—Você acha que isso é o quê, uma falta de vergonha? Se continuar sendo tão radical, vou ter que te dar uma lição de verdade! — disse Bai Han, franzindo a testa, claramente irritada por não aceitar que Bai Ling tenha se tornado assim, levando a sério coisas muito comuns, o que não é bom para Bai Ling, já que ela é jovem e isso pode limitar seu desenvolvimento, além de torná-la de mente estreita, mesquinha e intolerante.
Bai Ling sabia o que sua mãe, Bai Han, estava pensando naquele momento. Em sua mente, havia duas vozes: uma queria continuar discutindo até definir o certo e o errado; a outra, ceder, ser flexível para ir mais longe.
Enquanto Bai Ling pensava, Bai Han percebeu com cuidado o brilho familiar nos olhos dela aparecer novamente, e por vários segundos, não mais um lampejo passageiro como antes.
Sentindo que a filha Bai Ling estava distraída, Bai Han largou o novelo de lã e as agulhas de tricô e disse: — Xiao Ling, Xiao Ling, mamãe não quer te repreender, mas espero que você veja os problemas com mais humildade, lide com as coisas, tente se acalmar, não se importe tanto com ganhos e perdas, para captar a direção certa e tomar decisões corretas.
Depois que o tom avermelhado desapareceu, a mente de Bai Ling ficou em branco por um instante, perdida e sem saber o que fazer, com os olhos vazios, como se não houvesse nada. Ao ver a filha assim, Bai Han sentiu ainda mais dor, abraçou Bai Ling e murmurou em seu ouvido: — Minha filha é a melhor, minha filha é a melhor, se acalme, se acalme! Depois de se acalmar, podemos ver mais coisas.
A voz suave e o tom gentil de Bai Han fizeram o corpo rígido de Bai Ling relaxar gradualmente. Bai Ling fechou os olhos e só depois de um tempo reagiu. Bai Han a soltou e disse: — Xiao Ling, tenho uma coisa que preciso te contar!
Bai Ling, já recuperada com o consolo de Bai Han, olhou para a seriedade da mãe e perguntou: — O que foi? É importante?
Bai Han segurou a mão da filha e disse: — Xiao Ling, desde que levei um tiro da última vez, percebi que você ficou muito obsessiva com algumas coisas; isso não é o mais importante. O que me preocupa mais é que há um brilho sanguinário nos seus olhos. Então quero saber o que você tem pensado ultimamente? Há algo que está escondendo de mim?
O coração de Bai Ling deu um pulo, e ela suou frio, dizendo lentamente: — Ultimamente, tenho tido pesadelos, sempre sonhando com você coberta de sangue. Esse medo e desespero quase me forçam a querer matar todo mundo.
Bai Han sentiu um aperto no coração, tudo era culpa sua. Ela suportava a dor física, mas fazia a filha carregar um enorme peso psicológico e sofrimento. Chorando, disse: — Xiao Ling, você ficou assim por minha causa. O psicólogo que seu padrasto Xi trouxe deve estar chegando. Prometa-me que, quando chegarmos a Hong Kong, você vai participar do tratamento. Você é jovem, tem uma vida inteira pela frente, não pode ficar presa no que aconteceu comigo.
— O padrasto Xi também viu? — perguntou Bai Ling, assustada, como se algo importante em seu coração tivesse sido espionado, e ela se tornasse desconfiada.
Vendo que Bai Ling não confiava totalmente em ninguém, Bai Han sentiu um amargo profundo e disse: — Sim, quando conversamos os três da última vez, eu e seu padrasto Xi vimos o brilho sanguinário nos seus olhos. Ele disse que você pode ter problemas psicológicos, por isso trouxe o melhor psicólogo do Canadá para ajudar a aliviar seu fardo e viver feliz como antes.
— Ah! — Bai Ling baixou a cabeça, sem saber o que dizer.
— Xiao Ling, não feche seu coração. Eu, seu padrasto Xi e seus bons amigos somos dignos de sua confiança. Não pode negar que todos têm problemas só porque um ou dois amigos têm.
Bai Ling levantou a cabeça e disse: — Mamãe, eu sei. Vou aceitar o tratamento psicológico. Ultimamente, sinto como se houvesse duas vozes brigando na minha cabeça: uma é a antiga eu, a outra é a atual; uma é muito mole, sem coragem de ser dura com os outros, a outra tem pensamentos extremos, querendo destruir tudo.
— Desculpe, tudo isso é por minha causa. Mamãe te pede perdão! — disse Bai Han, arrependida.
Bai Ling sorriu e respondeu: — Mamãe, nunca precisa dizer essas três palavras para mim. Tudo que faço por você é de livre e espontânea vontade. Quanto ao meu problema agora, também é algo que aceito. Vou melhorar, não se preocupe comigo.
