Depois de terminar o currículo, Xia Yan passava a visitar a residência de Lu sempre que não tinha aulas para fazer companhia a Xiao Han. Todos sabiam que Xiao Han adorava doces, e, a pedido dele, ela já fazia bolos há uma semana. O problema é que Xiao Han não tinha nenhum controle quando se tratava de doces. Comia quando queria, sem pensar duas vezes.
Xia Yan chegou à residência de Lu como combinado e viu Xiao Han descendo de outro carro com um ar elegante, expressão fria. Mas, assim que a viu, um sorriso iluminou seu rosto, e ele correu em sua direção.
— Irmã Yan, estou morrendo de saudades de você. — Xiao Han, se não me engano, nos vimos ontem. — É que um dia sem te ver é como três estações!
Ao ouvir isso, Xia Yan apertou a bochecha dele. — Com quem você aprendeu isso? — Aprendi sozinho. — Xiao Han ergueu a cabeça, com um olhar orgulhoso para Xia Yan. Uma coisa tão simples, precisava de alguém para ensinar?
Xia Yan sorriu levemente e acariciou a cabeça de Xiao Han. — É verdade, nosso Xiao Han é o mais inteligente. Essas coisas são moleza, nem precisa de ninguém para ensinar.
Xiao Han balançou a cabeça satisfeito e pegou a mão de Xia Yan, puxando-a para a cozinha. — Irmã Yan, hoje quero comer bolo de novo. — Não pode. — Xiao Han já tinha comido bolo por uma semana inteira. Se continuasse assim, os dentes dele iam acabar estragando. Xia Yan franziu a testa. — Hoje não pode comer bolo, mas pode comer outra coisa. — Não quero, quero bolo! — Xiao Han, irritado, soltou a mão dela de repente, ficou parado com o rosto sério e os olhos brilhantes como estrelas fixos em Xia Yan. — Não pode! — Xia Yan também tinha um temperamento forte e era uma pessoa que não voltava atrás. Sua voz calma, mas firme, deixou Xiao Han tão furioso que ele parou no lugar e começou a pular. — Eu quero comer! — Eu não vou fazer! — ...
Uma guerra estava prestes a explodir na cozinha. Os empregados que trabalhavam ali, ao perceberem que a situação estava ficando feia, já tinham saído discretamente e se escondido de lado. Quando o pequeno mestre se irritava, nem mesmo o Sr. Lu tinha jeito.
Xiao Han andava de um lado para o outro na cozinha, furioso. Quando não aguentava mais, pegava o que estava mais perto e jogava no chão sem pensar. Ouviu-se uma barulheira de objetos quebrando. Um empregado que estava perto de Xia Yan se aproximou com cuidado e sussurrou no ouvido dela:
— Srta. Xia, não se aproxime agora. Quando o pequeno mestre desabafar a raiva, tudo acaba. — É assim que vocês fazem sempre que isso acontece? — Xia Yan olhou para o empregado e disse com indiferença.
O empregado percebeu o desagrado na voz dela e suspirou. — Não queremos isso também, mas quando o pequeno mestre se irrita, nem o Sr. Lu consegue controlá-lo. O que nós, empregados, podemos fazer?
Ao ouvir isso, Xia Yan franziu a testa e foi até Xiao Han. Ele estava prestes a pegar uma tigela de vidro para jogar no chão, mas, por mais rápido que Xia Yan fosse, não foi mais rápida que ele. A tigela se estilhaçou no chão com um som nítido, espalhando cacos por todo lado. Xia Yan olhou para Xiao Han com raiva, mas então, como se tivesse pensado em algo, se agachou e começou a pegar os cacos um por um. Sem perceber, um caco afiado cortou um longo ferimento em seu dedo.
— Irmã Yan, sua mão está sangrando! — Xiao Han arregalou os olhos, assustado, olhando para Xia Yan. Ao ver um homem aparecer na porta da cozinha, correu até ele. — Papai, olha a Irmã Yan, a mão dela está sangrando muito!
Xia Yan sentiu um olhar diferente fixo nela. Parou o movimento de cobrir o ferimento e ergueu a cabeça devagar para olhar para Lu Zhengting, sem dizer nada por um bom tempo.
Lu Zhengting soltou a mão de Xiao Han, que puxava sua roupa, e foi até Xia Yan. Agachou-se, olhando para o dedo ferido dela. O corte era grande, e sangue vermelho escorria sem parar. A própria ferida não parecia incomodá-la, mas os dois ali, pai e filho, a encaravam com expressões sérias, especialmente Xiao Han, cujo olhar estava cheio de culpa e preocupação.
— Estou bem, não precisa disso. Lu Zhengting se inclinou, estendeu o braço e a ergueu no colo. — Lu Zhengting, o que você está fazendo? Me solta! — Xia Yan nunca imaginou que ele a pegaria no colo na frente de todo mundo. Meu Deus, ela tinha tomado tanto cuidado para manter distância de Lu Zhengting e se afastar dele, mas tudo estava saindo do controle, longe do que ela esperava, desviando cada vez mais do caminho.
Xia Yan se debatia para descer, mas Lu Zhengting a colocou no sofá. Os empregados já tinham trazido o kit de primeiros socorros. Xiao Han veio atrás e, ao ver o dedo sangrando de Xia Yan, fechou os olhos na hora. Ela não conseguiu evitar um sorriso.
O sorriso durou menos de meio segundo, até que Xia Yan soltou um gemido de dor. O movimento repentino de Lu Zhengting não lhe deu tempo para pensar. Ele segurava desajeitadamente o curativo e o pó hemostático Yunnan Baiyao, espalhando o pó sem parar enquanto enrolava o curativo várias vezes.
