Xu Yan aproveitou a deixa para fazer charme, achando que agradar Lu Zhengting a livraria de ter que prestar contas depois. Ela estava no lugar mais próximo da porta de madeira, espiou para fora e viu Ren Jiu saindo do consultório médico, então empurrou Lu Zhengting às pressas.
— Vai logo, se alguém nos vir aqui juntos, vão acabar mal interpretando. — Você é minha esposa, não tem problema eu estar aqui! — Eu sei, mas não é um momento delicado? A cena que fizemos na frente de Ke Yaru e dos jornalistas não pode simplesmente sumir. — Xu Yan se abaixou, esticou a cabeça com cuidado, olhou em volta e virou-se para encarar o homem de semblante sombrio. — Lu Zhengting, assim: eu vou primeiro, você espera cinco minutos e depois vai, para evitar que nos encontrem. Não precisa me levar, posso pegar um táxi para casa. — O que você vai fazer? — Lu Zhengting segurou a mão de Xu Yan, puxando-a bruscamente para perto, falando baixo. Xu Yan era como um cavalo solto, fazendo uma coisa atrás da outra, e ele começava a sentir que não a controlava mais. Era como se Xu Yan de repente tivesse opinião própria, não querendo mais ser mandada por ele. Lu Zhengting franziu os lábios, fixando o olhar em Xu Yan. — As coisas já estão indo para o lado que você queria, agora vem comigo para casa! — Não, ainda tenho que acompanhar o Tio Jiu para casa. Lu Zhengting, não enche, me solta logo. — Xu Yan franziu a testa, irritada, olhando para a mão firme de Lu Zhengting, sacudindo-a com força. Parecia um adesivo, não se desgrudava de jeito nenhum. Xu Yan percebeu que Ren Jiu parecia tê-la visto, vindo em direção à escada. De repente, ela ergueu a perna e pisou no pé de Lu Zhengting. Quando ele soltou a mão, ela empurrou a porta de madeira e saiu disparada. — Tio Jiu, estou aqui. Acabou? Não tem nada grave? — Xu Yan segurou o braço do Tio Jiu e o levou direto para o elevador. Então, virou-se de repente e deu de cara com os olhos profundos e furiosos de Lu Zhengting, mostrando a língua sem graça. Lu Zhengting apareceu no hospital para buscar Ke Yaru pessoalmente na alta, e a notícia se espalhou pela mídia. Junto com a confusão de Xu Yan no hospital, que deu um tapa na cara de Ke Yaru na frente de Lu Zhengting antes de sair com Ye Yunchen. A notícia se espalhou e causou um grande rebuliço. Quem mais ficou feliz foi Ke Yaru. Antes, ela estava desconfiada, mas depois de sair do hospital, Lu Zhengting não a consolou nem disse que ia vingá-la, mas a levou direto para a Vila Dongshan. A Vila Dongshan era a casa antiga da família Lu. Ela tinha se matado para morar lá antes, mal vendo Lu Zhengting, mas agora era diferente. Jiang Mingxiu viu Lu Zhengting trazer Ke Yaru de volta e manteve um sorriso satisfeito. Quando Xiao Han voltou da escola e viu Ke Yaru, não fez boa cara. Jiang Mingxiu ficou furiosa, e Ke Yaru se levantou rápido para acalmá-la, dizendo que criança não tem maldade, insinuando que Xu Yan tinha influenciado mal o menino. Hoje teria um professor particular em casa para ensinar Xiao Han, então ele não esperou Jiang Mingxiu se acalmar e subiu sozinho para o pequeno escritório que Lu Zhengting mandou construir para ele no segundo andar, um cantinho só dele. Lu Zhengting ficou uma hora na Vila Dongshan e, antes de ir, mandou Chen Ma cuidar bem de Ke Yaru. Jiang Mingxiu ouviu e sorriu: — Zhengting, não é tarde para você ver a verdadeira cara de Xu Yan, mas é uma pena o bebê que Yaru perdeu. Ao ouvir isso, Ke Yaru baixou a cabeça e enxugou uma lágrima discretamente. Jiang Mingxiu colocou a mão sobre a de Ke Yaru, dando um tapinha leve. — Yaru, você vai ter outros filhos, não fique tão triste. Uma mulher depois de um aborto precisa de resguardo, e nesse tempo a Chen Ma vai te dar uma boa alimentação. — Tia, eu sei, mas às vezes não consigo me controlar, desculpa. Jiang Mingxiu ouviu aquilo e ficou melancólica, não resistindo a reclamar com Lu Zhengting: — Se você não tivesse insistido em trazer aquela mulher para perto, isso não teria acontecido. Zhengting, agora que você viu quem ela é, trate bem a Yaru. Lu Zhengting respondeu com silêncio, enquanto o celular não parava de apitar. Ele olhou sem expressão para as mensagens do assistente Xiao, hesitou e guardou o celular no bolso como se nada fosse. Jiang Mingxiu viu que ele estava distraído e insistiu: — Você ainda está pensando naquela mulher? — Mãe, tenho um assunto urgente para resolver. Yaru vai ficar aqui por enquanto. Jiang Mingxiu olhou para Lu Zhengting saindo apressado, mas antes que pudesse chamá-lo, ele já tinha sumido, e a porta da vila se fechou. Ke Yaru, humilde e obediente, tratava Jiang Mingxiu com muito respeito. Jiang Mingxiu adorava aquilo, gostando ainda mais de Ke Yaru, e ficava furiosa ao pensar em como Xu Yan sempre a enfrentava. Lu Zhengting saiu da Vila Dongshan, dispensou o motorista e dirigiu