O homem soltou uma leve risada, virou-se e serviu um copo d'água. "Sou médico, e vir aqui para resgatar é meu dever como médico. É tão difícil de entender assim?" Shen Xingrou riu por dentro, sem graça. "Não é difícil..." Ele tomou um gole d'água, e de relance, seus olhos a observaram de soslaio: "Ou você achou que eu vim especialmente para te encontrar?" Essas palavras deixaram Shen Xingrou realmente surpresa. "Não pensei nisso." Para evitar mal-entendidos, ela não pretendia ficar mais tempo. "Obrigada, Dr. He, pelo curativo. Vou voltar primeiro." Vendo-a fugir tão rápido, He Su contraiu os lábios num sorriso frio. Sim, ele tinha vindo procurá-la! Só não esperava encontrá-la num lugar assim. Ver que ela preferia esperar na fila para ser enfaixada do que vir falar com ele o deixava com um aperto no peito. Mas, pensando bem, a impressão que ele deixou da última vez não foi boa, e era normal que ela se protegesse um pouco. Correndo sem fôlego de volta para o alojamento, Shen Xingrou ofegava. Mal tinha acalmado os pensamentos quando o Irmão Zhang trouxe um macarrão instantâneo para ela. Sem muito apetite, ela comeu dois bocados e deixou o prato na mesinha baixa. A barraca não era grande, mas dava para ela ficar sozinha. O sinal de internet na região era ruim, e com o deslizamento de terra causando falhas na linha, o celular funcionava de forma intermitente. Naquela noite, Shen Xingrou dormiu muito mal, virando-se de um lado para o outro, a mente cheia de lembranças do passado com He Su. Nos dias seguintes, Shen Xingrou ou acompanhava o resgate no local para reportar, ou ajudava no caminho das operações de socorro. Com o tempo, ficou íntima da maioria dos socorristas, e o Irmão Zhang brincou que ela não estava ali para reportar, mas sim como voluntária. Nesses dias, ela também viu He Su acordar cedo e dormir tarde, trabalhando incansavelmente para salvar as vítimas. Mas, à medida que o número de feridos aumentava, os mais graves eram levados para o hospital mais próximo. Com sua habilidade médica excepcional, ele logo ganhou fama entre as equipes de resgate médico. Ela ficou curiosa: por que um médico do nível dele se ofereceria para vir à linha de frente salvar vidas? Repórteres de outras empresas disputavam para entrevistar a equipe de resgate, registrando o trabalho incansável deles ao prestar atendimento profissional às vítimas. O editor-chefe, não se sabe de onde ouviu o boato, também queria que eles entrevistassem He Su. Os convites feitos por outros repórteres da empresa foram todos recusados pelo homem. A única que restava, Shen Xingrou, achava que não teria chance. Até repórteres veteranos e experientes foram barrados, quanto mais uma novata? O resultado os surpreendeu: o Dr. He pediu especificamente que ela o entrevistasse. Shen Xingrou não sabia se ria ou chorava por dentro. Chorar, porque era uma boa oportunidade para se provar; rir, porque sentia que o homem devia estar tramando algo para prejudicá-la. De qualquer forma, quando Shen Xingrou se sentou ao lado com o microfone, o olhar do homem estava cheio de um sorriso malicioso. Ela olhou para o teleprompter que os funcionários seguravam e, fingindo calma, fez uma série de perguntas sobre o trabalho de resgate. Felizmente, ele não aprontou nenhuma. Respondeu a todas as perguntas sem dizer nada que a constrangesse. Terminada a entrevista, Shen Xingrou arrumou os equipamentos para ir embora, mas o homem bloqueou seu caminho. "Eu te fiz um grande favor, não mereço nada em troca?" Shen Xingrou franziu a testa, confusa. "A entrevista foi voluntária, eu não te forcei." O homem, com o cabelo verde, era extravagante e malandro: "Recusei entrevistas de várias emissoras, só escolhi você." Shen Xingrou sorriu levemente: "E daí?" "Você deveria me agradecer direito." Sem querer se envolver muito com ele, Shen Xingrou sorriu com paciência: "Obrigada, Dr. He, por tirar um tempo da sua agenda para me conceder esta entrevista." "Atitude boa." "Então posso ir?" He Su assentiu e se afastou para deixá-la passar. Liberta, Shen Xingrou saiu