— Ainda sente dor? — Lu Zhengting a encarou friamente, com um tom severo. Xia Yan franziu os lábios. Claro que sentia dor! Ele apertou de propósito o ferimento, como se ela não tivesse visto!
Olhando para o dedo enfaixado como um bolinho, ela quase chorou. Lu Zhengting hesitou e chamou Xiao Han. — Por que você se irritou? — Queria comer bolo. — Xiao Han baixou a cabeça e falou bem baixinho, sem ousar olhar para Xia Yan.
Vendo isso, Xia Yan puxou levemente a roupa de Lu Zhengting, acenou para Xiao Han e o chamou para perto. Levantou a mão ferida, mas a trocou pela outra para acariciar a cabeça dele.
— Xiao Han, se você prometer hoje não comer bolo, da próxima vez faço um bolo de outro sabor para você. — A voz suave de Xia Yan soou devagar, contrastando com o tom frio e severo de Lu Zhengting. A atitude de Xiao Han amoleceu visivelmente.
Ele piscou os olhos e fez bico para Xia Yan. — Tá bom, da próxima vez vou comer até não aguentar mais.
Assim que disse isso, Xiao Han se aproximou de Xia Yan com um ar de injustiça, abraçou-a e sussurrou no ouvido dela: — Papai me xingou agora há pouco!
Criança é criança. Xia Yan deu uma olhada discreta para o homem de expressão impassível. Tudo o que ele fazia parecia acelerar seu coração. Quando ele a pegou no colo, sentiu que o coração não era mais dela.
Lu Zhengting olhou para Xia Yan, que sussurrava algo no ouvido de Xiao Han. Xiao Han então olhou para Lu Zhengting com um sorriso maroto, subiu no sofá e colou a boca no ouvido de Xia Yan, rindo enquanto falava.
Lu Zhengting provavelmente não esperava que Xiao Han se recuperasse tão rápido. Antigamente, com o temperamento dele, teria virado a casa de cabeça para baixo antes de parar. Hoje estava tão fácil de lidar!
Para consolar o coraçãozinho magoado de Xiao Han, Xia Yan decidiu fazer o jantar ela mesma. Lembrando-se dos hábitos alimentares seletivos de Xiao Han, ela vasculhou a mente em busca de algo adequado para crianças.
Quando ela se levantou para ir à cozinha, Lu Zhengting estranhou. — O que vai fazer? — Vou cozinhar. — Cozinhar? — Lu Zhengting olhou para a mão dela, enfaixada como um bolinho, duvidando da capacidade dela. — Não me subestime. — Xia Yan ergueu a mão que não estava ferida. Mesmo machucada, ainda conseguia fazer o jantar.
Xia Yan entrou na cozinha, vestiu o avental e pegou os utensílios. Os empregados ao lado, boquiabertos, só voltaram a si quando ela terminou o último prato.
Ela tirou o avental, pegou a toalha que um empregado lhe ofereceu e enxugou o suor da testa. Ao levantar a mão, sentiu o cheiro de gordura na roupa e fez uma careta. Sabia cozinhar, mas odiava o cheiro de cozinha.
Os dois que esperavam lá fora já tinham se sentado à mesa sem precisar de convite, com postura ereta. Xia Yan ficava frustrada com o fato de Xiao Han só comer carne. Enquanto a carne desaparecia, os vegetais verdes ao lado ficavam intocados.
— Hum, hum... — Xia Yan pigarreou e ergueu a cabeça para olhar Lu Zhengting, que comia sério. — Bebe água. — Lu Zhengting colocou o copo d'água na frente de Xia Yan, sem nem levantar a cabeça. — Não estou com sede. — Xia Yan fincou os hashis no prato com força e olhou de soslaio para Lu Zhengting. Percebeu que ele também não tocava nos vegetais.
Lembrou-se do que Xiao Han dissera antes. Parece que ela tinha esquecido que os hábitos alimentares de Xiao Han eram quase uma cópia dos de Lu Zhengting. Os dois não comiam vegetais, só queriam carne.
— Xiao Han, você está crescendo, não pode comer só carne, sabia? — Xia Yan pegou um pouco de vegetais com os hashis, mas, antes de colocar no prato de Xiao Han, ele já tinha se afastado com o prato. — Xiao Han?! — Nunca como essas coisas nojentas e continuo crescendo.
Xia Yan franziu a testa. Olhou para Lu Zhengting, como se dissesse: se você comer, Xiao Han come. Lu Zhengting olhou com desprezo para os vegetais na mão de Xia Yan, comeu alguns bocados sem vontade, largou os hashis e encarou Xiao Han sério. — Coma vegetais. — Não quero. Papai, você nunca come, por que agora quer que eu coma? — Xiao Han, se o papai comer, você come? — Xia Yan aproveitou a deixa e falou rápido, piscando para Lu Zhengting. — Eu nunca como. — ... — Que cansaço fazer um monólogo sozinha!
A noite inteira, Xia Yan tentou de tudo para convencer Xiao Han a comer vegetais. Mas, por mais que falasse, a atitude dele era firme: não comia e pronto. Nem ameaças nem chantagens funcionavam, e ainda tinha Lu Zhengting ao lado atrapalhando.
Depois do jantar, Xia Yan brincou um pouco com Xiao Han antes de sair da residência de Lu. Mais uma vez, Lu Zhengting a levou de carro até a escola. Xia Yan já ia automaticamente para o banco do carona, o que agradou Lu Zhengting.
O ar-condicionado do carro estava forte, e o vento frio soprava direto nela. Ela passou a mão nos braços e ergueu a cabeça para olhar a paisagem noturna da cidade que passava pela janela, atravessando ruas, semáforos, e vendo a multidão rindo na cidade que nunca dorme.