Mas, se não fizesse isso, com essa pouca habilidade dela, como poderia falar em vingança? No começo, foi a família Ji quem agiu com injustiça primeiro; ela só foi um pouco desonesta, não é tão exagerado assim, certo? Song Weiwei tinha mágoas que não conseguia expressar, afundada em autocensura e culpa, nessas noites passava horas sem dormir, revirando-se na cama. Escolher a tranquilidade e não se vingar, ela estaria traindo os pais e a família que a criaram; mas se se vingasse, precisaria machucar pessoas que não queria ferir. Ji Chen não tinha culpa, nascer na família Ji também não era erro, mas e ela, qual era o erro? O erro era ter escondido sua identidade e enganado os sentimentos dele? Cada vez que via o olhar profundo dele para si, sentia-se culpada, como uma ladra que não pode ser vista à luz, cheia de vergonha e inferioridade. Song Weiwei tinha os olhos marejados, o nariz vermelho; pegou a garrafa de bebida e bebeu vários goles, até que, por fim, a jogou com força no chão, abraçando-se a si mesma e chorando baixinho. Ela se deitou lentamente no chão, olhando para o lustre de cristal embaçado com os olhos semicerrados, as lágrimas escorrendo sem parar pelo rosto. Chorou até não conseguir mais se controlar. Depois de muito tempo, parecia que as lágrimas tinham secado; a luz a irritava, deixando seus olhos ardendo, então ergueu o braço para bloquear a visão e, aos poucos, acabou adormecendo. Teve um sonho: voltou à sua adolescência, a mansão da família Mu estava firme no lugar mais movimentado de Shencheng, admirada por todos. Alguém a sacudiu para acordá-la; ela abriu os olhos com cansaço, e a primeira coisa que viu foi o rosto jovem e ingênuo de Mu Yun. Song Weiwei ficou paralisada, e Mu Yun franziu as sobrancelhas, confuso: "Irmã, o que houve?" Ela o encarou, atônita. Mu Yun tinha morrido com pouco mais de dez anos... "Levanta logo, o avô está esperando a gente para partir!" Song Weiwei, ainda atordoada, foi puxada pelo pulso e erguida à força. Sua mente estava uma bagunça; sabia no coração que Mu Yun já tinha partido há muito tempo, mas... a mão que ele segurava era tão real. A porta do quarto se abriu, e uma luz imensa entrou, ardendo seus olhos; depois de se adaptar, ela abaixou o braço. O pátio na memória parecia ter revivido: cada flor, cada grama, cada tijolo, cada telha lembravam exatamente a casa dos Mu de nove anos atrás. Ela estava sonhando? Os empregados que limpavam o pátio sorriam e a cumprimentavam; ela percebeu que talvez não fosse um sonho e, apressada, correu até a bacia d'água para olhar seu reflexo. Não era o rosto plastificado de Song Weiwei, mas a aparência jovem e ingênua de anos atrás; ela... ela agora era Mu Yan! Song Weiwei cobriu as bochechas com as mãos, um sorriso feliz se formando lentamente nos lábios; percebeu que não era um sonho e, rapidamente, levantou a saia e correu em direção ao pátio de suas memórias... "Pai! Mãe!" Song Weiwei entrou correndo na sala de estar familiar e viu Mu Zhong na meia-idade e Ruan Qingxu, elegante e nobre. As memórias vieram como uma comporta se abrindo, uma saudade avassaladora. Song Weiwei sentiu o nariz arder forte e, chorando, se jogou nos braços deles. "Pai, mãe..." Mu Zhong trocou um olhar com a esposa, como se não entendesse qual era a nova ideia de Song Weiwei, e deu tapinhas leves nas costas dela, sem saber o que fazer. Ruan Qingxu fingiu severidade: "Se você errou, tem que aceitar o castigo; reclamar com seu pai não adianta." Quando pequena, Mu Yan era muito travessa, aproveitando o carinho do avô e dos pais para fazer bagunça e errar. Dessa vez, com certeza tinha feito algo errado; Ruan Qingxu a puniu, com um tom de repreensão misturado a muito afeto. Mu Zhong acariciou suavemente o topo da cabeça dela, murmurando para acalmá-la: "Pronto, pronto, sua mãe só quer o seu bem. Sei que você sofreu, eu já falei com ela. Tá bom, já