correndo do local. Vendo a garota agir como se ele fosse fazer algo com ela, He Su soltou outra risada fria. Essa garota era sensível demais; não podia apressar as coisas, tinha que ir devagar. As más impressões que ele deixou antes não mudariam da noite para o dia, fazendo com que ela baixasse a guarda. Lembrando-se do conselho de Shen Xiaoxing antes de partir, para que cuidasse bem dela, He Su se apoiou na mesa de trabalho, cruzou os braços e suspirou, resignado. ... A maioria das vítimas foi resgatada, os feridos receberam atendimento imediato, e os casos graves foram encaminhados para hospitais da cidade. O incidente foi encerrado temporariamente. Como a emissora tinha novas tarefas, Shen Xingrou ficou apenas uma semana e partiu. Antes de ir, ela pensou em se despedir rapidamente de He Su. Afinal, os dois se conheciam. Mas, vendo o homem ocupado socorrendo as vítimas, ela não quis atrapalhar. Shen Xingrou teve um mérito considerável dessa vez. Ao voltar, foi elogiada publicamente pelo editor-chefe, e Yan Qinxue rangeu os dentes de inveja. Depois da reunião, Liu Xuxu sorria de orelha a orelha. "Você não viu a cara verde que ela fez, só de pensar já dá vontade de rir!" Shen Xingrou segurava uma pasta com uma mão e, com o crachá pendurado no peito, sorriu levemente: "É tão divertido assim? Sua boca já está quase nas orelhas." "Claro que estou feliz! É raro vê-la com o rabo entre as pernas. Não vou só rir, à noite ainda vou fazer uma comemoração!" Liu Xuxu cutucou-a. "Combinado, você tem que ir à noite, é uma recepção para você!" Shen Xingrou não gostava muito de agitação. "Não, eu..." Liu Xuxu não aceitou desculpas: "Qual é, você tem só 24 anos, não 44. Não fique aí seguindo regras como uma velha, a vida fica tão sem graça." Sem conseguir resistir à insistência de Liu Xuxu, Shen Xingrou acabou concordando. No corredor, as duas conversavam e riam, quando o som agudo de saltos altos ecoou atrás delas. Liu Xuxu, distraída, foi atingida com força por alguém que passava correndo. Shen Xingrou a segurou a tempo, e Liu Xuxu ergueu a cabeça com irritação. Quem a tinha batido era justamente Yan Qinxue, a quem estavam zombando. "Desculpa, não vi que você estava na frente." Ela se virou e olhou para Liu Xuxu e Shen Xingrou com uma postura arrogante e desdenhosa. "Mas, afinal, quem mandou vocês duas se empolgarem? Cachorro bom não atrapalha o caminho." Essa frase irritou Liu Xuxu de vez: "Yan Qinxue, de quem você está falando?" "De quem responder." "Você..." Shen Xingrou segurou Liu Xuxu e disse baixinho, calmamente: "Deixa pra lá. Você não ia fazer um jantar? Vamos pensar no que comer à noite?" Liu Xuxu também não queria perder tempo com esse tipo de pessoa. Quando passaram por ela, Yan Qinxue falou com uma voz fria e ameaçadora: "Não se anime tanto. Você só pegou a reportagem que eu descartei. Sem mim, esse prêmio não cairia na sua mão." Liu Xuxu não aguentou mais e abriu a boca para rebater, mas a garota ao lado deu um tapinha na mão dela e ergueu os olhos frios para Yan Qinxue. "É verdade, tenho que agradecer muito à Srta. Yan por sua generosidade. Senão, esse prêmio de hoje não teria vindo para mim." As palavras, à primeira vista, eram simples e inofensivas, mas para a pessoa em questão, o significado era diferente. Pura provocação! Yan Qinxue se arrependeu amargamente de ter dado uma oportunidade tão boa para Shen Xingrou. Já estava incomodada por dentro, e agora, com essa provocação descarada, rangeu os dentes de raiva. No fim, só pôde bater o pé e sair furiosa. "Tem algum problema com a cabeça dela." Liu Xuxu não se conteve e xingou. "No começo, ela mesma não quis ir, e agora que o mérito está sendo distribuído, começa a ter inveja." Shen Xingrou disse, indiferente: "Deixa ela pra lá. Vamos embora." "Mas você também, foi tão boazinha com ela agora? Se fosse eu, teria rebatido na hora, para irritá-la de vez." "Todo mundo trabalha na mesma empresa, não precisa deixar a relação tão estremecida." Shen Xingrou sorriu levemente. "Já sabemos como ela é, é só evitar quando passar por ela."