Isso é uma forma de autossátira?
An Ru sorriu com os lábios franzidos. Esse homem às vezes tinha um senso de humor seco.
"Você riu?"
A garota ficou surpresa por um instante. "Como você sabe?"
Porque ele sempre pôde ver...
Shen Xiaoxing curvou levemente os lábios e ergueu uma sobrancelha: "Talvez seja porque temos uma conexão de almas."
"..." An Ru sorriu em silêncio. Que conexão de almas eles tinham?
Dava para perceber que o homem estava de bom humor nos últimos dias, falando mais devagar, pelo menos não a ignorava mais como antes, deixando de lado um pouco da frieza impessoal.
Só não sabia quanto tempo essa calmaria entre eles duraria. Shen Tingfeng tinha sido espancado sem motivo, estava ocupado se recuperando e não tinha tempo para ela. Por enquanto, ela só podia ir levando um dia de cada vez.
Han Chong estava parado ao lado como um poste. Todos os lugares ao redor estavam ocupados, e ele não se sentia à vontade para se intrometer entre o jovem mestre e a jovem senhora...
An Ru percebeu que ele estava constrangido ali em pé. "Han Chong, sente-se."
Han Chong deu uma olhada furtiva no homem silencioso. An Ru achou que era a servidão enraizada que o impedia de se sentar ao lado de Shen Xiaoxing.
Depois de algumas tentativas de convencê-lo sem sucesso, ela riu de propósito: "Ficar em pé assim chama muita atenção. As pessoas estão nos olhando escondidas."
Desde o momento em que entraram, os clientes não tiraram os olhos deles. Mas a maioria estava mais focada na aparência do homem, especulando se ele era realmente deficiente.
Também havia alguns homens mal-intencionados, que olhavam para An Ru com olhares lascivos, comentando em voz baixa se o rosto ou o corpo dela era melhor.
Shen Xiaoxing via todos esses rostos nojentos. A mão ao lado do corpo se fechou em punho, mas naquele momento ele só podia conter a raiva!
Han Chong sentou-se com o coração ainda pesado. Nesse instante, os wontons foram servidos à mesa. O homem o olhou de soslaio com um ar sinistro, mandando-o para longe!
Han Chong, intimidado pelo olhar, levantou-se silenciosamente e foi se juntar a outra mesa.
An Ru ergueu a cabeça e o viu sentado na mesa ao lado. Franziu a testa, confusa: "Por que você foi para lá?"
Antes que Han Chong pudesse responder, o homem assumiu a conversa com um tom indiferente: "Ele tem o hábito de se sentar com estranhos. Não precisamos nos preocupar."
Han Chong: "..."
Jovem mestre, sua consciência não dói ao dizer isso?
Olhando para a mesa deles, o casal jovem estava trocando carinhos frente a frente. Ele, sem vergonha, sentou-se ao lado do homem, constrangido demais para levantar a cabeça.
An Ru não entendia o segredo entre o mestre e o servo. Sorriu e acenou com a cabeça, pegou uma colher, pegou um wonton, soprou e o levou à boca do homem.
"Prove para ver como está."
Durante o tempo que passaram juntos, a relação deles parecia ter melhorado muito. Embora ambos escondessem segredos um do outro, pelo menos não estavam mais em conflito.
Shen Xiaoxing já estava acostumado a ser alimentado por ela. Abriu a boca e comeu o wonton que ela oferecia, seus olhos profundos refletindo a expectativa no rosto da garota.
"E então, está gostoso?"
Ele assentiu em elogio: "Melhor do que o da cozinheira de casa."
Não era fácil fazer esse homem elogiar algo. Parecia que os wontons realmente agradavam seu paladar.
"Antes, no ensino médio, eu vinha comer aqui com frequência. Durante a aula, dava para sentir o cheiro dos wontons vindo da loja." Como se lembrasse de algo engraçado da época do colégio, An Ru sorriu com os lábios franzidos.
Shen Xiaoxing ergueu uma sobrancelha. "Você estudou o ensino médio aqui?"
"Sim."
"Que coincidência, eu também."
An Ru ficou surpresa por um instante. "No mesmo colégio?"
Era uma escola de elite. Com o histórico de An Ru, estudar ali era um sonho distante. Mas, por causa de seu excelente desempenho, foi admitida excepcionalmente. No entanto, para aliviar o fardo, ela insistiu em recusar a escola particular. A avó An não suportava vê-la se sacrificar tanto e passou muito tempo convencendo-a, até que finalmente a convenceu a entrar.
Foi por ter entrado com notas excelentes que ela despertou a inveja de An Qing, que não havia passado. An Qing sempre teve notas terríveis.
Mas ela tinha um pai rico. Andeyu, mesmo que tivesse que investir dinheiro, a colocou na escola, dando a An Qing a oportunidade de intimidá-la.
Mais tarde, para fugir dela, An Ru mais uma vez passou com notas altas para a Universidade A, finalmente se separando de An Qing.
"Então, você deveria me chamar de veterano?"
An Ru sorriu levemente. Esse homem era seis anos mais velho que ela. Se realmente tivesse estudado naquela escola, de fato deveria chamá-lo de veterano.
Mas ela não queria. Quem sabia se ele estava mentindo?
"Os wontons vão esfriar. Melhor comer logo." An Ru ficou paralisada.
Em casa, os empregados o alimentavam. Agora, fora, ela precisava alimentá-lo primeiro antes de poder comer direito.
"Olha aquele homem ali. Tão grande e ainda precisa ser alimentado por uma mulher. Não tem vergonha?"
"Não vê que o olhar dele é vazio, sem foco? É claramente cego. Que cego consegue comer sozinho?"
"Puxa, esse homem não só está em cadeira de rodas, como também é cego. Que desgraça!"
"Que pena, um rosto tão bonito desperdiçado. Deus é tão injusto."
"Olha as roupas dele, não são comuns. Mesmo com deficiência, ainda tem uma elegância nos gestos. Aposto que é filho de alguma família rica!"
"Deve ser fingimento. Se fosse tão rico, por que não trataria os olhos? Na frente dele está uma moça tão bonita, e ele não pode vê-la. Não é frustrante?"
No começo, os comentários eram baixos, mas depois foram aumentando, rasgando as feridas dos outros e expondo-as, sem se importar com o que os outros sentiam...