é uma mocinha, se continuar chorando vai virar uma gatinha borrada." "Você é quem mais a mima." Ruan Qingxu mantinha a pose de mãe severa: "Olha só, ela já está tão grande, mas parece uma menina? Passa o dia inteiro com uns meninos, ficou toda desajeitada." Mu Zhong fez sinal para ela falar menos e, com voz suave, consolou a filha no colo: "Minha querida Yan, pare de chorar; já é uma criança grande, não pode mais ficar de choro, hein." Song Weiwei o abraçou com força, chorando como uma criança que errou; só ela sabia o quanto sentia falta deles. "Pronto, foi só umas broncas, te coloquei num curso de etiqueta, é tão grave assim?" Ruan Qingxu suspirou, o olhar ficando mais suave: "Não é como se eu fosse te proibir para sempre de brincar com eles, para de chorar." Mu Zhong deu tapinhas nas costas dela para confortá-la: "Se não quiser aprender, não aprende; não posso deixar minha filha sofrer." "É você que a estraga assim; olha a senhorita Xu, a segunda senhorita Lin, andam elegantes, umas verdadeiras damas, diferente dela, que é toda agitada como um menino." Mu Zhong não concordava: "Essas mocinhas são todas frágeis e medrosas; minha Yan não precisa ser assim, que faça o que quiser." "Ah, você." Ruan Qingxu balançou a cabeça com um suspiro, não tinha jeito; em casa, Mu Yan era criada com mimos, e toda vez que ela tentava ensinar a filha a ser elegante, o marido e o avô sempre iam contra. Mu Yan também era esperta; sempre que ela a educava, corria chorando para contar a Mu Zhong, que, por amar a filha, logo pedia a Ruan Qingxu para não ser tão dura. "Deixe eles crescerem saudáveis, o resto não precisa forçar tanto." Mu Zhong acariciou a cabeça de Song Weiwei, com um sorriso gentil e afetuoso: "Yan ainda é pequena." "Pai..." Song Weiwei não conseguia parar de chorar, aninhada no peito do pai, encharcando o terno elegante dele. "Mãe." Ela estendeu o braço para abraçar Ruan Qingxu, que estava ao lado, olhando para eles com resignação: "Mãe, sinto tanto sua falta, tanto..." Ruan Qingxu a abraçou, o coração amolecendo: "Pronto, também não quero te forçar a fazer o que não gosta, mas uma menina, se for muito levada, quem vai querer se casar com você?" "Quero ficar sempre com vocês." Ruan Qingxu abriu a boca para dizer algo, mas Mu Zhong a interrompeu: "Yan ainda é pequena, isso a gente vê depois." Nenhum pai tem coragem de ver a filha se casar. "Irmã!" Mu Yun entrou correndo, todo agitado, e viu todos abraçados, uma cena tão calorosa que parecia exagerada. "Não é possível, irmã, desde quando você é tão sentimental?" Mu Zhong era rígido com o filho e, ao ouvir isso, franziu a testa: "Sem postura, sem jeito, cadê a dignidade de segundo jovem mestre da família Mu?" "Já entendi." Mu Yun mostrou a língua e lembrou: "Irmã, o avô já está pronto lá, vamos logo?" "Enxuga as lágrimas, não deixe o avô esperando." Song Weiwei estava com os olhos vermelhos; de repente, lembrou que era o inverno dos seus quinze anos, quando foi esquiar com Mu Yun e o avô. Ao pensar que o avô querido ainda estava vivo, ela não se conteve e saiu correndo. Na entrada, uma longa fila de carros de luxo estava estacionada; o velho mestre Mu conversava com o mordomo ao lado sobre assuntos, quando ouviu atrás de si: "Avô!" O velho mestre Mu virou-se ao som e viu Song Weiwei correndo em sua direção com a saia levantada; ele abriu os braços, sorrindo, e Song Weiwei pulou nele. O velho riu com alegria: "Ai, ai, Yan cresceu, o avô já não consegue mais te carregar, haha." "Avô..." Song Weiwei olhou para o rosto envelhecido, mas ainda imponente dele, com os olhos vermelhos e lágrimas caindo, a saudade a envolvendo: "Avô." "Ai, ai, por que está chorando do nada? Quem foi que maltratou minha Yan? Conta para o avô, que ele vai se vingar para você." Song Weiwei balançou a cabeça com um sorriso: "Não, ninguém me maltratou... é que senti muita saudade do senhor."