Bai Han sentiu que qualquer coisa que dissesse seria superficial, então apenas abraçou Bai Ling com força. Quanto à reclamação da velha senhora Zhou, já tinha ido para o fundo da mente. Agora, o mais importante era a filha, não aquelas pessoas irrelevantes.
Depois de sair do quarto da mãe, Bai Ling voltou ao seu e refletiu sobre suas ações recentes, cada vez mais certa de que tinha um demônio interior. Mas, por enquanto, ainda conseguia controlá-lo, não era grande coisa.
— Querido, quando chega aquele médico Steve que você mencionou em Hong Kong? — perguntou Bai Han, muito ansiosa. Se fosse uma doença física, ela sabia lidar, seja com ervas ou acupuntura; mas para problemas psicológicos, não tinha jeito, só podia dar a Bai Ling um pouco de chá calmante para melhorar o sono. Essa sensação de não ter controle sobre a doença da filha a deixava inquieta.
Xi Side sentou-se e perguntou apressadamente: — Bai Ling teve aquela crise de novo?
— Sim, e durou muito mais tempo do que antes. Posso entender que a condição dela piorou — disse Bai Han, segurando a cabeça, com lágrimas de dor nos olhos. Na frente da filha, não ousava extravasar suas emoções, mas diante de Xi Side, não precisava mais se segurar e precisava liberar sua agitação.
Xi Side abraçou Bai Han, acariciando suas costas, e disse: — O médico Steve deve chegar a Hong Kong em mais uma semana. Quando voltarmos da cidade B, estaremos a tempo. Não se preocupe, Xiao Han, estou aqui.
Bai Han apoiou-se no peito de Xi Side e chorou por um bom tempo antes de levantar a cabeça lentamente e dizer: — Querido, obrigada, senão eu não aguentaria.
— Somos marido e mulher, é meu dever. Ling é minha filha e também minha amiga. Temos um desejo em comum: que você seja sempre feliz. Quem desata o nó precisa de quem o amarrou. Então, acho que, já que sabemos que Bai Ling está assim por se preocupar com você, se você estiver bem, ou se não houver mais acidentes com você, isso será o melhor remédio para ela — analisou Xi Side detalhadamente. Por conhecer Bai Ling, sabia a raiz e, portanto, o método mais fundamental de cura estava em Bai Han. Ele até suspeitava que, se Bai Han estivesse bem, mesmo que Bai Ling tivesse sombras no coração, não seria tão grave.
As pequenas mudanças em Bai Ling também foram notadas pelo velho Lin. Então, depois do almoço, ele a chamou para o escritório e perguntou: — Xiao Ling, há algo em sua mente?
A pergunta foi feita de forma indireta, diferente do estilo direto e militar do velho Lin, mas diante da neta, ele naturalmente abaixava o tom.
Bai Ling raramente entrava no quarto do velho Lin, especialmente desde que voltou de Hong Kong. Uma vez, ao levar chá para ele, assim que entrou, seus olhos foram atraídos involuntariamente para o sabre de cabo vermelho pendurado na parede. Parecia que uma voz a chamava constantemente, fazendo-a querer se aproximar, mas sua força de vontade resistiu.
Desta vez, ao entrar novamente no quarto do velho Lin, Bai Ling não conseguiu se controlar e foi direto em frente, estendendo a mão instintivamente para tocar o sabre. O velho Lin achou estranho, já que a neta sempre desprezou aquela arma e nunca a tocava voluntariamente.
Ele deu alguns passos à frente, chegando na frente de Bai Ling, e perguntou: — Você quer este sabre?
Bai Ling não respondeu, como se não tivesse ouvido, continuando a andar devagar. Foi então que o velho Lin notou algo estranho: os olhos dela estavam vazios, como se não tivesse alma, movendo-se mecanicamente.
Ele a segurou com força e disse: — Bai Ling, o que você tem?
Como a mão do velho Lin era muito forte, Bai Ling gritou de dor: — Ai! — Levou um tempo para reagir e franziu a testa, irritada: — Por que você está me apertando?
O tom era tão estranho que quase não parecia dela.
— Xiao Ling, o que você estava fazendo? Perguntei algo e você pareceu não ouvir! — disse o velho Lin apressadamente.
Bai Ling tentou se lembrar, mas não conseguia entender o que tinha feito. De repente, sentiu uma forte dor de cabeça, agachou-se segurando a cabeça e disse, angustiada: — Vovô, não sei o que estava pensando. Parecia que aquele sabre tinha um poder magnético, me atraindo para perto. Não fui eu, realmente algo estava me controlando!
