Capítulo 203: Capítulo 203: Shen Xiaoxing a acalmando com ternura

Quando o criado chamou o médico particular, An Ruo já estava inconsciente. A médica fez um exame completo em An Ruo, enquanto os outros ficavam bem afastados da cama. Shen Xiaoxing, sentado na cadeira de rodas, tinha o olhar vago, as mãos e o corpo cobertos de sangue. Não era a primeira vez que via tanto sangue, já presenciara cenas mais sangrentas e perigosas, mas nenhuma o deixara tão apavorado, temeroso e desnorteado quanto aquela. Ao ver a garota sangrando tanto, seu coração subiu à garganta, e ele ficou atordoado, sem saber o que fazer em seguida. A ponto de quase ser visto pelo criado que entrou, mas felizmente Han Chong o chamou a tempo, evitando uma situação ainda mais complicada. — Patrão... — A médica hesitou após o exame: — A patroa... Shen Xiaoxing tinha transtorno explosivo. Ele apertou o braço da cadeira com força, esforçando-se para controlar a mente, para não se precipitar e agarrá-la pelo colarinho, perguntando com irritação. Não podia expor esse defeito diante de An Ruo. Com a voz rouca, sentiu que nem era ele quem falava: — Ela... como... está? — A patroa não corre perigo, mas o bebê que ela carregava... se foi... Ao ouvir a primeira parte, o homem soltou o braço aliviado, mas a segunda parte e as duas últimas palavras o jogaram no inferno como um golpe de bastão. Com a voz gélida: — O que significa "se foi"?! — Se... se foi é que... o bebê não está mais. A patroa tomou um abortivo, já não há como reverter, o bebê não pode ser salvo... Shen Xiaoxing ficou surdo, um zumbido constante impedia-o de ouvir o que a médica dizia em seguida. Ele ergueu a mão e bateu forte na orelha, mas ainda não ouvia nada. — Patrão... — Han Chong percebeu que algo estava errado e se aproximou, chamando-o duas vezes. O homem rangeu os dentes com força. A surdez temporária o fez recobrar a consciência, e seu coração parecia ter sido arrancado a faca, deixando um buraco aberto por onde o vento frio uivava, fazendo-o tremer de dor. Han Chong ficou atônito. Nunca vira o patrão tão estranho; normalmente, acontecesse o que fosse, ele mantinha a calma. Sabia que tinha transtorno explosivo e deliberadamente reprimia o temperamento para parecer normal. A médica disse em voz baixa: — A patroa é jovem, se cuidar bem do corpo, ainda terá filhos... Shen Xiaoxing fechou com força os olhos ardidos, franzindo as sobrancelhas viris. Não sabia por que, ao ouvir que o bebê se fora, seu coração parecia ter sido jogado num moedor de carne, doendo de forma sangrenta... Ele via todos os dias o quanto An Ruo ansiava pelo nascimento daquele bebê. Como ambos não tiveram uma infância boa, queriam derramar todo o amor que desejavam e não podiam ter sobre a criança. Apoiavam-se um no outro, aprendendo desajeitadamente sobre criação de filhos, aguardando juntos a chegada da nova vida. Quem diria que, em pouco mais de dois meses, o bebê se fora... — Han Chong! — O homem, com os olhos vermelhos, um olhar sombrio e aterrorizante como Satanás do inferno: — Investigue! Ele queria ver como um bebê tão saudável podia simplesmente desaparecer! Shen Xiaoxing fechou a mão. Já previra que o bebê não viveria muito, mas quando o dia chegou, não conseguia aceitar a verdade. ... A brisa matinal balançava levemente a cortina fina. Na cama branca leitosa, a garota de rosto sereno parecia uma beleza doentia, como um anjo de asas quebradas caído no mundo, despertando compaixão. Ela sonhava novamente, mas não com aquelas visões estranhas, e sim... Com os cílios levemente cerrados, abriu os olhos lentamente e viu o homem levantar-se da cadeira de rodas. Suas pernas estavam ilesas, ele andava ereto como uma pessoa normal. O homem esboçou um sorriso maligno. Atrás dele surgiram