Capítulo 836: Sinto que ele queria me intimidar
O papel branco manchado de vermelho foi jogado sobre a mesa, ainda com vestígios de sangue que Chen Ge havia limpado da mão.
Desde que Chen Ge entrou na sala de aula até aquele aluno ser derrubado, todo o processo durou apenas alguns minutos. Ninguém esperava que algo assim acontecesse, foi tão repentino.
Segurando sua mochila em uma mão, Chen Ge nem olhou para o garoto caído no fundo da sala e caminhou em direção à professora Liu.
— Fique do lado de fora! — A professora Liu nunca tinha visto um aluno assim, tão ousado, tão insano, desafiando completamente sua autoridade, agindo abertamente durante a aula.
— Professora, pode me punir como quiser, mas quem errou primeiro foi ele. Ele não sabia onde colocar as pernas, eu só queria ensiná-lo. — Chen Ge mal tinha entrado na sala e já estava sendo chamado para fora novamente.
Com a mochila na mão, Chen Ge abriu a porta da sala. Ao sair, viu o garoto da última fileira se levantando do chão, um líquido marrom-avermelhado escorrendo de sua cabeça, descendo pelo nariz até os lábios.
Os olhos do garoto transbordavam rancor, sua expressão distorcida, mas quando a professora Liu se aproximou, a maldade em seus olhos desapareceu, e ele forçou algumas lágrimas, com um rosto cheio de mágoa.
— Sabe fingir bem. Esses jovens precoces são completamente diferentes diante dos professores e pais e diante de quem eles intimidam. De um lado, inocentes, solares, esforçados e diligentes; do outro, maldosos, amargos, despejando toda a negatividade em suas vítimas.
Ao sair da sala, Chen Ge pensou nos olhares que os alunos lhe lançaram: "Já anotei quem queria me ver passar vergonha e se divertir às minhas custas. Esses canalhas provavelmente não conseguirão o reconhecimento da vontade da escola."
A vontade da Escola Assombrada era formada pela fusão das vontades desesperadas de inúmeras crianças. Antes, a maioria das crianças qualificadas para ser "abridores de portas" eram vítimas de bullying escolar.
Para completar a missão de Chang Wenyu e fortalecer seu poder, Chen Ge precisava encontrar os outros candidatos a "abridor de portas" que foram mutilados pelo selo do pintor.
"Ajudar os intimidados e educar os intimidadores do meu jeito talvez também me traga o reconhecimento da vontade da escola."
Ser reconhecido pela vontade da escola trazia muitos benefícios. Chen Ge sabia que não havia passado por aquelas coisas dolorosas, então buscou outro método para obter esse reconhecimento.
"O campus vermelho-sangue atrás da porta é enorme, com muitos alunos. Encontrar aquelas crianças qualificadas para ser 'abridores de portas' não será fácil."
De pé no corredor, Chen Ge olhou pela janela para dentro da sala, examinando cada criança: "Na terceira fileira de trás, o aluno ao lado do meu lugar tem terra na roupa e o livro amassado, como se tivesse sido esfregado. Essa criança também deve ter sofrido bullying."
Os lugares na sala eram organizados por desempenho escolar. A criança estava na terceira fileira de trás, com notas baixas, mas não péssimas.
A professora Liu estava dando uma bronca na sala quando percebeu que muitos alunos não prestavam atenção nele, mas olhavam para a janela. Confuso, ele se virou e encontrou o olhar de Chen Ge.
— Que absurdo!
Quanto mais pensava, mais irritado ficava. Ele foi direto para fora da sala: — O que está olhando? Mandei você refletir! Fique quieto e direito!
— Professora, estou refletindo, mas tem uma coisa que não consigo entender. — Chen Ge encarou a professora Liu de frente. — Que erro um professor comete para ser jogado num mundo cheio de emoções negativas e desespero? Ele ignora o bullying? Ou suas próprias ações já são uma forma de intimidar certas crianças?
— Isso não é algo que você deva refletir!
— Na sala, você viu. Ele colocou o sapato na minha cadeira primeiro. Eu só queria discutir, mas minha mão escorregou, a cadeira caiu e acidentalmente machuquei aquele colega. Admito meu erro, mas ele não tem culpa nenhuma? — Chenge falou rápido. — Na verdade, dava para evitar. Se você tivesse dito algo quando percebeu o problema, uma palavra bastava. Aquele garoto se comporta bem na sua frente, parece te ouvir.
A professora Liu quis se defender, mas Chen Ge o interrompeu: — Mas você não fez isso. Talvez tenha achado trabalhoso demais, ou simplesmente não se importou. Para você, o que ele fez foi só uma brincadeira entre crianças. Você já tem problemas demais na vida, por que se preocupar com isso? Ou talvez, ao me ver sendo intimidado, você tenha sentido um prazer secreto.
— Seu mentiroso!
— A natureza humana brota no abismo. Todos desejam o sol, mas quem sabe o que está escondido sob suas raízes? — Os olhos de Chen Ge eram profundos, forçando a professora Liu a desviar o olhar.
Ambos iam continuar, mas nesse momento, o som do sinal de fim de aula ecoou do fundo do corredor.
Diferente do sinal normal, aquele som carregava muitas coisas, era estranho.
