Shen Xingrou hesitou por um instante, virou a cabeça e viu o homem se afastar com o olhar sombrio. Seu coração deu uma pausa breve, e então seus olhos caíram sobre o rosto radiante de Fu Yange. Os dois haviam se entendido, e Fu Yange ficou na vila até tarde antes de ir embora. Deitada na cama, Shen Xingrou se revirava sem conseguir dormir, sentindo que faltava algo em algum lugar do coração. Mas não conseguia explicar o quê.
Fu Yange dirigiu pela orla e avistou uma figura solitária na beira da estrada. Ao reconhecê-la, parou o carro. — Dr. He? He Su virou-se ao ouvir a voz e, ao vê-lo, fez uma cara feia. — Sai fora! Fu Yange não se irritou com a recusa. Abriu a porta do carro e desceu, deixando o vento bagunçar seu cabelo curto. O jovem, ereto como um pinheiro, disse: — Dr. He, por que você não contou a ela antes? — Fala direito! — He Su conteve o impulso de chutá-lo no mar. — Você gosta da Xingrou, por que não contou a ela? He Su congelou. — O que quer dizer? — O vento está forte à noite, Dr. He, é melhor voltar cedo para descansar. Afinal, você se feriu para salvar a Xingrou, é justo que eu me preocupe em seu lugar. — Fu Yange sorriu com elegância. — Quer que eu o leve de volta? — Cai fora! — He Su percebeu a provocação em suas palavras. — Não me faça ter que te ver de novo! Fu Yange, com o sorriso ainda nos lábios e um brilho enigmático nos olhos, acenou levemente com a cabeça: — Até logo.
Depois que ele foi embora, He Su franziu a testa, fixando o olhar nas ondas distantes. A voz do jovem ecoava em seus ouvidos repetidamente. [Você gosta da Xingrou, por que não contou a ela?] [Se continuar teimando assim, ela vai acabar se tornando a senhora da família Fu.] Será que ele demorou demais para encarar seus próprios sentimentos? Ela era tão jovem, acabara de entrar na faculdade, com um futuro brilhante pela frente. E ele? Sozinho, quase uma década mais velho... Como poderia dizer isso?
Quando todos se dispersaram para subir e descansar, um empregado correu para avisar que He Su havia voltado. Shen Xiaoxing, com as pernas cruzadas, estava sentado no sofá de losangos dourados. Ao ver o homem de cara fechada na porta, ergueu levemente uma sobrancelha. Voltou para se declarar? An Ruo, já de pijama, soube que ele tinha voltado e parou no topo da escada, vendo de fato aquela figura chamativa. O homem batia com os dedos longos na xícara de chá, erguendo uma sobrancelha com um sorriso malicioso: — Não comeu o suficiente, veio encher a barriga? — ... Que canalha! Shen Xiaoxing, você não é gente! He Su avançou com passos largos, sentou-se de uma vez no sofá, com o rosto bonito carregado de mau humor: — Minha cabeça dói, se eu morrer na rua, você não aguenta a responsabilidade! — Hã. — Shen Xiaoxing riu baixinho. — Vou mandar o motorista te levar. Pelo visto, ele queria que ele fosse embora? He Su o encarou friamente. — Você não consegue falar a verdade nem para salvar sua vida? A voz de An Ruo veio de cima: — Dr. He tem trabalhado duro ultimamente, com os ferimentos, não é bom voltar tão tarde. Fique para dormir aqui. — Olha só, que palavras agradáveis. — He Su, com seu mau hábito incurável, disse venenosamente: — Você, depois de tanto tempo com ele, não aprendeu nada de bom! An Ruo sorriu levemente para ele, acenando com a cabeça em cumprimento. Voltou para o quarto, deixando que os dois amigos conversassem em particular. — Ela está no primeiro quarto da curva no segundo andar. — Shen Xiaoxing não tinha nada para conversar com ele. Deixou essa informação que ele queria saber, levantou-se e foi para o quarto. Quem é que vai ficar acordado até tarde sem abraçar a esposa para esquentar a cama? Só um solteirão de boca suja e teimosa como He Su é que dorme sozinho em cama fria.
