong Bai levou Wen Wan ao parque onde brincavam quando crianças. Wen Wan olhou ao redor e disse, com um pouco de pesar: — Como mudou aqui. Já não se parece com a imagem que guardo na memória.
— Rong Bai, acho que aqui tinha um balanço. Eu gostava de sentar nele e sempre mandava você me balançar, não é? — Wen Wan falava pausadamente. De repente, franziu a testa, levou as mãos ao abdômen, e a testa se cobriu de suor frio. O rosto de Rong Bai mudou de cor, e ele gritou, aflito: — Wan Wan… — Rong Bai, não é nada. Só estou com um pouco de dor. Vai passar daqui a pouco. Ainda não terminei o que ia dizer. Quando éramos crianças, você sempre era intimidado pelos outros, e toda vez eu tinha que, tinha que afastá-los. Sabe, sempre achei você muito bobo, mas eu, ah, não conseguia evitar de querer ajudar você… — Wan Wan. — Ah, depois você foi embora. Vim te procurar aqui algumas vezes, mas nunca te vi, e nunca mais voltei. Nunca imaginei que o menino frágil da minha memória se tornaria um homem que pode me proteger. Rong Bai…
A voz de Wen Wan foi ficando cada vez mais baixa. Rong Bai teve que se inclinar, encostar o ouvido nos lábios dela, e só então ouviu, fraca: — Estou me sentindo mal.
Ao ouvir isso, Rong Bai, sem pensar em mais nada, pegou Wen Wan no colo e correu para o carro. O rosto de Wen Wan ficava cada vez pior, como o de alguém prestes a morrer, enchendo-o de medo.