No fundo do coração, Xu Ming sempre teve um medo inexplicável de Xu Su desde criança. Ele era um ramo colateral da família Xu, ou melhor, não tinha nenhuma relação de sangue com os Xu — sua mãe era apenas uma parente distante. Na época, ela se envolveu com o homem errado, engravidou e foi abandonada; os Xu, com pena dela, a acolheram em casa.
Na primeira vez que Xu Ming viu Xu Su, ficou impressionado com sua aura nobre inata. Quando pequeno, queria muito ser amigo de Xu Su, mas nunca ousou se aproximar. Mais tarde, ouviu de outros que Xu Su não gostava que grudassem nele; por ser tímido, nunca tomou a iniciativa de cumprimentá-lo.
Depois, com o incidente de Xu Tingli, sentiu que não era mais adequado permanecer na família Xu, então se casou com a esposa atual, praticamente entrando como genro na família dela. Nas palavras da esposa, tudo o que ele tinha agora vinha da família dela; já os Xu, ele só herdou o sobrenome por acaso, por parte de mãe.
Ao receber a ligação de Xu Su, Xu Ming não disse nada, apenas pegou a esposa e o filho e foi embora. Antes de sair, olhou fixamente para Xu Chengyun por um longo tempo. Do começo ao fim, não conseguia entender por que Xu Su gostava de Ning Nan — esse negócio de sentimentos, talvez ele nunca compreendesse Xu Su.
Xu Ming chegou apressado e partiu também com certa pressa. A esposa, arrastada à força, parecia furiosa, mas sob a intimidação dele, só pôde segui-lo de má vontade. Quanto ao menino que chorou assustado com Xiongxiong e Erdã, ele olhava para trás a cada três passos, fitando Mumu, que sorria.
Xu Yan parecia entender o que estava acontecendo. Talvez o menino não quisesse intimidar Mumu. Mas essas coisas já não pareciam importantes. Xu Chengyun e Xu Su trocaram mais algumas palavras, principalmente recomendações de cuidado e instruções para proteger bem a irmã.
Já Ning Nan foi direta: "Chengyun, de agora em diante, você deve proteger bem a Mumu, porque ela é sua futura esposa."
Embora Xu Chengyun fosse pequeno, sabia o que significava "esposa". Vendo Mumu olhar para ele sem entender, suas bochechas foram ficando vermelhas, e ele desligou o telefone às pressas. Ao ver isso, Lu Zhengting nem precisou adivinhar: provavelmente Ning Nan tinha dito algo desagradável de novo.
O desfecho dessa história foi não ter desfecho. O diretor, vendo que ambos os lados não queriam levar adiante, respirou aliviado e acompanhou Lu Zhengting e Xu Yan até a porta do escritório. Mumu seguiu Lu Zhengting; ela não gostava nada daquele diretor, achava que ele tinha cara de malandro e não parecia ter boas intenções.
Depois disso, sob a orientação de Lu Zhengting, a escola transferiu Mumu de turma. Quanto ao motivo, talvez só Xu Yan soubesse. Não era que Lu Zhengting estava com ciúmes? Achava que o menino tinha se interessado pela filha dele — como uma flor tão bonita podia cair naquele esterco?
Na mente de Lu Zhengting, qualquer genro que não o agradasse era esterco.
Nos Estados Unidos, Lu Yihan soube do ocorrido por Xu Chengyun e caiu na risada, pensando: o pai realmente se previne contra tudo. Já imaginou todas as possibilidades.
Xu Chengyun e Lu Yihan sempre se deram bem, já que a diferença de idade entre eles era pequena. Além disso, Xu Su estava criando Xu Chengyun como o próximo herdeiro dos Xu. Embora isso tenha causado bastante alvoroço na família, ele conseguiu conter tudo. O velho Xu gostava de Xu Chengyun, mas ainda tinha dificuldade em aceitar entregar toda a família a um estranho.
Xu Chengyun nunca contou a Xu Su como se sentia; só contava em segredo para Lu Yihan.
Quando Lu Yihan chegou aos Estados Unidos, entrou na empresa diretamente como um "paraquedista", o que gerou insatisfação em muitos desde o início. Como nunca anunciou sua identidade publicamente, ninguém pensou nessa possibilidade. Mas, apesar de jovem, ele já tinha alguma experiência em gestão empresarial.
Aqueles que tentaram dificultar sua vida, ao vê-lo lidar com as coisas perfeitamente, acabaram se convencendo. Ele vivia muito bem nos Estados Unidos, mas ao ouvir Xu Chengyun, não sabia o que dizer. Sempre soube que Xu Chengyun era muito sensível em certos aspectos.
Ele geralmente ouvia em silêncio, esperando que o outro desabafasse e depois voltasse ao normal como se nada tivesse acontecido.
Mal tinham se passado cinco minutos desde que Lu Yihan desligou o telefone de Xu Chengyun, e o celular na mesa vibrou de novo. Ele ergueu a mão para olhar o relógio: eram seis da tarde. Então, um sorriso involuntário se formou em seus lábios, e ele atendeu a ligação com um ar radiante.
Do outro lado da linha, uma voz suave, com um leve tom de manha, disse: "Lu Yihan, já faz quase meio mês que estou nos Estados Unidos, e você ainda não me ligou? Está esperando eu ligar primeiro?"