He Su acabou ficando no quarto em frente ao de Shen Xingrou. Chegou à porta, ergueu a mão para bater, pensou um pouco e a deixou cair, impotente. Quando se virou, desolado, a porta se abriu de repente. Shen Xingrou olhou para suas costas instantaneamente tensas, surpresa: — Você... o que está fazendo aqui? Ele não tinha ido embora? De costas para ela, o coração de He Su acelerou, como um ladrão de corações. Não ousou se virar para olhá-la imediatamente, e seu primeiro pensamento foi fugir! E, pensando assim, ele realmente fez isso. Shen Xingrou o viu, atônita, entrar rapidamente no quarto em frente e bater a porta com força. Suas costas pareciam realmente apressadas. Ela não entendia o que ele estava fazendo. Mas, como ele sempre agia sem regras, e não respondia quando ela o cumprimentava, ela decidiu não ir perguntar. Também não queria se meter.
— Deitado na cama, o homem fitava o escuro do quarto com olhos negros, revirando-se sem conseguir dormir. Droga! Ele tinha um ferimento na nuca e não podia tomar remédio para dormir. Com aquela longa noite pensando nela, como ia pegar no sono? Irritado ao extremo, o homem chutou o cobertor para longe, pegou o casaco pendurado na cadeira e o vestiu. Abriu a porta com cuidado, andou de um lado para o outro na frente do quarto dela. Várias vezes quis bater, mas se conteve com raiva. Ficou sentado encostado na porta dela por um bom tempo, sem querer ir embora. Mas não foi só ele que passou a noite em claro. Shen Xingrou apertou o casaco contra si e encontrou o homem encostado na porta do quarto dela, com a cabeça baixa, como se estivesse dormindo. Ela se aproximou. — Por que você não vai dormir no seu quarto? O homem ergueu a cabeça de repente, e os olhos deles se encontraram inesperadamente. Os dele, profundos e escuros, refletiram-se nos olhos âmbar dela. Shen Xingrou se assustou. — O que você está fazendo sentado na minha porta? Pego nessa situação constrangedora, ele tossiu levemente, cobrindo a boca com o punho, e se apoiou na parede para se levantar: — Eu... saí para esticar as pernas, cansei e sentei para descansar um pouco. — ... Ele explicou teimosamente: — Não entenda mal, não é que não consiga dormir e queira ficar de guarda para você. Não tenho esse tempo. Shen Xingrou acenou levemente com a cabeça: — Ah. Ele devia estar com a cabeça muito ferida, já estava falando besteiras. — Amanhã é melhor você consultar um médico para ver essa cabeça, não acha? O homem ergueu uma sobrancelha. — O quê? — ... Quero dizer, para ver se não machucou algum nervo. — ... — He Su disse friamente: — Está me xingando? — Não. — Shen Xingrou balançou as mãos apressadamente. — Só estou preocupada com você. O que era uma frase sem intenção soou diferente para He Su. Ele prendeu o olhar no rostinho dela e sorriu com desdém: — Preocupada comigo? Não tem medo de seu namoradinho ficar com ciúmes? Shen Xingrou não entendeu. — ... O quê? — Você não gosta dele? — He Su parecia ansioso pela resposta dela, seus olhos profundos fixos nela. — Gosto, sim. Se não gostasse, por que aceitaria ser namorada dele? — O que ele tem de bom para você aceitar? — He Su riu com sarcasmo. — Você realmente não viu o mundo. Qualquer um te engana com um doce, e você ainda vai contar o dinheiro para ele depois de ser vendida. Shen Xingrou o defendeu: — Jiajia não é esse tipo de pessoa. Ele estalou a língua: — Que chamamento íntimo. Esse apelido soa tão afeminado. — Ele é meu namorado, tem algum problema em chamá-lo assim? He Su queria dar um tapa nela para acordá-la! — Ele não é tão ingênuo quanto você pensa. Não se deixe enganar por ele! Fu Yange percebeu que ele gostava de Shen Xingrou, e aquele sorriso cheio de significado ficou gravado na mente de He Su. Se ele não fosse tão perspicaz, não teria notado que He Su se colocava como irmão mais velho diante de Shen Xingrou, nem seus sentimentos. No fim das contas, aquele garoto não lhe agradava de jeito nenhum! — Ele não te provocou, por que você fica falando mal dele? — Shen Xingrou franziu a testa. — Eu o conheço há anos, conheço bem o caráter dele. Não preciso que o Dr. He me lembre. — ... — Aliás, você, quando Fu Yange não sabia que você não era meu irmão, te respeitava tanto, e você vivia implicando com ele. Agora que ele é meu namorado, você fica criando intrigas. — Shen Xingrou mordeu o lábio. — Não pense que, só porque me salvou, pode usar isso como chantagem!