O velho Lin soltou Bai Ling, pegou um pano vermelho e cobriu o sabre de cabo vermelho na parede. Imediatamente, Bai Ling sentiu a dor de cabeça diminuir. Sentou-se numa cadeira ao lado e disse lentamente: — Vovô, minha mãe disse que vejo um brilho sanguinário nos olhos, e estou começando a sentir que não consigo controlar minhas emoções. Às vezes, minha mente fica em branco, e meu coração está perturbado, sempre pensando em matar todos que machucaram minha mãe, Bai Han. Porque de vez em quando, uma voz na minha cabeça diz: "Mata ele! Mata ele!" Sei quem é esse "ele", é Shi Jinghai.
O velho Lin ficou surpreso e perguntou: — Tem certeza de que há uma voz na sua cabeça?
Bai Ling assentiu e disse: — Tenho certeza. Porque aparece só de vez em quando, e eu achava que era ilusão, coisa da minha cabeça. Mas as palavras da mamãe hoje me fizeram pensar mais: será que tenho um demônio interior? Sinto que não é só um problema psicológico, é algo querendo me controlar.
O velho Lin olhou para o sabre em sua mão e pensou muito. Quantas pessoas aquela arma tinha matado, ele nem lembrava mais. Desde o fim da Guerra de Libertação, o sabre foi guardado e pendurado na parede. Ficou lá quieto por anos, até que, há cerca de dez anos, quando o velho Lin adoeceu, sempre que entrava no quarto, ouvia uma voz no ouvido dizendo: "Mate-se! Mate-se!"
O velho Lin, criado como um líder da ditadura do proletariado, naturalmente não acreditava em fantasmas. Atribuía essa anormalidade a alucinações causadas pela doença. Além disso, achava que, se não morreu no campo de batalha, não mostraria covardia diante da doença; só covardes se suicidam. Até que Bai Han o ajudou a curar a doença, e seu corpo melhorou, e a voz desapareceu.
Agora, ao ouvir a neta dizer que ouvia uma voz, o velho Lin não pôde deixar de pensar. Bai Ling era saudável, sem nenhum problema, não podia ter alucinações auditivas. Somando-se à sua própria experiência, podia confirmar que aquela voz realmente existia.
— Xiao Ling, você está dizendo que este sabre está falando com você? — perguntou o velho Lin, curioso.
Bai Ling balançou a cabeça e respondeu: — Não sei! Só quero me aproximar dele, quase sem controle!
O velho Lin pegou uma caixa de sândalo roxo, colocou o amado sabre de cabo vermelho dentro, cobriu com pano vermelho e decidiu no coração se deveria chamar um monge para ver o que havia de errado com aquela arma.
— Xiao Ling, não se preocupe. Vou mandar alguém ver o que há com este sabre. Agora, não vá a lugar nenhum, relaxe a mente, isso ajuda a se proteger — disse o velho Lin, consolando.
No primeiro dia do Ano Novo Chinês, Zhao Datou veio fazer uma visita. O velho Lin o chamou em segredo para o escritório e perguntou: — Lembra quando estávamos libertando Pequim e Tianjin, encontramos um monge perto dali que ficou olhando para meu sabre e disse que ele tinha muita energia assassina, que não deveria ser carregado, mas sim colocado sob os pés de Buda para ser contido?
Zhao Datou revirou os olhos e perguntou: — Foi daquela vez que matamos um cachorro amarelo por engano, assamos e comemos, e o monge disse que era o cachorro do templo, e fez uma queixa ao velho Qin, que nos deixou com fome por dois dias?
— Isso, isso! Depois ele disse que o sabre tinha muita energia assassina e precisava ser colocado diante de Buda. Na época, achei que ele queria enganar e ficar com meu sabre! — disse o velho Lin, como se tivesse encontrado um conhecido, começando a relembrar os anos gloriosos.
— Haha, naquela época, você foi incrível, disse que Buda não matava, então para que queria um sabre? Não deu a ele, foi muito bom! — lembrou Zhao Datou, rindo das travessuras passadas. Os dois fizeram muitas coisas juntos, do tipo que errava pouco, mas sempre cometia pequenos deslizes, sem afetar o todo, então o velho Qin fechava os olhos.
— Exatamente aquele monge. Nós dois estávamos gravemente doentes na época, e isso não confirma o que ele disse sobre encontrar um benfeitor e renascer? — perguntou o velho Lin seriamente, lembrando Zhao Datou.
Zhao Datou coçou a cabeça careca e disse: — É verdade, na época não demos importância, e ele realmente acertou.
— Então, acho que aquele monge tinha algum poder. Que tal irmos até aquele lugar um dia e perguntarmos com mais clareza? — sugeriu o velho Lin, um pouco hesitante, com medo de ser ridicularizado por Zhao Datou.
E, como esperado, Zhao Datou riu alto novamente, deu um tapinha no ombro do velho Lin e disse: — Irmão, você nunca acreditou em fantasmas ou deuses a vida toda, e agora, na velhice, quer se meter com essas coisas? Está com medo de morrer?