Capítulo 140: Capítulo 140: A Metade do Seu Cérebro que Restou

Os olhos do homem a fitavam profundamente, seu olhar se estreitando, como se todo o seu mundo se resumisse a ela. “Eu disse que tenho capacidade de te proteger. Como Sra. Shen, você deveria viver com ousadia e liberdade.” O polegar dele acariciou suavemente o rosto dela. “Espero que o que eu trago para você seja um apoio sólido, não medo ou insegurança.” An Ruo o encarou, atônita. “Quem realmente deveria pedir desculpas por causar transtornos sou eu, porque minha vida é um aperto, um lamaçal.” Ele segurou a mãozinha dela e deu um beijo leve em suas costas: “Sra. Shen, você está disposta a se meter nesse lamaçal comigo?” A garota baixou levemente os olhos, fixando-se no polegar bem cuidado e arredondado do homem, em silêncio. Vendo-a em silêncio, o coração dele deu um pulo. Ele afrouxou um pouco a mão que a segurava. Parecia que ela ainda não estava pronta. An Ruo de repente agarrou a mão do homem, ergueu os lábios num sorriso suave, as covinhas nas bochechas bem visíveis: “Você já me chamou de Sra. Shen, como eu poderia não me meter?” O mais importante entre marido e mulher é a confiança, e era exatamente isso que faltava entre ela e Shen Xiaoxing! O rosto bonito de Shen Xiaoxing suavizou um pouco. Da escuridão e violência de antes, uma única frase dela dissipou completamente as nuvens, e seus olhos se encheram de ternura. “Vamos para casa?” “Está bem.” ... Shen Xingrou chupava um pirulito, voltando ao apartamento com familiaridade. Ao abrir a porta, descobriu que o homem que normalmente estaria no trabalho estava deitado no sofá, com o volume da TV bem alto, os olhos semicerrados, assistindo a um programa com ar abatido. “Por que o Dr. He voltou tão cedo hoje?” Shen Xingrou sentou-se na outra ponta do sofá, olhando para o que passava na TV com desprezo: “Tão grande e ainda assistindo Bob Esponja?” Ele estava regredindo? He Su ficou com uma expressão indiferente, sem dar a mínima para ela. Sentindo-se sem graça, Shen Xingrou foi para o quarto resolver exercícios. Quando terminou, sentindo o corpo mole, olhou para o relógio: seis e meia. Espreguiçou-se e foi para a sala. A essa hora, o homem já deveria estar na cozinha preparando o jantar. Ela passou pela cozinha, sem movimento. Espiou e viu que ele ainda estava assistindo Bob Esponja! Shen Xingrou colocou as mãos na cintura, atrás do sofá: “Dr. He, você não vai preparar o jantar para mim?” O homem tinha um ar doentio de cansaço, pegou o controle remoto na mesa e aumentou o volume. A sala inteira se encheu da risada irritante do Bob Esponja e do Patrick. “Ei!” Shen Xingrou, irritada com o barulho, arrancou o controle da mão dele e foi abaixando o volume devagar. “Que barulho infernal!” He Su coçou a orelha. A mais barulhenta aqui era ela! “Vamos comer ou não?” “Hoje não estou com fome. Resolve o jantar sozinha.” Shen Xingrou ergueu uma sobrancelha: “Você também tem dias sem apetite?” “Não me force a te xingar.” “...” “Eu não sei cozinhar, como vou resolver?” “Vai comer fora.” “Não, fora não é seguro.” A experiência na viela naquela noite ainda a assustava só de pensar. “Então peça delivery. Não me enche.” Shen Xingrou pegou o celular. Para evitar ser encontrada pela família, ela tinha trocado de número, mas não podia mexer no dinheiro do banco. Se mexesse, não estaria revelando onde estava escondida? Só podia usar o dinheiro do WeChat. Ela olhou para o homem: “Você não vai comer?” He Su tossiu forte algumas vezes, com a voz grossa: “Não estou com fome.” “Sua voz não parece boa. Está resfriado?” “Não vou morrer.” “Que bom. Se morresse, ninguém cozinharia para mim.” He Su a encarou com olhos de boi. Ela estava mesmo querendo uma bronca?! Apesar de falar assim, ao pedir a comida, Shen Xingrou pediu um pouco mais. Vendo-o tão abatido, só podia comer coisas leves. Enquanto esperava a