Lu Yihan sorriu levemente e respondeu: "Quando eu terminar o que tenho aqui, vou ter muito tempo."
"Você fica ocupado com a empresa o tempo todo, não pensa em mim. E agora? Lu Yihan, queria tanto que você aparecesse na minha frente agora. Ai, estou com tanta saudade, quase não consigo dormir."
"Sente tanto minha falta assim?"
"Acha que estou falando palavras doces? Lu Yihan, que tal você vir me encontrar nos Estados Unidos? Senão, vou me tornar a primeira pessoa na história a morrer de tanto sofrer por saudade." Ke Lu estava deitada na cama, com a cabeça enfiada no cobertor, falando com a voz abafada. Antes, quando não tinha ninguém de quem gostasse, podia viajar por aí sem problemas, mas agora...
Desde que entendeu seus sentimentos por Lu Yihan, queria ficar grudada nele o tempo todo, vigiá-lo, observá-lo, sem se separar nem por um minuto.
Lu Yihan baixou os olhos para a pilha de documentos sobre a mesa — eram papéis acumulados na empresa desde o incidente. Depois que o gerente anterior saiu, tudo ficou parado; o gerente interino não sabia o que fazia o dia todo, deixando essas coisas sem resolver, até chegar a esse ponto.
Ouvindo a voz de Ke Lu, o coração de Lu Yihan também se agitou; parecia que ele também queria ver Ke Lu logo. Mesmo assim, precisava terminar o que tinha em mãos primeiro. Ke Lu reclamou no telefone que ele não sentia falta dela, que não ligava, e ele apenas sorriu levemente.
"Viu, quando falo com você, você está distraído. Está lidando com coisas da empresa de novo? Por que meu pai tem tanto tempo livre? Não só cuida de mim, como também acompanha minha mãe. Já você, está tão ocupado que nem pisa no chão. Lu Yihan, você é mesmo tão ocupado? Ou está fazendo algo por trás das minhas costas..."
"Você está pensando demais. Não tenho tempo para lidar com outras mulheres. Só lidar com você já me dá dor de cabeça."
"O que quer dizer com isso? Nossa, Lu Yihan, agora entendi: você já está desconfiando de mim. Vou te avisar, tenho uma memória muito boa para guardar rancor."
"É mesmo? Não sabia que você guardava rancor."
"Vou te dar uma chance: diga que errou, e aí não vou guardar rancor."
Pedir desculpas? Isso nunca aconteceria com Lu Yihan. Ele mudou o telefone de lado, segurou a caneta com a mão direita e assinou seu nome na última linha do documento. Fez uma pausa e ouviu Ke Lu dizer: "Lu Yihan, você vem ou não me encontrar nos Estados Unidos?"
"Quando tiver tempo, venho."
"Pronto, sabia que você ia dizer isso, que é a mesma coisa que 'não tenho tempo'. Estou tão triste, tão magoada, sozinha em terra estrangeira, sem ninguém em quem confiar..."
Lu Yihan não conseguiu evitar uma risadinha, e involuntariamente suavizou a voz, dizendo com carinho: "Seja boazinha, quando eu terminar o que estou fazendo, vou te encontrar."
"Então me dê uma data certa, senão essa espera é longa demais."
"Se você for boazinha, naturalmente vou te encontrar."
"Se não me der uma data certa, vou te dar um prazo: em quinze dias, se você não vier, eu volto para te encontrar."
Assim que Ke Lu terminou de falar, não importou se Lu Yihan ouviu direito, ela desligou o telefone e se sentou na cama. Esses dias monótonos eram realmente entediantes. Sentou-se, viu que não tinha nada para fazer, e se deitou de novo, entediada. Colocou o celular no modo vibratório e ficou sentindo as vibrações constantes.
Sabia que não podia ser coisa de Lu Yihan. Então, com a ponta do pé, já imaginava quem era: o homem que tinha vindo puxar conversa com ela dias atrás, e mais ninguém.
Ke Lu, irritada com aquilo, queria desligar o telefone, mas pensou: e se Lu Yihan tivesse um lampejo de consciência e ligasse? Então, ponderou, decidiu aguentar firme o bombardeio de ligações e mensagens, esperando quieta pelo lampejo de consciência de Lu Yihan.
Ke Lu sempre dormia bem, mas tinha um inimigo do sono: o celular, especialmente um que vibrava sem parar. Ela ficou verde de raiva, não teve escolha senão atender e gritar impacientemente para o outro lado: "Você não vai parar? Já não falei para não ligar mais? Ou está fingindo que não ouviu?"
"Lulu, sei que você gosta de cinema, especialmente..."
"Não gosto de cinema. Quem disse que gosto?"
"Lulu, já te falei não sei quantas vezes: não me chame de Lulu, não seja tão íntimo. Quem você pensa que é para mim? Isso não tem graça nenhuma. E já te disse: tenho alguém de quem gosto. Então, por favor, pare de me perturbar."
"Mas ele não está ao seu lado, Lulu. Olha, o que me falta? Em que sou pior que aquele homem?"
Ke Lu queria explodir, e estava mesmo à beira disso. Segurou o telefone com força e disse, com raiva acumulada: "Se você não ouviu da última vez, vou repetir mais uma vez."