— Reflita bem! Me entregue uma auto-crítica de três mil palavras antes do fim da aula! Senão, vou falar com o diretor Lei sobre seu problema. — A professora Liu voltou para a sala, anunciou o fim da aula e saiu apressado, sem nem pegar o material da mesa.
— Esse professor é meio irresponsável.
Chen Ge voltou para a sala com a mochila. Alguns alunos da frente, ao vê-lo entrar, rapidamente guardaram livros e copos e saíram correndo, como se já soubessem o que ia acontecer.
A sala ficou mais vazia. Chen Ge não se importou e foi até seu lugar.
Olhou para o colega ao lado e deu um sorriso amigável: — Olá, me chamo Chen Ge, sou seu novo colega de carteira.
O colega ouviu sua voz, mas não ousou responder. Ficou de cabeça baixa, olhando fixamente para o livro, com a perna tremendo involuntariamente.
— Dàbǐng, ele está falando com você! — Da última fileira, um aluno com o uniforme amarrado na cintura se levantou. Ao lado dele, outros quatro alunos cercaram Chen Ge e seu colega.
Ao ouvir a voz do garoto, o colega de Chen Ge abaixou ainda mais a cabeça, os olhos grudados no livro, as mãos apertando a alça da mochila.
— Surdo? Estou falando com você! — O aluno arrancou o livro das mãos do colega de Chen Ge.
As páginas rasgadas fizeram um som áspero.
O colega de Chen Ge ainda não disse nada. Ele se levantou de cabeça baixa e tentou sair da sala, mas outro garoto do fundo o segurou pela roupa.
— Para onde vai? O novato quer fazer amizade com você!
O garoto chamado Dàbǐng ficou parado, sem ousar resistir, sem falar nada.
— Que cabeça dura. Não é à toa que seus pais se divorciaram, nenhum dos dois quis ficar com você. — O líder dos alunos agarrou o pescoço do colega de Chen Ge. — Mas não se preocupe, vamos brincar com você, muitas brincadeiras divertidas.
Ele disse isso, e os outros alunos ao redor riram, uma risada cheia de maldade e zombaria.
Dàbǐng suportou as risadas dos colegas, de cabeça baixa, deixando o garoto segurar seu pescoço. — Ah, esqueci de algo? Dàbǐng, seu colega de carteira te perguntou algo. Agora diga: você quer brincar com ele ou com a gente?
Todos esperavam ver Dàbǐng passar vergonha. Os olhares, como facas, cortavam Dàbǐng.
Com o pescoço segurado, a roupa puxada, o livro roubado e as páginas rasgadas, Dàbǐng ficou ao lado da mesa, com o olhar apagado.
Ele abriu a boca para dizer algo, mas Chen Ge falou primeiro.
— Colega, não precisa se preocupar. Se você for meu amigo, e eu for amigo de todos, então você será amigo de todo mundo na sala. — Chen Ge estendeu a mão para Dàbǐng.
Nunca ninguém tinha falado assim com Dàbǐng. Instintivamente, ele fez um movimento para levantar a mão.
— Porra! — O líder agarrou Dàbǐng pelo pescoço e o derrubou. Antes que pudesse continuar, ouviu um barulho enorme ao lado.
Ele se virou e viu Chen Ge derrubar a mesa com um chute e pegar a cadeira intacta.
Sem mais palavras, a cadeira pesada bateu na cabeça do líder.
— Pah!
Uma perna da cadeira de madeira quebrou. Chen Ge ia chamar Xu Yin para limpar a área, quando um grito veio da porta.
— Chen Ge!
A professora Liu, que tinha esquecido o material, voltou para buscá-lo e ficou chocado ao entrar.
Mal tinha passado meio minuto desde que ele havia alertado aquele homem, e já havia outro aluno caído.
— O que, o que, o que você está fazendo?!
Ao ver o professor voltar, os alunos que estavam juntos mudaram de cara na hora e correram para ajudar o garoto no chão.
Chen Ge tinha batido com força, porque sabia que, se o outro pudesse se levantar, teria mais um problema para resolver.
— Professor! Ele derrubou Long Yuan, está desmaiado!
— Eu sei, não preciso que me diga! Levem ele para a enfermaria! — A professora Liu entrou correndo na sala e encarou Chen Ge. — Por que brigou de novo com os colegas? Dessa vez vi claramente, você começou! Me dê uma explicação razoável!
— Como dizer? — Chen Ge largou a cadeira quase desmontada e apontou para o garoto desmaiado no chão. — Foi legítima defesa. Pelo olhar dele, senti que ele queria me intimidar. Se não acredita, pode perguntar a ele quando acordar.
— Você é um desastre! Minha classe exemplar vai ser destruída por sua causa! Não, vou falar com o diretor Lei agora! — A professora Liu estava realmente furiosa. — Vocês, levem ele para a enfermaria! Chen Ge, fique no corredor!
— Tudo bem. — A resposta de Chen Ge era sempre a mesma, duas palavras, sem emoção.
Depois que a professora Liu saiu, um aluno do fundo se levantou, rangeu os dentes e encarou Chen Ge: — Dessa vez a professora Liu te salvou, sorte sua. Depois da aula, vamos acertar as contas.
Ouvindo a ameaça, Chen Ge ficou surpreso: — Isso é o que eu deveria dizer. Se a professora Liu não tivesse entrado, vocês nem teriam chance de virar fantasmas.
Acenou com a mão, sorriu e pegou sua mochila: — Depois da aula, nos vemos lá.
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