comida, entediada, Shen Xingrou pegou o controle e mudou de canal. Passava uma série de detetives antiga com Shi Yibo. Ultimamente, ela via mais TV e, com isso, prestava mais atenção nas fofocas. Esse jovem ídolo da nova geração era bem inspirador no mundo do entretenimento, e ela tinha virado fã. “Muda de canal!” “Assiste menos esses desenhos sem nutrição.” “E você acha que isso tem nutrição?” “Pelo menos é mais maduro que o seu. Meu primo de três anos não assiste esse desenho infantil, e um homem quase nos trinta assiste com tanto gosto.” He Su ergueu a voz, irritado: “Você está querendo briga, porra?!” Por falar alto, machucou a garganta e tossiu ainda mais. “Fala menos, não vai me passar essa bactéria.” He Su a encarou friamente. Essa garota estava mesmo pedindo um corretivo! No final, He Su, dominado pela doença, caiu no sofá todo abatido e acabou assistindo com ela à novela de ídolos masculinos que ela tanto admirava. Uns vinte minutos depois, bateram na porta. Shen Xingrou largou o controle e foi pegar a comida. He Su aproveitou para mudar de canal. Era muito melhor assistir Bob Esponja. Na idade imatura dela, era isso que combinava. Shen Xingrou colocou a comida na mesa de centro. Um cheiro de óleo de cozinha apimentado se espalhou. O homem franziu as sobrancelhas grossas: “Tira isso!” “Vou ver minha série.” “Assiste no celular.” “Não tenho assinatura.” Shen Xingrou pegou o controle e voltou para a novela. “Agora não sou mais uma garota rica, tenho que economizar.” “...” “Come.” Ela estendeu o mingau de painço sem graça para ele. O homem revirou os olhos e virou o rosto, ignorando-a. “Você está doente, só pode comer mingau leve.” Bonitinha, ela até entendia! “Sou médico. Se estou doente ou não, eu sei.” “Mas agora você está doente sim. A meleca do nariz já está quase caindo na boca.” O homem instintivamente passou a mão no nariz, mas percebeu que ela estava mentindo e ainda deu uma risadinha. O rosto bonito escureceu na hora. “Come logo enquanto está quente.” Shen Xingrou começou a chupar o macarrão, com óleo na boca, e disse meio enrolada: “Se não comer, como vai ter força para brigar comigo?” He Su era do tipo que cede ao carinho, não à força. Levantou-se devagar. A gripe e a febre o deixavam tonto e pesado, com a boca amarga, sem gosto para nada. Vendo que ele ia comer, Shen Xingrou sorriu, satisfeita e vitoriosa. Ela já estava começando a entender os gostos e fraquezas daquele homem. ... Depois do jantar, Shen Xingrou tomou um banho quente e gostoso, vestiu o pijama novo de pelúcia de coelho e se deitou na cama para rolar o feed do Weibo. Ela tinha virado fã de Shi Yibo de vez. Seguia os super tópicos e fã-clubes, e visitava tudo todo dia. De repente, deu sede. Ela foi para a sala pegar água. A TV ainda estava ligada, mas, depois do que ela disse, o homem tinha abaixado o volume. Ela bebeu vários goles e, ao olhar para o homem, viu que ele estava de olhos fechados, imóvel. Afinal, moravam juntos, e ela contava com ele para cozinhar. Já tinha se acostumado com a comida dele. Deixando de lado as picuinhas pessoais, Shen Xingrou se aproximou e colocou a mão na testa dele. Estava queimando. Até ela, uma leiga em cuidados básicos, percebia que era grave. “He Su, levanta. Você está com febre, precisa ir ao hospital.” O homem, de gênio explosivo, ficava ainda mais irritado quando doente. “Sai daqui.” “Se não for ao hospital, vai queimar o pouco de cérebro que te resta!” “...” “Levanta logo.” O homem, furioso, a empurrou: “Se continuar me enchendo o saco, juro que vou te dar um tapa!” Ela, de boa vontade, queria levá-lo ao hospital, e era tratada assim. Que injustiça! Shen Xingrou rangeu os dentes: “Faz o que quiser! Tomara que morra!” Ela deu dois passos, furiosa, mas de repente parou e voltou. Salvar uma vida vale mais que construir um pagode. Ter dado com um canalha desses, paciência!