sozinho até Mingcheng. Xu Yan tinha acabado de deixar Ren Jiu em casa. Ren Jiu lhe passava uma sensação de carinho, era uma pessoa muito bondosa. Quando viu que a casa dele não ficava longe da sua, ficou contente. — Srta. Xu, muito obrigado por me acompanhar hoje. — Tio Jiu, não precisa agradecer. Você disse para me chamar de Yan Yan, por que está sendo tão formal? — Xu Yan sorriu, olhando para o rosto cheio de cicatrizes de Ren Jiu, e continuou: — Na verdade, já te contei que em você encontro um pouco da sombra do meu pai? Ao ouvir isso, o coração de Ren Jiu deu um pulo. Ele instintivamente apertou as mãos ao lado do corpo, curvando-se levemente, como se aquilo lhe desse segurança. Olhando para o chão, disse baixinho: — A Srta. Xu está brincando. — É verdade. É o que sinto. Mas, na minha memória, meu pai morreu quando eu era pequena. Sempre há pessoas parecidas no mundo, e talvez eu tenha sorte de ter encontrado o senhor, Tio Jiu. Ren Jiu ergueu os olhos para Xu Yan, que fitava o horizonte distraída, e suspirou baixinho. Instintivamente, levantou a mão para acariciar a cabeça dela, mas Xu Yan de repente voltou a si e lhe deu um sorriso doce. — Tio Jiu, não ligue para o que eu disse. Vá entrar. Ren Jiu sorriu levemente, deu um tapinha no ombro de Xu Yan e virou-se para entrar no condomínio. Ele conteve a vontade de se virar e abraçá-la, andando curvado, passo a passo, com uma tristeza que não queria mostrar. Xu Yan suspirou fundo, achando que estava sentindo falta do pai ultimamente, por isso tinha aquela impressão. Distraída, parou na beira da estrada, olhando os carros e as pessoas passando. Aquele condomínio era de alto padrão, e ela sentia os olhares curiosos dos outros. De repente, ergueu os olhos para o céu, com o coração apertado. — Bii, bii, bii Xu Yan ouviu a buzina insistente na sua frente, baixou os olhos e viu um carro preto parado na beira da estrada. Reconheceu a placa, era o carro de Lu Zhengting. Ela se aproximou e bateu no vidro: — O que você está fazendo aqui? Lu Zhengting sorriu sem responder. Ele tinha se preocupado com a segurança de Xu Yan e instalado um sistema de localização e rastreamento no celular dela. Bastava pegar o telefone e abrir o aplicativo para saber onde ela estava, claro que ainda não pretendia contar isso. — Entra. — Não tem paparazzi atrás de você? — Entra. — Lu Zhengting repetiu, irritado. Se algum paparazzi ousasse segui-lo, era porque a vida estava muito fácil ou eles queriam morrer. Xu Yan olhou para os lados, certificando-se de que não havia ninguém suspeito, e segurou a maçaneta, girando-a várias vezes: — Abre! Lu Zhengting destravou devagar, e Xu Yan abriu a porta e entrou num pulo. Ia falar algo, mas Lu Zhengting de repente se inclinou sobre ela. Xu Yan ergueu as mãos instintivamente e gritou: — Lu Zhengting, o que você vai fazer? Vendo aquilo, Lu Zhengting não conseguiu segurar o riso: — Achou que eu fosse fazer o quê? — Assim que falou, Xu Yan viu o braço dele se estender para o lado direito dela, pegar o cinto de segurança e prender. O clique seco fez Xu Yan ficar vermelha até as orelhas. — Lu Zhengting, da próxima vez me avisa, ou deixa que eu mesma faço. Essa surpresa... — Xu Yan gaguejou sem terminar a frase. Não podia dizer que achava que ele ia beijá-la ou aproveitar-se dela. Lu Zhengting bufou, sem saber desde quando Xu Yan tinha aquele mau hábito. Sempre que ele estava por perto, ela esquecia de colocar o cinto, e ele tinha que fazer isso, gerando uma série de confusões. Xu Yan se sentiu profundamente idiota por dentro. Lu Zhengting se endireitou, olhando para a frente. Xu Yan de repente se sentiu constrangida, percebendo que só pensava em Lu Zhengting como um tarado, e ficou ainda mais vermelha. Enquanto ainda se remoía, Lu Zhengting falou friamente: — Ye Yunchen te procurou? Xu Yan hesitou, cobriu um olho com a mão, fingindo coçar, e respondeu despreocupada: — Hum, ele deve ter ligado, mas não prestei atenção. — Não vai atender? — Lu Zhengting virou a cabeça, olhando para Xu Yan com um sorriso irônico, mas ela sentiu uma raiva e rancor profundos vindo dele. Xu Yan fingiu não ouvir, apontou para a frente e aumentou a voz: — Olha a estrada, não para mim, que não tem estrada na cara. — Hã? — Lu Zhengting ergueu uma sobrancelha e viu que o sinal estava vermelho. Pisou no freio bruscamente, mas Xu Yan já estava preparada e não se assustou. — Lu Zhengting, o que você está fazendo? — Vou acertar as contas com você em casa. — Lu Zhengting encarou Xu Yan com raiva, a voz baixa como uma sentença de morte, e ela sentiu um calafrio. Xu Yan pegou o celular em silêncio, viu as chamadas perdidas e sentiu o olhar de Lu Zhengting de novo. Sem pensar, colocou uma cara séria, abriu a previsão do tempo e ficou olhando para a tela: Jiangcheng passaria a próxima semana debaixo de chuva.