os membros da família Shen: o velho com sua bengala, a amarga Fang Yingxue, a fria e irritada Lin Zhao, os orgulhosos Shen Yu e Shen Tingfeng, e An Qing, que parecia se divertir... Seus sorrisos eram cheios de maldade, rostos feios e frios que se aproximavam cada vez mais. Eles a repreendiam, zombavam, insultavam. Até Shen Xiaoxing, que sempre fora gentil e carinhoso, agora estava frio, indiferente, vendo-a ser insultada por todos. As palavras duras se transformavam em facas invisíveis cravadas nela. Mas ela suportara tudo aquilo por anos; essas palavras ruins não a feriam. Só a frieza do homem a fazia gelar aos poucos... Ele prometera protegê-la, não se importar com sua origem, confiar e respeitar incondicionalmente. E agora? O choro de um bebê a fez erguer a cabeça. Viu o homem frio e rígido segurando um bebê pequeno, recém-nascido, ainda coberto de sangue. Ela estendeu a mão para pegá-lo, mas ele a evitou com frieza. Vários seguranças avançaram e a jogaram no chão. Ao lado, An Qing sussurrava ao ouvido do homem, dizendo que ela tinha um caso com outro homem e dera à luz um bastardo imundo de origem desconhecida! — Um bastardo de outro homem, não merece viver neste mundo! — Os olhos do homem se escureceram, e ele apertou o pescoço fino do bebê. Ela lutou com todas as forças, mas ouviu-o dizer com desprezo: — Você é tão suja! Essa frase foi como uma flecha fria cravada em seu coração, doendo a ponto de sufocar. Mas ela não se importou com a maldade do homem. Ele ergueu o bebê e ficou numa torre de mil metros de altura, riu com frieza e, sem piedade, jogou a criança para baixo— — Não! A voz de An Ruo estava rouca! Seus olhos assustados se encheram de lágrimas. Ela, que nunca chorara diante dele, agora estava banhada em lágrimas. Com uma força que não sabia de onde vinha, livrou-se dos seguranças, correu até a borda da muralha e olhou para baixo. Só viu escuridão e uma pequena mancha de sangue... O bebê, se fora. Um frio a envolveu. Ela virou o rosto trêmula e viu o homem com um sorriso cruel nos lábios, dizendo palavras que feriam seu coração, enquanto abraçava a radiante e bela An Qing. Ele não era o Shen Xiaoxing gentil que a consolava, não era... An Ruo fechou os olhos com dor, o coração doía em espasmos. Lágrimas escorriam de seus olhos, molhando o travesseiro. Uma mão quente e grande tocou seu canto do olho, e uma voz grave, cheia de ternura, disse: — Garota, acorde, acorde... An Ruo sentia o peito apertado. Nunca sentira tanta dor no coração, como se algo fosse arrancado pela raiz, uma dor tão intensa. — Teve um pesadelo, não foi? — Shen Xiaoxing afagou os cabelos molhados de lágrimas, inclinou-se e beijou sua testa, murmurando: — Não tenha medo, estou aqui ao seu lado. A garota tremeu levemente os cílios cobertos de lágrimas. A visão embaçada foi clareando, e o que viu foi o rosto viril e impressionante do homem. Seu coração apertou de repente! — Não tenha medo. — Shen Xiaoxing a puxou para perto, envolvendo-a no cobertor, e bateu levemente em suas costas como se acalmasse uma criança, dizendo baixinho: — Durma mais um pouco. Estou aqui com você, não vou embora. O quarto estava tão silencioso que só se ouvia o som de suas mãos batendo no cobertor que a envolvia... An Ruo aos poucos voltou a si. Percebeu que não estava mais no sonho. O homem diante dela era tão gentil como sempre, sem frieza ou indiferença. Parecia irreal. Shen Xiaoxing não dormira a noite toda. A perda do bebê o abalara profundamente. Passara horas fumando na varanda, e, com medo de que a garota acordasse e não o visse, tomou banho e voltou para ficar ao lado da cama. Em apenas uma noite, ele estava abatido e preocupado, com uma barba por fazer verdejante, olhos fundos e vermelhos, e sombras escuras sob eles.